segunda-feira, 30 de março de 2015

TEIMOSIA, CEGUEIRA OU PURA ESTUPIDEZ?


Vítor Freitas teve tudo na mão. A possibilidade de realizar umas primárias no PS-Madeira; a oportunidade de mostrar grandeza política abdicando da sua candidatura em nome dos interesses maiores da Região; o ensejo de, com inteligência, abrir-se a uma convergência partidária, não de última hora, colocando, como ponto de partida, o jardinismo, no centro do debate; a ocasião de ficar na História como o estratego responsável pela ruptura dos interesses instalados (e são muitos e diversos) e dos silêncios cúmplices que mancham o exercício da democracia. Não quis, portanto, em nome da dignidade política e das ilações que os políticos devem retirar, parece-me óbvio que só lhe restava o caminho da saída de cena.


No início do mês de Janeiro, embora tarde mas ainda no limite do tempo, escrevi: “Um dos significados da palavra teimosia poderá ser o do apego obstinado às suas próprias ideias. É diferente, no âmbito político, de um apego cego ao caminho que se julga ser o melhor. Em múltiplas situações ser obstinado transporta consigo o fermento da determinação e do êxito. Já a cegueira, embora vendo, impede qualquer flexibilidade em busca do caminho desejável. E o que se está a passar no plano político, no quadro de uma oposição responsável, é, claramente, a opção pela cegueira. Há quem não queira ver o descalabro; há quem prefira continuar oposição do que assumir a responsabilidade governativa; há quem, levianamente, esteja nas tintas para um povo que deseja uma alternativa (já demonstrada nas autárquicas), ao colocar, em primeiro lugar, o interesse do grupinho; há quem se assuma como históricos oposicionistas, mas que não mexem uma palha no sentido de dizer não ao previsível descalabro; há quem se julgue traçado para altos voos, mas nunca na terra que os viu nascer; há quem pela frente assuma, de forma clarividente, uma dada situação, mas logo a seguir dê indícios de estar a tratar da sua vidinha. E, entretanto, os dias vão passando e os mesmos de sempre, os que conduziram a Região ao desastre, sentem que o terreno está fofo e que nem será preciso cavar em demasia. Porque esse terreno está livre de embaraçadoras pedras. Bastará um ancinho para achanar e plantar mais uns anos de enganadoras promessas. Acordem, por favor, sentem-se à volta de uma mesa, mais que não seja, pelo respeito que a memória impõe”.
Infelizmente, os resultados do acto eleitoral deram-me razão. A mudança de paradigma político afundou-se em um lago de lama onde se atolaram pequenos interesses. A estilhaçada oposição voltou a perder por única e exclusiva culpa. Embora lamentável, a abstenção não serve de desculpa. Nem minimamente. O apelo à memória de 40 anos de jardinismo e como alimentar a esperança e a capacidade de bloquear o monstro, esbarrou na teimosia, na cegueira e na estupidez. E sendo assim, eu diria que o líder socialista ficou ferido de morte política, porque atentou, de forma grave, contra os anseios de uma grande parte dos madeirenses e portosantenses. Apresentou a sua demissão, mas isso não o iliba da irresponsabilidade política patenteada. Resta-lhe marcar congresso e despedir-se. Não sei, até, despedir-se do próprio parlamento. 
Vítor Freitas teve tudo na mão. A possibilidade de realizar umas primárias no PS-Madeira; a oportunidade de mostrar grandeza política abdicando da sua candidatura em nome dos interesses maiores da Região; o ensejo de, com inteligência, abrir-se a uma convergência partidária, não de última hora, colocando, como ponto de partida, o jardinismo, no centro do debate; a ocasião de ficar na História como o estratego responsável pela ruptura dos interesses instalados (e são muitos e diversos) e dos silêncios cúmplices que mancham o exercício da democracia. Não quis, portanto, em nome da dignidade política e das ilações que os políticos devem retirar, parece-me óbvio que só lhe restava o caminho da saída de cena.
O problema do PS-Madeira, digo-o com muita mágoa, é a perversa imagem que alguns têm da política. Instalou-se uma lógica partidária, quando alguém ganha um congresso, que se resume em três palavras: agora somos nós. E já dura há muito este sentimento que se enraizou, a qual gerou, sucessivamente, a fuga de muitos para outros partidos e movimentos, o silencioso distanciamento de militantes que podiam personificar uma alternativa democrática. Daí que defenda, hoje com veemência, a refundação do partido na Madeira, após primárias abertas a toda a sociedade. É a saída possível para, daqui a quatro anos, encetar um tempo novo que possa conduzir a uma vitória que garanta a verdadeira mudança política, económica, social e cultural onde as pessoas estejam em primeiro lugar. 
Miguel Albuquerque venceu, mais por demérito da oposição e, particularmente, do PS, do que por mérito próprio. Não espero nada de novo, simplesmente porque quando as figuras e a ideologia subjacente é a mesma, os resultados tenderão a não serem diferentes do passado. Resta agora saber como Miguel Albuquerque, que não apresentou programa eleitoral, irá resolver os grandes dramas políticos regionais: dívida, desemprego, pobreza, saúde e educação, entre outros.
Ilustração: Google Imagens.
NOTA
Artigo de opinião, da minha autoria, publicado no Funchal Notícias e no 1º de Janeiro.

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