terça-feira, 11 de novembro de 2014

"A TIRANIA ESTÁ IMPARÁVEL"


Na minha página de fb li dois comentários. O Padre José Luís Rodrigues, a propósito do despedimento da Jornalista Lília Bernardes, escreveu: "A tirania está imparável"; Fátima Alves Andrade exclamou: "estou fora de Portugal e, pergunto-me, o que se está a passar no meu querido país?" Respondo: não se trata apenas de excesso de poder, mas de um poder que se tornou opressor. As duas situações combinam-se, entrelaçam-se e são fabricadas de forma inteligentemente perversa. Os "donos" de todos nós, essa maldita máfia elegantemente vestida e bem falante, militante política ou não, portadora de um discurso que, pela repetição, convence os incautos, sabem como conduzir à "tirania", mantendo, em simultâneo, uma parte do povo a bater palmas. Ora, o que se está a passar no país não é mais do que um dente da complexa roda dentada, bem oleada e pacientemente mantida pela engrenagem institucional à escala europeia e mundial. É por isso que "a tirania está imparável", não respeitando nem princípios nem valores humanistas. Para os tiranos o dinheiro não tem pátria e, sem pejo algum, consideram "lixo" países e povos que trabalham cada vez com menos direitos, geram riqueza para entregá-la aos novos piratas. Silenciosamente, encostam povos à parede, deixando-os com salários de miséria, onde ter trabalho não significa não ser pobre. Gente que deixa as receitas médicas no balcão das farmácias e olha para o lado e vê filhos e netos em angústia permanente, perante a frieza dos que assumiram a responsabilidade de governar! Ai se não fossem as instituições de solidariedade social a partir do gesto daqueles que repartem o pouco que têm em sistemáticos peditórios públicos!


Triste país que se deixa espezinhar por gente que entra por aí adentro e impõe a austeridade sinónima de manutenção e agravamento da pobreza; triste país cujo povo permite a "tirania imparável", porque não sabe destrinçar a mentira do discurso político face à realidade; triste país cujo povo sucumbe ao bonitinho de uma qualquer praça quando a praça das suas vidas está completamente ameaçada; triste país que permite que uma qualquer Merkel nos venha dizer, mentindo, que temos licenciados a mais; triste país que aceita ouvir uma Christine Lagarde dizer que a austeridade foi longe demais e, logo de seguida, permite que os técnicos da sua instituição (FMI) venham dizer que necessário se torna mais austeridade; triste país que tem um Presidente da República que olha e não vê, vira-se para o lado e não ouve e que permite que o governo fira, sistematicamente, a Constituição da República, como se fosse aceitável apresentar Orçamentos de Estado inconstitucionais; triste país cujo povo assiste, impávido, à venda de empresas estratégicas necessárias ao seu desenvolvimento; triste país que tem um sistema educativo conducente, por omissão, aos interesses dessa máfia, porque os currículos e programas assumem uma carga formatadora do pensamento único que lhes interessa; triste país que aceita, como norma orientadora que, no futuro, "nada será mais certo que o emprego incerto", facilitando o despedimento, espalhando a miséria  e o capitalismo selvagem; triste país cujo povo acomoda-se ao saque sobre os salários e pensões, permitindo que o governo torne medidas temporárias em definitivas; triste país cujo povo assiste ao roubo em bancos, paga o desvario e não se revolta na rua; triste país que diz combater a pobreza, mas mantém o padrão da desigualdade; triste país que assiste e se acomoda à emigração de mais de cem mil pessoas por ano; triste país que vê o interior abandonado, envelhecido e onde as escolas deixam de funcionar; triste país que despede professores, limita os cuidados de saúde e impõe duplas tributações na acessibilidade à educação e à saúde; triste país que se verga e aceita a situação de colónia e que se mostra incapaz de mostrar os dentes à União Europeia. É por tudo isto e muito mais que a "tirania está imparável".
Mas tenhamos atenção que a globalização não é apenas FINANCEIRA. A globalização é também de tomada de consciência dos direitos. E os focos de instabilidade estão a acontecer um pouco por todo o lado. O povo, revoltado, está a sair às ruas e a encher as praças. Porque eles, os piratas, ainda não perceberam que a sua estabilidade depende da estabilidade de todos os outros.
Ilustração:  Google Imagens.

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