sábado, 21 de novembro de 2015

EDUCAÇÃO - ENTRE A DESORDEM SOCIAL E UM GOVERNO SEM RESPOSTAS PARA O FUTURO


O debate mensal na Assembleia Legislativa da Madeira, com a presença do presidente do governo, está a tornar-se um número enfadonho, muito distante do interesse político que o mesmo deveria suscitar. Este último, tendo a Educação como tema central, foi tão fraquinho que a própria comunicação social quase nada conseguiu resumir e divulgar. A intervenção do presidente do governo foi um desastre, quando ele ali estava a prestar contas, não apenas aos 47 deputados, mas a falar para uma classe profissional que reúne mais de 6.200 docentes, que enquadram mais de 40.000 crianças, adolescentes e jovens-adultos, para não falar dos pais e encarregados de educação. O presidente tinha (e tem) o dever político, naquela e em todas as outras circunstâncias, de preparar-se, apresentar-se rigoroso e convicto, profundo e directo, simultaneamente, com capacidade de síntese. Ali, face às responsabilidades políticas, não se admitem posições dúbias e respostas evasivas. Um debate sobre Educação, ou, talvez melhor dizendo, sobre o sistema educativo, sendo esta a primeira vez que se dirigia à comunidade educativa e quando o ano escolar há pouco se iniciou, exigia uma exaustiva preparação dos vários dossiês no sentido de constituir um marco da governação em um sector determinante na construção futuro colectivo. Mas isso não aconteceu. Falou o autarca, não falou o presidente do governo.


A realização do debate mensal não pode ser um número político que se cumpre rotineiramente. Durante anos a oposição na Assembleia reivindicou a presença do presidente do governo, então, terá pensado o presidente, porque quero demonstrar que sou diferente, aí estarei. Só que todos estamos fartos de números políticos que o espectáculo, há anos em cena, impõe. Hoje deseja-se que essa prestação de contas transporte a palavra qualidade. Já não chega dizer umas coisas, a presença só por si nada diz, determinante é, pois, que a presença corresponda a um exercício de conhecimento, justificação e compromisso. O presidente não tem de ser enciclopédico, mas tem o dever de procurar e reunir informação, estudar e transmitir um sonho, uma utopia, um querer seguir um caminho consistente. Ficou daquele debate um soundbite extremamente negativo: esta escola tem um “passado triste”. Pois tem, mas por (ir)responsabilidade de quem, questiono. Dos governantes no poder há 40 anos? Dos professores que lutaram, mas foram triturados pela máquina do silêncio, do medo e das cumplicidades partidárias? Dos sindicatos que alertaram, mas que foram ostracizados? Da Universidade que foi posta à margem? A resposta não foi dada, mas todos, não sei se maldosamente, foram atingidos. Pairou a ideia que, agora, será diferente. Presunçosamente, terá querido transmitir, a história será outra!
Não confundo pessoas com atitudes políticas. É sobre as atitudes políticas que escrevo. Não aceito que se exija qualidade na escola e que não se demonstre essa mesma qualidade do debate político. Não aceito que se deseje rigor e resultados na Escola, mas a Assembleia seja palco de recreio entre um toque de entrada e outro de saída. Deveria o presidente saber que não é a Escola que tem um “passado triste”, mas o sistema educativo que foi desenhado. Ele tem uma paternidade. Não foram os professores que desenharam o sistema educativo na sua compaginação com todos os restantes sistemas: político, económico, financeiro, religioso, social e cultural. O sistema é este não por causa dos professores, repito, mas pelas políticas aqui definidas, sempre subservientes ao ministério que se marimbou para a Autonomia, pela insensatez e pela iliteracia que muitos governantes locais demonstraram relativamente à leitura do mundo. 
Enquanto professor senti-me atingido. Ao contrário do presidente, eu e muitos, sabemos o que é a Escola e a degradação que se encontra a montante da Escola. Conhecemos pela vivência prática dos seus órgãos e pela formação permanente à qual nos subordinámos. Conhecemos os muitos défices que se escondem por esta montanha fora. Conhecemos a desordem social, os múltiplos estados de fome, a escola como último reduto e sinal de esperança, as lutas de professores abnegados que resolvem o que não é do seu mister, o trabalho de muitas direcções executivas que sofrem com a incapacidade de responder, desde a falta de financiamento às incompreensões, pressões, perseguições e olhares de esguelha. Conhecemos os défices culturais das famílias e as angústias derivadas do desemprego, do alcoolismo e da cultura vigente. Se o sistema tem um “passado triste”, deveria então o presidente revelar como tentará sair do redemoinho. Não basta trololó, frases terminadas a meio, banalidades requentadas, exige-se seriedade e um outro nível de responsabilidade governativa. O chão das generalidades uvas deu e de má qualidade. A bebedeira de tempos recentes provocou estragos em todo o corpo social, daí que necessário seja a existência de unhas para agarrar o leme, deixando, definitivamente, a navegação pelas estrelas. Mas, pelo discurso, se nunca duvidei, hoje, parece-me que isto vai de encontro ao icebergue.
NOTA
Artigo de opinião, da minha autoria, publicado no Funchal Notícias.
Ilustração: Google Imagens.

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