sexta-feira, 25 de setembro de 2015

ENSINAR A PENSAR


Há dias tive uma conversa muito interessante com um Psicólogo. Falámos de sistema educativo e de escola. A páginas tantas convergimos em um pensamento comum: esta escola não desperta a curiosidade, tampouco estimula o pensamento. PENSAR é coisa que, raramente, a escola provoca. Há "matéria para dar" porque há programas para cumprir. O aluno anda ali, de sala para sala, para ser avaliado, porque os professores também o são, de diversas maneiras. Fazer PENSAR parece que dá muito trabalho, é coisa esquisita, quando decorar, mesmo sem compreender, se torna prioritário em função do débito de "conhecimento" no dia do teste. Ainda hoje sei de cor algumas definições que não me serviram para nada, rigorosamente para nada, para a minha vida, inclusive, a profissional. Estou a lembrar-me de uma que meti na cabeça para, numa festa de estudantes, imitar o professor de anatomia e fisiologia: o "retículo endoplasmático" (organelo exclusivo de células eucariontes, formado a partir da invaginação da membrana plasmática). Dizia eu, exactamente, com a entoação e velocidade de palavras do professor-debitador: "o retículo endoplasmático é um dispositivo de armazenamento das substâncias proteicas. Consiste num grande sistema de vesículas e canais (...)", por aí fora. Valeu-me zero. Sabíamos os ossos todos, descrevendo-os, pormenorizadamente. E quando a cantilena falhava, regressávamos ao princípio como para tomar embalagem! Valeu-me zero na minha vida profissional. 


Hoje, crianças do final do primeiro ciclo, decoram e decoram. Já estudam os ossinhos todos, identificando-os. Coisa que era de anos muito mais avançados, já constitui matéria do 4º ano. A paranóia é tal que os alunos do 1.º ciclo que não obtenham aprovação em inglês podem ficar retidos na 4º ano, de acordo com um despacho publicado esta terça-feira. E o exame de Cambridge do 9.º ano pesará 20 a 30% na avaliação final. Ainda ontem li uma peça no DN-Madeira: "A EB1-PE do Estreito da Calheta (Madeira) implementa no presente ano lectivo uma experiência inovadora no âmbito do seu projecto curricular, assente na introdução aos fundamentos das linguagens de programação computacional (...)". Reparem... programação computacional! Sinceramente, tenho dificuldades em compreender esta oferta educativa incluída no projecto de escola. Entretanto, no meio da loucura colectiva, onde ninguém pára para PENSAR, foge o tempo para ser criança, para aprender, sim, mas para observar e PENSAR. São palavras do Filósofo Immanuel Kant (1724/1804): "Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida. Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infrequente deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública." - In Ensinar a Pensar.
Estimular o pensamento desde as primeiras idades seria muito mais rico e portador de futuro do que cumprir currículos e programas completamente desajustados da realidade e das necessidades. Quando uma criança assume junto dos pais que a escola é uma prisão e isto não faz despoletar, na escola, um sinal de alarme; quando os professores se sujeitam à doentia rotina ao jeito de "a minha parte está feita"; quando nos confrontamos com ministros, secretários e quejandos a quem lhes falta capacidade para perceber que a sementeira e a colheita estão dependentes da preparação do terreno; quando tantos decisores não conseguem entender que a consistência de um edifício depende do seu alicerce, enfim, pessoalmente, resta-me assistir a este filme de péssima qualidade, embora tentando, sempre que possível, meter o pauzinho na engrenagem.
Ilustração: Google Imagens.

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