quarta-feira, 17 de setembro de 2014

NOVO ANO ESCOLAR COM VELHOS PROBLEMAS POR RESOLVER


VERGONHA é a única palavra que me ocorre relativamente ao facto de existirem 23 turmas formadas por alunos de dois níveis diferentes. Isto é impensável, passados 40 anos de Abril, com o aumento do número de professores licenciados e com o decréscimo do número de alunos, por natalidade e emigração, impingirem aos madeirenses, uma situação como aquela, a junção de turmas, quando se sabe que tal decisão política tem por base razões claramente economicistas. Gritam os pais e com toda a razão. E o pior, tal como se lê na peça  do DIÁRIO, o facto da directora da escola, Paula Noite, como o Delegado Escolar, Joaquim Batista Rosa, terem recusado a prestar informações ou mesmo emitir opinião pessoal, remetendo para a Secretaria da Educação, alegando estarem "proibidos" de falar à comunicação social. "São as ordens que temos", justificaram. Isto é, voltaram ao tempo do silenciamento bem característico do "Estado Novo", mantendo a necessidade de bloquear as insuficiências políticas que estão à vista de todos. O mais caricato é que avançam com argumentos como se nós fossemos tão analfabetos quanto eles. Justificam, até, com a existência de correntes científicas que provam que não existe mal algum na conjugação de níveis diferentes. Tenham VERGONHA no sentido político. Porque a verdade está nesta simples frase de um director regional: "não há recursos para pagar turmas com ‘meia-dúzia’ de alunos". 


Ao professor compete-lhe, como se tratasse de um computador, mudar de página ao ritmo de um "click". Deveriam era poder fazer um "delete" a toda esta secretaria regional! Eu que dediquei toda a minha vida profissional à escola, olho para este secretário e questiono-me se alguma vez leu alguma coisa sobre política educativa? Se ele tem alguma mão nesta secretaria do governo? Se ele fosse, apenas, sindicalista, como foi, em nome dos professores, o que estaria a dizer perante uma situação destas? Interrogo-me, se dormirá bem com a sua consciência depois de três anos e tal de governo e nem uma iniciativa portadora de futuro tenha apresentado? Uma  iniciativa que nos tivesse ficado em memória! Zero. 
Para o secretário tudo isto significa a abertura do ano escolar “na mais absoluta normalidade”. Eu diria: normal anormalidade. Um director regional assumiu que "não há recursos para pagar turmas com ‘meia-dúzia’ de alunos" e quantos aos livros para os alunos apoiados pela acção social educativa só daqui a um a dois meses, mas para Jaime Freitas estão “reunidos todos os recursos necessários para que o ano lectivo decorra na mais absoluta normalidade, desde os recursos docentes e não docentes, desde os recursos materiais, os contratos de fornecimento de alimentos, transportes” (...) “Em todas as circunstâncias estamos em condições de poder assegurar que este ano será um ano de normalidade para todos os alunos”. Espantoso, quando se sabe que as direcções executivas e os respectivos conselhos administrativos estão "afogados" em dívidas e dificuldades crescentes para desenvolverem os seus projectos pedagógicos. Mas sofrem em silêncio, porque estão "proibidos" de dizer o que pensam. Havia de ser comigo
Mas não é apenas isto que me preocupa. Mais preocupante, aliás como já aqui escrevi, é o facto da escola encontrar-se envolvida em um manto de rotinas que acentuam o retrocesso na aprendizagem. Podem multiplicar as aulas de Português e de Matemática, podem colocar os alunos com montanhas de "trabalhos de casa", podem retirar às crianças o direito de brincar, podem tornar a escola a tempo inteiro e os pais a meio tempo, podem ser um boa resposta a uma sociedade desorganizada, mas nunca conseguirão colmatar as gravíssimas insuficiências sociais, fundamentalmente as que derivam do desemprego e da concomitante pobreza. O secretário ainda não percebeu que a existência de Escola e de aprendizagem está muito para além do pressuposto que ela abre às 08:00 e encerra às 19:00. Que os professores estão lá. Que os funcionários administrativos cumprem as rotinas do seu trabalho. Que os auxiliares de acção educativa vigiam os pátios e controlam as faltas dos professores. Que a avaliação de desempenho docente está nos carris, embora  divida a classe docente. Que a avaliação externa vem a caminho. Que as cantinas fornecem a alimentação. Que as direcções executivas resolvem as questões de indisciplina e de violência, apenas, repito, apenas com alguns berros. Que a "Escola Segura" anda por ali. Que toda a enervante burocracia, de fichas e fichinhas, muitas repetidas e sem nexo algum, são preenchidas para deleite de quem as mandou preencher. Que as reuniões do conselho pedagógico e do conselho de turma e todas as outras são realizadas e elaboradas as extensas actas com todos os pormenores. A Escola, senhor secretário, é muito mais do que isso. Ela é vida e a vida de hoje implica que a ESCOLA seja completamente diferente. As preocupações centradas exclusivamente no professor devem deslocar-se para a criança. E só esta particularidade implica um novo sentido organizacional de ser escola. O secretário não entende isto. Prefere proibir!
Ilustração: Google Imagens.

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