segunda-feira, 23 de novembro de 2015

OS GOVERNANTES PRECISAM DE IR AO PSICÓLOGO


A posição que, sumariamente, aqui deixo, nada tem a ver com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, organismo que, tal como todas as organizações de classe, nutro respeito. Considero, até, importante a sua luta para criar respostas profissionais para quem se licencia. O problema que aqui me  traz não é esse. Tem sim a ver com o facto do "Ministério da Educação e Ciência (MEC) investir cerca de 30 milhões de euros, provenientes de fundos comunitários, "na contratação, formação e aquisição de materiais no âmbito do trabalho dos psicólogos em contexto escolar". O objectivo, é, até 2020, "atingir um psicólogo por cada 1.100 alunos" de acordo com declarações do governante, Pedro Cunha, à Lusa, na sexta-feira passada. A questão tem a ver com o facto do sistema educativo arrastar-se atrás dos problemas, ao jeito de um penso rápido em uma ferida que sangra, abundantemente.


Os psicólogos não vão resolver os graves problemas que se colocam a montante do sistema e que desembocam na escola. Não serão, com toda a certeza, os psicólogos que vão resolver, no caso concreto da Madeira, o aumento do número de desempregados que atingiu a cifra de 22.326 pessoas em Outubro passado,  com todo o rol de consequências que daí derivam. Da mesma forma que não serão os psicólogos que vão contrariar as péssimas linhas orientadoras do sistema educativo nacional, absolutamente desconformes com o mundo que vivemos e com as respostas que os alunos e muitas famílias desejam encontrar. Tal como não serão os psicólogos a esbater os défices culturais de uma grande parte da população com influência directa na escola. Neste contexto, eu diria que quem necessita de consultar os psicólogos são todos aqueles que têm responsabilidades políticas governativas e que não conseguem perceber e estruturar, de forma integrada, uma sociedade com futuro, onde a Escola se afirme como ponto de partida do entusiasmo pelo conhecimento. 
A via que o ainda governo da República segue é a da ausência de lucidez e da falta de coragem para alterar, desde logo, paulatinamente, toda a organização da sociedade e o sistema educativo que serve essa sociedade. Não serão os psicólogos que irão combater, com sucesso, um sistema que conduz as crianças a passarem mais de cinquenta horas na escola, enquanto os seus pais, os que têm trabalho, são escravizados pelas leis laborais, pelas pressões conducentes a depressões, pelos recibos-verde, pelos objectivos a cumprir e pelo número de horas em busca de uma melhoria dos baixos salários. Não serão, ainda, os psicólogos a combater essa perversa "escola a tempo inteiro" que escolariza aquilo que deveria constituir o sentido mais lato da palavra jogo. Em tudo isto, sobre uma generalizada presença de psicólogos na escola, eu diria que constituirá a melhor resposta para um problema errado. Não tarda e se houver disponibilidade, teremos um médico por escola e um enfermeiro por escola. Será, por aí, que conseguirão melhorar a saúde no âmbito do conceito da Organização Mundial de Saúde? (bem-estar físico, mental e social? Não creio. 
Mas, atenção, apesar de todas estas minhas considerações, reconheço, que da acção profissional dos psicólogos, em função da capacidade científica da sua intervenção, poderão resultar alguns ganhos. Mas não é essa visão global que o sistema educativo, para já, necessita. Se um conjunto de mudanças de paradigma estivessem em curso, aí sim, não me restariam dúvidas que a presença do psicólogo constituiria mais um elemento potenciador do acompanhamento, gestão de conflitos e intervenção, até, no campo das dificuldades de aprendizagem. Como tudo o resto falha, parece-me estarmos no domínio do penso rápido!  
Ilustração: Google Imagens e Youtube


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