domingo, 4 de janeiro de 2015

O MAIOR "CRIME" POLÍTICO DE ALBERTO JOÃO JARDIM


A dívida não sei se chegará a ser paga. Os que a ocasionaram duvido que alguma vez sejam responsabilizados, politicamente e até na Justiça. Somos assim, dizem, de "brandos costumes". No exercício da política poucas são as situações passíveis de serem consideradas crime. Foram eleitos de acordo com um programa, gastam em duvidosas prioridades e se não existirem provas de corrupção, fraude e toda aquela lengalenga dos Tribunais, ou continuam ou são substituídos por razões de manutenção da aparência. Ponto final. Temos presente a gigantesca operação designada por "Cuba Livre". Em que deu? Arquivado! Foi solicitada a abertura de instrução, é verdade, mas lá se passarão mais uns quantos anos e o resultado será, presumo, zero. Se, entretanto, não prescrever. É por múltiplas situações que se passam debaixo dos nossos olhos observadores, que qualquer cidadão olha para o quadro que se apresenta e tem sobejas razões para duvidar. E existe um outro "crime" que jamais será julgado, mas que foi cometido: o da estupidificação do povo, a sua intencional dependência, o medo, o pressuposto que se estiveres comigo, amanhã, beneficiarás de uma promoção, o controlo de um meio de comunicação social conducente ao embrutecimento, a ausência de autonomia das instituições, públicas e privadas, através de um processo subtil, manhoso e engendrado: "sejam autónomos nas decisões que já tomámos por vós", o bast-fond dos interesses económicos que só a História um dia descortinará, enfim, "em cúmulo jurídico" como soe dizer-se, estes "crimes" deveriam conduzir a uma pena máxima de afastamento do exercício da política, ditada em sentença aquando de qualquer acto eleitoral. 


Esse é o maior crime, porque não libertou a população nem a conduziu no sentido dos deveres e dos direitos e da liberdade responsável. O crime, não o de fazerem túneis viários, mas o de terem concretizado túneis nas cabeças do povo. Enquanto a outra dívida, a financeira, dizem que será paga, a dívida educativa libertadora e a dívida social, essas, marcarão a vida dos madeirenses e portosantenses durante larguíssimos anos. 
Obviamente que a Madeira regista personalidades de inquestionável valor em todos os sectores, áreas e domínios. Não é dessa excelente nata que falo. Esses andam por aí, trabalhando e emprestando qualidade, mas sem hipóteses de afirmação. Sempre que alguns tentaram exprimir a sua liberdade de pensamento foram espezinhados e ofendidos. São muitos os casos. Remeteram-se ao silêncio e a sociedade ficou mais pobre do ponto de vista do funcionamento da democracia e da construção do futuro. A própria Universidade, que sempre foi polo político, silenciou-se. De alto a baixo passou a falar baixinho! Esse é um quadro preocupante, obviamente. Mas, pior ainda são os outros, aqueles formatados nesta estúpida concepção de sociedade e com os quais se torna difícil ter um diálogo, porque deixaram a Escola demasiado cedo, porque a Escola foi mais livresca do que preparadora da descoberta, porque foram arredados para as margens, porque entraram no círculo vicioso da pobreza geradora de novos pobres, gente que não consegue cruzar a informação disponível e produzir as necessárias sínteses, pessoas que carregam as marcas da verdade única, enfim, falo desses muitos milhares sem voz ou com voz muito trémula. Falo desses que deveriam fazer a diferença e não fazem porque são dependentes. O "crime" está aí, porque a política funcionou como uma espiral de fora para dentro, condicionadora, e não como uma espiral de dentro para fora (do homem para o mundo), libertadora e capaz de suscitar pensamento estruturado. Para mim, são socialmente criminosos todos quantos condicionaram através da sua práxis política. Se, intencionalmente, o tempo o dirá. 
Esses, os responsáveis pelo "crime", surgem agora, pintados de fresco, com as cores de uma esperança salvadora, como se nada tivessem a ver com aquilo, melhor dizendo, com eles, quando lá estiveram de corpo e alma na grande tigela do regime. Foram anos consecutivos de vénias, de aprovações e de silêncios cúmplices, o que conduz a que qualquer pessoa atenta se interrogue: como é possível os mesmos serem alternativa política? O drama é, em tão pouco tempo, acordar o povo e fazê-lo acreditar que são possíveis novas políticas com outros actores. Os próximos dias são determinantes. 
Ilustração: Google Imagens.

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