quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

SENHOR MINISTRO DA EDUCAÇÃO, DEMITA-SE! JÁ FEZ MUITOS ESTRAGOS!


Há um estudo, publicado na revista “Science”, elaborado por Deborah Stipek, da Faculdade de Educação de Standford. Um estudo transversal realizado ao longo de 35 anos. A editorial da revista coloca em título: “A Educação não é uma corrida”. A investigadora é clara: “o sistema de exames produz especialistas em provas enquanto prejudica vidas que poderiam ser promissoras” (…) O sistema actual, baseado no desempenho em testes pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores” (…) “Este ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes” (…) A maneira como a Educação está estruturada faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos antes mesmo do final da educação básica”. Complementa o Professor José Pacheco acerca de Deborh Stipek: entre milhares ou milhões de homens e mulheres, "Ghandi, Picasso, Einstein, deixaram-nos um legado valiosíssimo, seguindo caminhos muito diferentes". Isto quer dizer que a Educação na escola não constitui a única forma de aprender. E se a Escola é importante, e é, o seu pensamento estratégico não pode quedar-se pelo pensamento de ontem. Andamos a trabalhar nas consequências e não nas causas, simplesmente porque predomina uma agenda e, mais do que isso, uma atitude política redutora que muitas vezes desconstrói alguns bons passos que são dados.  

Eh pá... estiveste bem, só que não acredito no que disseste!
Se é assim tão bom, por que razão não fizeste
quando foste Ministro da Educação?

Vem isto a propósito do Professor David Justino que foi deputado da Assembleia da República entre 1999 e 2002 e, depois, assumiu as responsabilidades de ministro da Educação do XV Governo Constitucional (2002/2004). Actualmente é assessor para os Assuntos Sociais da Presidência da República e Presidente do Conselho Nacional de Educação. Foi esta figura, com este curriculum que, em nome do Conselho Nacional de Educação, veio há dias se posicionar contra a retenções de alunos, porque constitui "uma má solução", uma vez que "(...) a retenção sanciona, penaliza, não se reconhecendo o seu carácter pedagógico" (...) e "potencia comportamentos indisciplinados, fruto de uma baixa auto-estima e desenquadramento em relação à turma de acolhimento, o que dificulta ainda mais a aprendizagem". Sendo assim, conclui o CNE, que existe uma "manifesta ineficiência e ineficácia" do designado chumbo. Assume, ainda, o presidente do CNE, como alternativa ao chumbo, que sejam diagnosticadas mais precocemente as dificuldades dos alunos, para que os apoios comecem logo no pré-escolar e nos primeiros anos do primeiro ciclo. A diversificação dos currículos e percursos educativos, a criação de programas menos extensos e a reorganização do ensino básico são outras das recomendações, leio no Expresso através de um trabalho de Joana Pereira Bastos.
Ora bem, se este não fosse um assunto muito sério, de uma importância vital para o País, estas declarações, produzidas treze anos depois de ser ministro da Educação, conduziria a uma sonora gargalhada. E porquê? Simplesmente porque, questiono, que passos deu este político enquanto responsável pela Educação? É que este tema da formação básica já se encontra estudada há muitos anos. Não é uma questão recente. A Professora Ana Benavente quando foi Secretária de Estado bem lutou por uma avaliação contínua numa escola portadora de futuro. Daí para cá, terminando nesta equipa liderada pelo ministro Nuno Crato, a destruição do sistema tem sido evidente. O pensamento de Nuno Crato baseia-se em exames em todos os ciclos de ensino, pelo que está contra o CNE, como se este fosse um caminho para o sucesso. Ele nunca quis saber que o princípio da tal meritocracia, aplicada à Educação, em que assenta este sistema, traz consigo o princípio da exclusão. Nunca quis saber,  também, que está completamente errado que em idades que os alunos devem fazer perguntas, o sistema exige-lhes respostas. Logo a partir do primeiro ciclo, com os exames, ao contrário de uma avaliação de base estruturalmente contínua e sujeita a outras variáveis.
E apesar da voz tardia de David Justino, Crato continua a dispensar os professores, com a falácia, repito, falácia da natalidade. A este propósito, no início de Fevereiro, fui orador convidado de umas Jornadas Pedagógicas na Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco. A páginas tantas sublinhei: "(...) Dispensam professores ao invés de uma actuação logo aos primeiros sinais de perturbação na aprendizagem, só possível com uma organização diferente de escola e uma atitude pró-activa na escola e a montante da escola. Não é aos 10, 11 ou 12 anos que devemos actuar com aulas de apoio. Aí remediamos e mal o problema, até porque a história do aluno já está indelevelmente marcada. O sistema afasta os alunos da escola, mas para que alguns políticos estejam de consciência aliviada, facultam uns créditos de horas para apoio a alunos com dificuldades. Ora bem, vou colocar-me no vosso lugar: diga lá as soluções! Eu diria, em síntese: diminuam o número de alunos por escola e por turma. Não despeçam professores. Deixem os professores organizar a sua escola. Considerem a Educação como a única forma de romper o círculo vicioso da pobreza, pelo que deve ter orçamentos compagináveis. Retirem a tralha da escola, tudo o que é secundário e substituam por uma pedagogia cultural e social. Uma Escola de encontro, diálogo e afectos. Contrariem a mercantilização do direito à Educação, a mundialização do liberal. Reivindiquem uma formação inicial de professores mais condizente com a realidade. Criem políticas de família, dando o peixe mas também a cana. 
Hoje, em abstracto, olho para pessoas com 40/50 anos, que há 40 tinham entre os 4 e os 10 anos e interrogo-me: se a verdadeira cultura funcionou ou não; se a Escola deixou alguma coisa ou não ao nível da mudança de mentalidade, liberta de qualquer canga; o porquê de termos milhares desajustados nas qualificações profissionais. São estas as perguntas, entre outras, que não são formuladas e que nos deviam preocupar. Paulo Freire diz que a Educação sozinha não transforma a sociedade, mas que sem Educação a sociedade não muda. A Educação tem de ser transformadora. 
É evidente que, repito, não é tudo negro. Mas há uma mancha muito cinzenta sobre a sociedade. Se a base não é boa o edifício dessa educação transformadora tende a desmoronar-se. 
De facto, precisamos de uma “Revolução Integrada do sistema educativo” e não a “restauração saudosista da escola do passado”. A OCDE apresenta vários cenários, um deles a necessidade de RE-ESCOLARIZAÇÃO que, em síntese, passa por uma maior autonomia das escolas, maior descentralização e valorização do corpo docente. Passa por uma escola sem o permanente “Big Brother” de quem centraliza a educação. Difícil, muito difícil, porque a cultura também não funcionou a esses níveis. Uma coisa é o discurso de circunstância, outra quando essas pessoas estão sentadas na cadeira do poder. Eu sei que há rotinas de pensamento que são difíceis de ruir. É fácil dizer não a uma perspectiva que se abre, mas saber por que motivo se diz não, convenhamos que é sempre mais difícil. As pessoas estão agarradas ao passado. E, curiosamente, os que estudam, problematizam e abordam esta temática da Educação não falam de facilitismos e nenhum fala de ausência de rigor e de disciplina. Pelo contrário. Falam, sim, da necessidade de repensar o trabalho de ensinar e de aprender. Torna-se, assim, fundamental uma abordagem globalizante, com políticas em vários sectores e áreas de intervenção social. Não apenas na esfera da Escola, na sua organização e conteúdos, mas a montante da Escola, na cultura familiar e na organização e cultura do trabalho. Para que o abandono e o insucesso sejam residuais. 
Há um estudo, publicado na revista “Science”, elaborado por Deborah Stipek, da Faculdade de Educação de Standford. Um estudo transversal realizado ao longo de 35 anos. A editorial da revista coloca em título: “A Educação não é uma corrida”. A investigadora é clara: “o sistema de exames produz especialistas em provas enquanto prejudica vidas que poderiam ser promissoras” (…) O sistema actual, baseado no desempenho em testes pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores” (…) “Este ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes” (…) A maneira como a Educação está estruturada faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos antes mesmo do final da educação básica”. Complementa o Professor José Pacheco acerca de Deborh Stipek: entre milhares ou milhões de homens e mulheres, "Ghandi, Picasso, Einstein, deixaram-nos um legado valiosíssimo, seguindo caminhos muito diferentes". Isto quer dizer que a Educação na escola não constitui a única forma de aprender. E se a Escola é importante, e é, o seu pensamento estratégico não pode quedar-se pelo pensamento de ontem. Andamos a trabalhar nas consequências e não nas causas, simplesmente porque predomina uma agenda e, mais do que isso, uma atitude política redutora que muitas vezes desconstrói alguns bons passos que são dados. 
Urge uma nova concepção de Escola. Alexandre Quintanilha é um doutorado em Física. Um cientista. Tem uma frase espantosa: “EU VIVO PORQUE SOU CURIOSO”. O problema é que nós andamos a matar a curiosidade nas nossas crianças. No nosso sistema, uma criança que coloca muitas perguntas, genericamente, perturba o planeamento da aula! E não deveria ser assim. Há outras formas de organização. Li em “Professores para quê”, de Georges Gusdorf: “O mais alto ensinamento do Mestre não está no que diz, mas no que não diz”. E no meu relatório de estágio pedagógico, em 1971, escrevi no preâmbulo, uma frase de Bernard Shaw. Lembro-me como se fosse hoje: “Quem pode cria, quem não pode ensina”. Uma escola de receptores e de não participantes é uma escola condenada. E Bernard Shaw nasceu em 1856. Portanto, despertar essa curiosidade só é possível com uma ampla autonomia e com um outro enquadramento pedagógico. Não é com exames. Não há volta a dar. É nesta esteira que Ariana Cosme e Rui Trindade questionam: “Uma Escola que define a qualidade do seu ensino por uma visão enciclopédica de um conhecimento cuja utilidade se esgota nos testes, serve, afinal, para quê? (...)".
Actualmente, a taxa de retenção atinge 13%, uma das mais elevadas da União Europeia. Em 2013 (último ano em que há dados disponíveis), 165 mil alunos do ensino básico e secundário não conseguiram passar. Até aos 15 anos de idade, um em cada três estudantes já repetiu um ano. Isto corresponde,anualmente, a mais de seiscentos milhões de euros. Pergunto: há quantos anos é assumido por investigadores e pensadores que melhor seria investir esse dinheiro logo no pré-escolar e a montante do sistema educativo, junto das famílias, através de um processo global? Só agora é  que estão a chegar a isso? E, já agora, os exames no ensino básico vão continuar? Oh Senhor Ministro da Educação, demita-se. Já fez muitos estragos.
Ilustração: Google Imagens.

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