sábado, 7 de março de 2015

CRIANÇAS QUE CHORAM


A mãe teve de faltar ao trabalho para apoiar o filho que frequenta o 2º ano do 1º ciclo. Motivo: a proximidade de "fichas de avaliação". Sublinho: "fichas de avaliação". Consequência para a criança: sintomas de dores de cabeça, vómitos e ansiedade. Paralelamente, medo, cansaço e desmotivação. Porquê? A professora briga, briga muito. Um dia a mãe foi chamada à escola para lhe dizerem que o filho não sabia desenhar bem (tinha seis anos e frequentava o 1º ano). A mãe terá perguntado o tipo de desenho. "Olhe, por exemplo, não sabe desenhar um leão". A mãe respondeu: "eu também não sei, qual é o problema de desenhar um leão "mal feito"? A interlocutora terá ficado aborrecida com a resposta. Segundo li, a criança já  dispõe de um professor, aos sábados, para ajudar no processo de aprendizagem.


Esta narração preocupa-me, independentemente de um conhecimento concreto de quaisquer outras variáveis. Podia tratar-se de uma criança do 3º, 4º, 5º ou 6º ano que a minha análise seria a mesma. Desde logo, pela existência de "fichas de avaliação". Para que servem? Em que justificação científica e pedagógica assenta a sua realização? A meritocracia? E quem as determina já pensou, por exemplo, que esse dito "princípio" traz no seu bojo a exclusão? E quem as determina já se interrogou que se torna um paradoxo, nas idades destinadas às perguntas, andar para aí a exigir as respostas que estão no manual? E quem as determina já equacionou em que pressupostos se gera o conhecimento, bem como outros formatos de avaliação, não no sentido quantitativo e qualitativo, mas de busca dos sinais que podem estar na origem de algum desajustamento? E quem as determina, por instantes, interrogou-se que a Educação não é um fatinho, de tamanho único, que deve servir a todos, independentemente dos seus percursos? Essas "fichas de avaliação", afinal, destinam-se aos alunos ou à própria avaliação dos professores? E os professores já se interrogaram que não podem ser uma espécie de "Maria vai com as outras", pelo que não devem ter coluna de plasticina e, portanto, que é seu mister criar ambientes que propiciem aprendizagens significativas? Depois, a Escola Básica serve para quê? Para criar um alicerce consistente sobre o qual edificamos os pilares do conhecimento poderoso, ou a Escola Básica é uma corrida impregnada de um certo darwinismo onde sobrevivem os que apenas têm bom estatuto económico e cultural? Leio em Sérgio Niza (Escritos sobre Educação, pág. 396): "(...) Diferenciação é a identificação e a resposta a um leque diverso de capacidades de uma turma, de forma a que os alunos, numa determinada aula, não necessitem de estudar as mesmas coisas ao mesmo ritmo e sempre da mesma forma".
O problema de tudo isto, gerador de sofrimento, é que a Madeira tem um secretário da Educação (para não falar de vários que o precederam) do qual não se lhe conhece uma única ideia para o sistema educativo. Anda com a historieta da "Carta da Convivialidade" (ao fim de doze anos de projecto há cada vez mais indisciplina e focos de violência) e com a ilusória "Capacitação de Alunos" (destinada à recuperação de alunos dos 5º e 6º anos). Trata-se de actuações claramente a jusante dos problemas. Por um lado, porque a detecção de desconformidades na aprendizagem deve ocorrer logo no pré-escolar e não aos 11/12 anos, o que exige, também, um trabalho concertado ao nível das políticas de família; e quanto à questão da convivialidade que essa só se resolve com uma organização diferente do sistema educativo e uma grande autonomia dos estabelecimentos de educação e de ensino. O secretário não entende que, ao contrário da dispensa de professores, sairia mais barato ao sistema e ao orçamento regional, a sua integração em uma perspectiva de intervenção pedagógica precoce do que, à posteriori, confrontar-se com o insucesso e o abandono da Escola. Isso está estudado por tantos investigadores e até existe um notável trabalho, de base científica e económica, do Prémio Nobel da Economia (2000) James Heckman. Ele estudou e quantificou os efeitos multiplicadores futuros de cada euro investido nas primeiras idades. Não há melhor aplicação do que canalizar o dinheiro para a formação dos jovens nos primeiros anos de vida. “Insisto nisso porque são os países que já estão nesse caminho, justamente os que se tornam mais competitivos e despontaram na economia mundial”, salienta o Nobel. Pergunto: o secretário da Educação desconhece esse estudo, entre muitos outros?
Em um quadro destes, sumariamente descrito, o professor acaba por ser uma vítima do processo. De regresso ao início, à situação que deu o mote a este texto, escrito ao correr do pensamento, uns adaptam-se enquanto outros acabam por denunciar comportamentos impróprios e impensados que marcam, negativamente, os alunos. O professor, hoje, é, genericamente, uma pessoa só, envolvida numa complexidade burocrática. Ele é uma peça de uma engrenagem que o empurra não no sentido do acto de educar e de despoletar a curiosidade com amor, mas de cumprir as tarefas que enquadram a sua própria sobrevivência profissional. Daí não estranhar a longa lista de professores seguidos no plano da Psiquiatria e não estranhar, por isso mesmo, os comportamentos consequentes. De qualquer forma, pensemos antes de cometer o erro! A criança é a mais indefesa de todo o processo e os pais sofrem tanto quanto elas.
Ilustração: Google Imagens.

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