quarta-feira, 9 de setembro de 2015

MAIS 200 PROFESSORES PARA O DESEMPREGO


Disse, ontem, o secretário regional da Educação da Madeira, que 200 professores vão para o desemprego. A justificação é a mesma de sempre: há menos alunos. Falácia, pura e simples. Já alguém disse que "não há professores a mais, o que existe é sistema educativo a menos". Mas para o governo da Madeira, provam-no os indicadores sociais e a mentalidade, a ignorância, perversamente, sempre constituiu um desígnio, ao propalarem "coisas" no sentido de uma preocupação pelo sucesso, ao mesmo tempo que cerceiam as condições básicas que conduzem a esse sucesso. Eles bem sabem porquê! Eu desconfio. Tenhamos presente o estado do sistema, quarenta anos depois, consequência de governos que nunca evidenciaram saber e compromisso com o futuro. Agora, repetem a meia-verdade da natalidade para poupar nos encargos de hoje, mas que se tornará, amanhã, em uma pesadíssima herança. Já é uma pesada herança. Há muito que está explicada a falta de investimento no sistema educativo e a transferência para o sector privado das obrigações que devem ser públicas. Ademais, o secretário regional e a sua equipa deveriam ler os estudos, entre outros, os do economista James Hechman, Prémio Nobel da Economia, sobre os custos directos e indirectos na Economia de uma má política educativa. Estudos que nos transmitem a certeza de que se torna menos oneroso, em todos os aspectos, rever o sistema em função do conhecimento científico já produzido que, no essencial, nos diz que não podemos estar na escola do Século XXI com a estrutura e o pensamento do Século XIX.


É evidente que a taxa de natalidade baixou consideravelmente. "Portugal registou no ano passado a taxa de natalidade mais baixa da União Europeia, de 7,9 crianças por mil habitantes, inferior à da mortalidade (10,2), revelam dados publicados pelo Eurostat". Todavia, esta fragilidade poderia e deveria tornar-se em uma oportunidade para colocar em causa todo o sistema, no sentido da criação das condições básicas do sucesso. Repito, todo o sistema, desde o número de alunos por estabelecimento de educação e ensino aos novos conceitos de aprendizagem. Porém, o que acontece não é isso, quando retiram professores ao sistema e mantêm a mesma estrutura organizacional de um "modelo" moribundo que repete e agrava o erro a todos os níveis. 
Obviamente que isto não quer dizer que todos os que se habilitam, no plano universitário, para a docência, obrigatoriamente, tenham de ser enquadrados pelo sistema público. Todos sabemos que há limites, com altas ou baixas taxas de natalidade. O que está em causa é uma outra coisa: é a retirada de centenas de professores mantendo um sistema organizacional caduco que tem produzido insucesso e abandono e que, no futuro, outra coisa dele não se poderá esperar senão resultados semelhantes. Heckman comparou a educação aos alicerces de um prédio: "se a base for ruim, o edifício desmoronará". E a verdade é que está, permanentemente, a desmoronar, porque os decisores políticos continuam a fazer contas de poupança no lado da despesa, fugindo à interpretação dos efeitos multiplicadores no futuro de cada euro investido nas idades mais jovens. É semelhante à palha que um sujeito foi retirando ao burro até que este acabou por morrer, numa altura em que o dono do burro, espantado, exclamou: logo agora que ele já estava a se habituar! Pois, há gente que ignora que os professores são o eixo fundamental de uma escola e que os alunos devem ser o centro das políticas educativas.
Mas há mais. Paradoxalmente, no plano Constitucional, a Educação constitui um direito. No plano da vida concreta, as famílias são chamadas a pagar tudo ou quase tudo: livros e material escolar, com uma grande parte das despesas não entram nas contas do IRS (despesas de Educação); pagam um disparatado IVA na maioria dos produtos; suportam, mais tarde, escandalosas propinas na universidade, transportes, alimentação, alojamento, enfim, perguntar-se-á, se a Educação ainda é um direito? Depois, para tapar os buracos da fragilidade da governação, por aqui surgem as autarquias a colmatar insuficiências (e bem, já que outros não evidenciam essa sensibilidade), oferecendo os manuais e o material escolar. E o governo não percebe isto? E o dinheiro não vem do mesmo saco público? Ora bem, administrar e gerir uma política educativa é muito mais do que entrar às 9 horas e sair às 18:00! É muito mais do que cumprir uma agenda protocolar. É muito mais do que aparência! 
Ilustração: Google Imagens.

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