terça-feira, 31 de março de 2015

BENEFÍCIO DA DÚVIDA?


Da minha parte não dou qualquer benefício da dúvida ao Dr. Miguel Albuquerque nem à equipa que vier a indicar. Não basta alterar um conjunto de figuras na Assembleia e no governo para transmitir a ideia de novo ciclo. O ciclo é o mesmo, perpetuar-se-á, embora pintado de fresco. Umas declarações aqui e outras ali, como aquela do IRS baixar um bocadinho em 2016, fazem parte da encenação pós-eleitoral. As palavras de circunstância não só não alteram a ideologia, como manterão o governo preso ao poder tentacular dos grandes interesses. Pelo contrário, talvez se agravem. Basta que se tenha presente a figura de Alberto João Jardim, o seu incomensurável poder absoluto, pelo menos aparente, o desejo de impor a todo o momento a sua vontade e que, no entanto, demonstrou sempre incapacidade para bloquear ou, no mínimo, controlar os interesses instalados. Falou dos  ingleses como se, por aqui, outros "camones" não fossem mais preocupantes para a economia da Madeira. É um facto. Anunciam a mudança do presidente da Assembleia Legislativa, primeiro órgão de governo próprio, porém, pergunto, alguém se esquecerá que foi o Deputado Tranquada Gomes o eixo fundamental das sucessivas alterações do Regimento, realizadas sempre no sentido de limitar a palavra da oposição? E que as defendeu de forma empolgada?



Ora, um novo governo confrontar-se-á, desde o primeiro dia, com um permanente zumbido oriundo dos afilhados do regime que precisam de dinheiro fresco, como de todos os outros que necessitam de estar na mesa do orçamento. As solidariedades têm um custo político. Obviamente, que no espaço da urbanidade entre poder e oposição, pelo menos para consumo externo, naturalmente que se verificarão mudanças comportamentais. Fui vereador da Câmara do Funchal durante doze anos e, portanto, conheço o estilo. De resto, pior seria impossível. Mas, politicamente, o problema não é esse. A questão central situa-se ao nível das políticas globais e sectoriais. E aí, apesar da necessidade, óbvia, de mostrar diferenças, o novo presidente do governo não constitui garantia de substantivas alterações no perfil da governação. Isto porque o ambiente de base ideológica é o mesmo. Os princípios e os valores padronizadores de uma política estão lá, com o agravante de Alberto João Jardim já ter começado a dizer que esperava mais de Miguel Albuquerque (ao apontar que, em 2011, teve melhor resultado) o que pressupõe, à luz do choque entre ambos, que andará por aí como fiscalizador da sua acção política. Existe, ali, uma espinha na garganta que nem com um sopapo nas costas salta. Serão a sombra e o fantasma que os perseguirão a todo o momento.
E, depois, não há  dinheiro. O cofre está vazio e as prateleiras cheias de dossiês com facturas por liquidar. Alberto João Jardim saiu e deixou tudo armadilhado. A vocação pela obra pública será travada pelas circunstâncias de não existir capacidade financeira para pagar a quem a Região deve e, simultaneamente, proceder à manutenção das infraestruturas ou acabar tanta obra que por aí anda parada. Por tudo isto, entendo que o "estado de graça" será muito breve e as políticas, caracterizadas pela mesma raiz ideológica, não garantirão uma mudança substantiva na governação. 
Ilustração: Google Imagens.

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