quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A MINHA MENSAGEM, O MEU DESABAFO!


Gostaria que fosse diferente, mas é o que é. Conformo-me, mas mantendo a utopia no seu significado mais profundo, essa utopia, na esteira de Eduardo Galeano, que está no horizonte e que se distancia à medida que para ele avançamos, o que significa que ela serve, exactamente para isso, para que não deixemos de caminhar. Caminhar com sentido, com objectivos e convicções claras. Por isso, o Natal, aquele que gostaria que fosse, não é. Ficamos pela boa azáfama, embora rotineira, que passa ao lado dos verdadeiros e intrínsecos princípios e valores. Não sou pelo Natal rico, mas muito menos pelo Natal pobre. Sou pelo significado do nascimento e pela semente deixada entre os Homens. Essa semente que tornaria um mundo de ódios esbatidos, religiosos, políticos e outros, um mundo de equilíbrios, de liberdade, tolerância, de paz e de fraternidade e irmandade entre os Homens e as nações. Um mundo onde não fosse necessário pregar a fé e apregoar a caridade, porque implícita nos nossos valores. Este, não é, portanto, o Natal que desejaria viver. Nunca foi. Vivo as tradições culturais, sinto-as e esforço-me por transmiti-las, mas, questiono-me, isso chegará quando sentimos o cheiro da pobreza, o desesperado suicídio, o som da guerra que se espalha, as mortes no mediterrâneo, os tormentosos passos dos refugiados, a fome, o desespero, a emigração forçada, o desencanto de políticos que roubam e que nos esbulham, a corrupção tornada modo de vida, o desemprego, as várias violências, a hipocrisia, a mentira, a fortuna de uns à custa da maioria, mais, ainda, a própria destruição do planeta? Há, convenhamos, um certo amargo, quando colocamos os pés no chão e reflectimos sobre a realidade local e global.

Não é este o Nascimento que ambiciono e que, estou certo, a esmagadora maioria dos povos deseja. Continuam a existir mais direitos do que justiça. E o que não faltam são textos aprovados pelos Homens que servem para emoldurar e a eles nos referirmos sempre que dá jeito e a necessidade apela. O que não faltam são Constituições de países com artigos e alíneas repletos de direitos sociais. Mas falta-nos o essencial: repudiarmos o egoísmo, a maldade, a ganância, a mentira servida de forma sorridente e convincente, a ostentação, o falso altruísmo, políticos sem visão e especialistas em mediatismo, os ditadores, os que fazem da política uma profissão, a globalização da indiferença, os fraudulentos negócios da banca, entre tantos outros, a punição exemplar de quem se serve de mão-de-obra escrava, os crimes de colarinho branco, os que carregam nos impostos sem dó nem piedade por obediência a essa desorientada União Europeia dos "mercados", os que se servem de países pobres para sugarem as suas riquezas, enfim, tudo aquilo que ofende a dignidade do Homem mortal, que por aqui passa umas escassas dezenas de anos. Quando tudo decorre sem sobressaltos de saúde!
O Nascimento aponta nesse sentido, penso eu. Não passa por matar a fome, por exemplo, aos sem-abrigo na noite de Natal, mas em devolver-lhes a vida. Não passa, apenas, pelo espectáculo das festas de Natal nos hospitais, mas em garantir o direito à saúde a todos, sem taxas, taxinhas, milhares em listas de espera e sujeitos a infecções quando hospitalizados. Não passa, apenas, por visitas de circunstância a instituições de crianças, distribuindo-lhes brinquedos, mas em garantir-lhes futuro. Não passa, apenas, por almoços e jantares entre colaboradores de empresas, por momentos de alegria e de esquecimento de tropelias. Não passa, apenas, por uma noite do mercado, uns copos e umas sandes de vinho-e-alhos. Porque o Nascimento deveria residir em nós, nos outros onze meses do ano. Utopia? Não. Fraqueza dos Homens, sim. 
Ainda ontem, no coração citadino, cruzei-me com centenas de pessoas. Talvez milhares, cada uma na sua vida, correndo de um lado para outro, adquirindo isto e aquilo, mas quantos, questionei-me, sofrendo em silêncio as vicissitudes da vida? Tudo ou quase tudo aparências, quando Janeiro, aí estará, dentro de uma semana, com a vida a voltar à doentia normal anormalidade. Gostaria que fosse diferente, mas é o que é! Tomemos consciência. E se digo isto é porque acredito no Pai-Natal! A utopia não morrerá em mim.
Ilustração: Google Imagens.

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