domingo, 5 de julho de 2015

SISTEMA EDUCATIVO NA MADEIRA


Não tenho a certeza se já contei, mas na dúvida aqui vai. Na Guiné, no clube de oficiais, na zona da piscina, junto ao muro que separava o clube da tabanca, ao Sábado, colocavam dois tubos entre os quais uma "tela" (seria?) onde podíamos seguir um filme. Do outro lado do muro, na tabanca, juntam-se os nativos que também seguiam o filme com figuras e legendas ao contrário. Pouco importava porque também a maioria não sabia ler. Transporto esta imagem sempre que leio algumas coisas sobre as quais tenho opinião, julgo eu, fundamentada.


Ontem, o secretário da Educação da Madeira, em uma reunião com professores representantes das escolas da Região, pediu a melhoria do sucesso escolar, elevando as classificações dos alunos em todos os níveis, a diminuição do número de abandonos e o combate aos focos de indisciplina. Preocupações que poderiam ter sido ditas por um sindicalista, por um partido da oposição ou por uma qualquer outra pessoa. São preocupações óbvias. O problema, porém, é muito mais profundo e delicado. A questão central é determinar como é que se operacionaliza tal objectivo? Uma operacionalização que leva tempo, mas que tem de seguir um caminho. Qual o caminho é o que o secretário não transmitiu. Na sua primeira reunião com as direcções dos estabelecimentos de ensino, uma vez mais, gerou-se o vazio. Palavras, mais palavras e nada mais do que palavras. Bastaria que o secretário dissesse que estava dentro do barco e que estava a subir rio acima até à sua nascente. Até onde fosse possível navegar. E que nesta viagem propunha que os professores embarcassem e que o ajudassem a compreender o percurso, as zonas navegáveis e sobretudo as margens. Uma metáfora em função de uma realidade política, económica, social e cultural da nossa sociedade. Simplesmente porque os professores não são culpados do insucesso escolar, não podem ser culpabilizados pelo abandono, tampouco pelos focos de indisciplina. Esses dramas têm uma génese e é aí que todos quantos têm funções políticas devem actuar.
Aliás, tenho como assumido que a situação não é pior porque os professores, apesar de todas as maldades que lhes têm feito, no salário, nas horas extraordinárias, na infernal burocracia, no despedimento, na incrível avaliação de desempenho, entre tantas situações, têm mantido uma posição de grande dedicação e de submissão aos erros que, como é vulgar se dizer, vêm de cima. Por isso, aquele encontro, do meu ponto de vista, valeu zero. E tudo continuará na mesma, por ausência de uma política. Significa isto dizer que o filme está a ser visto ao contrário, muito embora as pessoas saibam ler. 
Ilustração: Google Imagens.

4 comentários:

Anónimo disse...

Excelente artigo

Anónimo disse...

Fabuloso prof...

Anónimo disse...

Mais um excelente artigo.braço Prof

Anónimo disse...

Excelente.Abraço Professor André Éscórcio.