segunda-feira, 12 de outubro de 2015

ELEGEMOS DEPUTADOS, NÃO ELEGEMOS UM PRIMEIRO-MINISTRO!


Interrogo-me se estarei a analisar menos bem o problema político que estamos a enfrentar. Por mais complexas que sejam as interrogações inclino-me sempre para a mesma conclusão: se o problema designa-se por estabilidade política, se existe uma maioria de esquerda na Assembleia e se o chamado centrão tem mais contras do que a favor, por que não aceitar um governo de maioria parlamentar? Julgo não estar em erro, mas pelo menos em quatro países do UE, Luxemburgo, Dinamarca, Bélgica e Letónia os primeiros-ministros não saíram do partido vencedor. Medo da esquerda? Porquê? Porque poderão colocar em causa a onda ultraliberal que varre a Europa? Medo do "experimentalismo" político? Mas, então, pode-se esquecer que os socialistas têm sido governo com regularidade e que os restantes à sua esquerda têm uma longa história no parlamento? Não se trata de ganhar na secretaria aquilo que foi a decisão minoritária do Povo. Trata-se, antes, de garantir, com bom senso, muita ponderação e responsabilidade, iniciar um novo ciclo da nossa História democrática. Porque não? Não vejo qualquer mal nisso.


Haverá mal em defender o estado social? Haverá mal em defender políticas anti-austeridade, as medidas que contrariem o rumo para o empobrecimento? Em defender a escola pública? Em defender o sistema nacional de saúde? Haverá mal em defender o crescimento económico e uma melhor estabilidade dos postos de trabalho? Haverá algum mal em defender os reformados e pensionistas das garras de um sistema que os tem miseravelmente punido? Haverá algum mal em combater a tentativa de privatização de uma parte da segurança social no quadro dos "fundos de pensões"? Haverá algum mal em defender cuidados redobrados na privatização das riquezas nacionais? Haverá algum mal assumir, perante a Europa, que aqui mandam os portugueses, mas que respeitamos os nossos compromissos até ao último cêntimo, desde que não nos espezinhem? Haverá algum mal, como ainda hoje referiu Rui Tavares, opôr-se "aqueles que se crêem donos do sistema"? Quais são, então, os dramas (fabricados) face a um governo com políticas diferentes mas responsáveis? Só a direita é que as consegue fazer? Então, depois de quatro anos de enormes constrangimentos sociais, como foi possível agravar a dívida? Então, só agora, de corda ao pescoço, Passos e Portas admitem flexibilizar metas do défice para negociar com o PS? Só agora entenderam que devem apagar toda a ostracização política e ofensas descontextualizadas dirigidas ao PS, mormente, relembrando a todo o momento, que as causas de todos os males foram as políticas do PS e, particularmente, do ex-primeiro-ministro José Sócrates? Só agora e de forma desavergonhada?
Por mim é tarde. Prefiro uma clarificação no quadro de um novo caminho que, objectivamente, não considero contra-natura. Elegemos deputados, não elegemos um primeiro-ministro! E a composição da Assembleia, no quadro da desejada ESTABILIDADE impõe uma configuração de governo face à qual, reconheço, não estamos habituados. Mas é a democracia que deve ser respeitada, ressalvando-se o inalienável direito do PSD/CDS de governar em minoria. Se o Presidente da República aceitar, que se cumpra essa vontade e disponibilidade dessa coligação. O que não me parece correcto é que o PS conjugue esforços de entendimento face a um programa (PSD/CDS) com o qual não concorda.
Ilustração: Google Imagens.

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