terça-feira, 30 de dezembro de 2014

E AGORA?


Os dados estão irreversivelmente lançados. Os madeirenses e portosantenses sabem, doravante, no plano político, o menu das próximas eleições legislativas. De um lado, o PSD-M com uma nova liderança, do outro, o CDS-PP e, a julgar pelo já divulgado, uma coligação à esquerda. Integrando quem e liderada por quem, não se sabe. Ou bem me engano ou estamos face a uma oportunidade perdida. Isto é, os dados levam-me a deduzir que se correm dois entre outros riscos: primeiro, embora pintado de fresco, a possibilidade de continuação do jardinismo. Os mesmos que geraram a gravíssima situação da Região, com perda quase total da sua AUTONOMIA em variadíssimos domínios, poderão vir a ser os mesmos que, travestidos, se apresentam como salvadores; segundo, a possibilidade de uma coligação de interesses pós-eleitoral entre o PSD-M e o CDS-Madeira a qual, pode vir a garantir uma maioria absoluta na Assembleia. Simplesmente porque, à esquerda, é crível que o CDS-PP não desejará juntar forças. E se assim for, adeus alternativa política.


O PS-Madeira não quis partir para um acordo com o CDS e restantes partidos, porque não conseguiu ultrapassar as diferenças e as desinteligências nascidas no decorrer das últimas autárquicas e essa situação, presumo, pode vir a ser fatal. E o jardinismo que é, como se sabe, muito mais complexo e extenso que o seu criador, poderá ter, desta feita, um largo terreno fofo para cavar. 
Quem não tem memória curta sabe o que foram os anos de PSD na Câmara do Funchal. Já não falo sequer da dívida superior a noventa milhões de euros, falo, sobretudo, da descaracterização do Funchal e da sua peculiar identidade histórico-cultural, o pavoroso e insustentável panorama das zonas altas, as questões relacionadas com a mobilidade, as sistemáticas violações ao Plano Director Municipal e a ausência de rigoroso planeamento urbanístico. E tudo isto aconteceu, obedecendo a interesses de variadíssima ordem, às pressões, à incapacidade de dizer não ao governo regional. A postura foi a de manter sempre um ar fleumático, imperturbável enquanto tudo ia acontecendo.
Portanto, a questão é agora saber se os madeirenses se deixarão enrolar pelo discurso e pelas palavras de circunstância, para enfeitar, para transmitir uma sensação de ruptura que, estou certo, nunca acontecerá. O jardinismo é um extenso e pesado polvo, tem ramificações em todo o lado, porque há milhares de dependentes, directos e indirectos, dessa máquina pacientemente montada. Parafraseando Vasco Santana dir-se-á que palavras e programas há muitos! A nova liderança irá, certamente, mexer nas bordas do prato, como convém, procederá a alterações, mas o coração da máquina baterá ao ritmo dos últimos quarenta anos. Aliás, estiveram todos envolvidos, aplaudiram, chumbaram milhares de propostas da oposição, desde a Assembleia Legislativa até às Assembleias Municipais e de Freguesia, esmagaram adversários políticos, silenciaram, perseguiram, criaram situações abstrusas na comunicação social, compraram uma herdade, enfim, fizeram o que quiseram e entenderam e, agora, surgem como se fossem puros e com uma auréola imaculada! Não são e muitas contas políticas têm no cartório! Incompreensivelmente, os mesmos de ontem estão hoje aí a querer disputar o futuro. 
A pobreza que espere sentada, os empresários que mantenham a angústia diária, os desempregados que espreitem a possibilidade da emigração, quem tem facturas por liquidar que continue à espera, a escola pública que aguente e o sistema de saúde que aguarde, porque a força dos interesses político-partidários obstará qualquer sentido de verdadeira e consistente mudança. 
Defendo que qualquer MUDANÇA nunca é feita a partir dos que sempre estiveram, mas a partir de quem está fora e que pode trazer a inovação, a criatividade, a capacidade de negociação, a independência, o serviço público com alma, o sentido do equilíbrio, o respeito pelos princípios e valores do desenvolvimento, no essencial, a definição de um rumo ideológico portador de futuro. Portanto, neste processo, lamento que a oposição e todos aqueles da nossa sociedade, pessoas independentes e de valor, que podem operacionalizar esse novo rumo, se mantenham amorfas como se nada tivesse a ver com elas. Irão chorar sobre o leite derramado.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Anónimo disse...

O caldo entornou a partir do momento em que o Cafofo resolve fazer acordos com os interesses do jardinismo e desprezar os partidos da coligação. O Professor André Escorcio omite esse erro na sua análise. Por outro lado, parece tomar por genuino o desafio para uma coligação feito pelo líder do CDS (um desafio feito na praça pública e com exigências prévias).

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
Julgo que não omiti e, em devido tempo, posicionei-me. Facto que me trouxe algumas incompreensões. Mas com essas sempre dormi bem. No texto a que se refere (E Agora?) também deixo transparecer as minhas preocupações.
Um abraço e bom ano.