segunda-feira, 10 de novembro de 2014

OS TRINTA ENGENHEIROS


O anunciado futuro-ex-ocupante da Quinta Vigia não sabe, nem quer, ser diferente. O insulto é-lhe tão caro que pode mesmo dizer-se que dia sem insulto não é dia e as recentes inaugurações não fugiram à regra – quer ao omitir escandalosa e desprezivelmente a tragédia que marcou tantas famílias (sem que uma única vez tivesse manifestado uma ponta de pesar e respeito pelos que perderam a vida) em resultado de sucessivos erros graves da sua governação e da sua política, quer ao abordar estas intervenções como «símbolos de esperança», quer ao afirmar que haveriam de aparecer trinta engenheiros a falar mal das obras. Porquê trinta e não uma dúzia ou cem? – perguntei-me. Depois lembrei-me do episódio em que Judas, por 30 moedas de prata, traiu Jesus. 


O suposto futuro-ex-ocupante da Quinta Vigia quis chamar traidores a todos quantos discordam destas opções para a frente-mar do Funchal e para as ribeiras. Para ele – que não admite contraditório nem réplica, que todos os dias mergulha mais fundo na chafurdice e alucinadamente procura uma solução para continuar a ir da Pena à Avenida do Infante – a existência de gente com opinião diferente é uma traição; ou melhor, traição é, mesmo, a existência de gente com opinião.
Nunca aqui alguma coisa se fizesse sem o seu apoio – e é exactamente isso que faz dele o primeiro responsável por tudo o que de mau tem vindo a castigar a população da Madeira, ainda que muitas vezes ela se deixe ir na ilusão do bonitinho e do bem apresentado, nas promessas de auspicioso futuro. Foi o que se disse da Marina do Lugar de Baixo, do campo de golfe do Porto Santo, do heliporto do Porto Moniz, das obras das sociedades de desenvolvimento (hoje abandonados esqueletos de betão ao longo de toda a costa), dos parques empresariais onde as empresas foram ‘substituídas’ por mato e cabras. 
Foram ‘traidores’ os que alertaram para que, mais do que com ‘soluções’ na foz das ribeiras, a segurança dos núcleos urbanos depende sobretudo do conhecimento de como se comportam os cursos de água, da florestação ordenada das cabeceiras e da montanha, da libertação dos leitos de cheia. E nesse aspecto, tudo está basicamente na mesma. É criminoso!
Foram ‘traidores’ que defenderam que o surf nas costas de baixo era uma importante aposta para um significativo nicho de mercado de desporto e turismo. Lembram-se que à conta disso, esse sujeito incentivou a violência da população contra os ‘traidores’? Agora, quer-se recuperar o surf. É irónico!
Foram ‘traidores’ os que defenderam a construção de um hospital novo. Dezenas de milhões de euros depois em obras de mais que duvidosa eficácia vem-se, agora, confessar que afinal… é preciso um hospital. Mas, claro que com o balúrdio que já ali ficou enterrado, ninguém sabe quando haverá dinheiro para uma unidade de raiz. É miserável!
Foram ‘traidores’ os que denunciaram a propaganda do ‘PIB mais alto da Europa’ ou da ‘exportação de inteligência’ e que, em contrapartida, propuseram medidas e estratégias para que o desenvolvimento regional deixasse de ser só folclore e passasse a ser uma realidade, sustentada e coesa. Hoje, continua a não se ouvir ninguém e a não ser aceite uma única ideia fora do círculo ‘imperial’, não há nenhuma saída, queimam-se oportunidades. O desastre consolida-se. É vergonhoso!
E neste festim, entre traidores e amigos se esconde dívida. Se obriga quem aqui vive a dificuldades, desigualdades e pobrezas bem superiores às do restante país. Se bloqueiam soluções para melhorar a qualidade de vida. Se compromete o futuro entre favores e a total ausência de perspectivas e de expectativas.
Neste festim, entre traidores e amigos se tecem intrigas para as eleições internas. Se elaboram tramas para manter poderes. Se consolidam compadrios para o dia seguinte. Aqui, nem as «facadas nas costas e ingratidões» são ‘beijos’ , nem Jardim é Jesus.
Andam por aí muitos ‘judas’, disfarçados ou nem tanto. Uns a tentar manter-se na Quinta Vigia; outros à procura de lá chegar. Outros ainda, fixados nos seus umbigos e limitados a pequenos interesses e comodismos, parecem interessados em garantir o salvo-conduto a mais 40 anos do mesmo regime. Verdadeiramente, nenhum tem perdão.
Ilustração: Google Imagens.
NOTA
Excelente e oportuno artigo de opinião publicado na edição de hoje do DN-Madeira.

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