sábado, 12 de dezembro de 2015

POLÍTICA EDUCATIVA. CUIDADO COM OS RANKING'S DAS ESCOLAS


Não deixam de constituir um indicador e, no quadro deste sistema educativo, errado de raiz, sublinho, qualquer classificação entendida por muito boa, merece reconhecimento. Estão em causa, fundamentalmente, professores e alunos. Mas, atenção, isto pouco significa. O sistema não deveria funcionar por picos de rendimento, mas pela regularidade ao longo dos anos. Apenas um exemplo, entre vários: em 2008-2009, um estabelecimento de ensino da Madeira obteve a média mais alta do país no exame nacional de Matemática de 9º ano, com 4,53 valores em 43 provas realizadas. No ranking publicado ontem (2015) aparece em 43º da classificação! O estabelecimento a que me refiro já foi terceiro no global e primeiro na Matemática. Como agora uma do sector público surgiu em 26.º lugar (menos de 50 provas realizadas). Tal como neste ranking aparece uma escola da Madeira na posição 1.176 em 1.237 estabelecimentos de ensino básico no todo nacional. Depende de variadíssimos factores. Mas vou ao que interessa, embora, em síntese.


Do ponto de vista da importância da formação básica, os exames pouco ou nada revelam. Dentro do sistema, os ranking's são um indicador, mas apenas isso. Um para juntar a muitos outros. Cada vez mais, não me interessam, porque sou frontalmente contra um sistema que se preocupa com a avaliação e não com o conhecimento. E o conhecimento está muito para além das respostas concordantes com os programas sectoriais explanados no manual. A ditadura (obsessiva) da avaliação tomou conta do lastro cultural que todo o sistema básico deveria comportar. O conhecimento é muito mais vasto e transferível para o futuro, ao contrário de muitas respostas tidas por certas que são para esquecer. Li em Alvin Toffler que os analfabetos do século XXI não são aqueles que não sabem ler nem escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender e reaprender. Esta escola não está preparada para isso. Está preparada para dar sempre a mesma resposta mesmo que os quadros sejam distintos. É por isso que, perante a vida que é sempre diferente, esta escola esteja condenada porque assenta no modelo absoluto, tipo pronto-a-vestir, quando precisamos de alta-costura e por medida. Vive e explora uma classificação pontual e mostra-se incapaz de ver o sistema no seu todo, na sua relação e inter-dependência com todos os outros. E se não é assim, procurem, então, realizar uma análise aos resultados de todas as escolas ao longo de todo o tempo. Terão desagradáveis surpresas.
Tantas vezes estive contra as posições da ex-Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. Todavia, agradou-me ler um seu texto, hoje publicado (Público), do qual saliento a seguinte passagem: "(...) A experiência demonstra também que os resultados escolares não se melhoram com os rankings nem sequer com os exames. Nos últimos três anos, não faltaram rankings nem exames, mas o insucesso escolar aumentou em todos os anos de escolaridade. A melhoria dos resultados escolares exige mudanças e investimentos continuados em três planos. Primeiro, otimização da capacidade técnica e de inovação dos professores e de outros profissionais da educação. Segundo, reforço da inserção das escolas nas comunidades enquanto serviço público de proximidade sujeito à participação e escrutínio das famílias e das instituições locais. Terceiro, atribuição às escolas de instrumentos de organização adequados. A autonomia e melhoria da liderança e da gestão das escolas, nos planos científico, pedagógico e organizacional, devem traduzir-se na possibilidade de decidir sobre o tempo de trabalho-tarefa dos alunos, sobre as práticas pedagógicas e sobre a gestão dos currículos, dos programas e da diferenciação das ofertas formativas. (...)". Eu não ficaria por aí, mas é um caminho.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Anónimo disse...

Cuidado, sim. Concordo.Mas, é na verdade, um indicador. E como tal, deve merecer a atenção devida.O sistema deve preocupar-se, fundamentalmente com o conhecimento? Sem dúvida. Então, qual o papel da avaliação? De que modo, ela pode e deve estar ao serviço do conhecimento? Quais os processos necessários ao alcance do objectivo maior? Que é o aprender e desaprender, o reaprender. O adquirir conhecimento, o adquirir saberes.O saber mais, o saber melhor, o não querer parar de saber.O aprender a aprender. Sempre.
Então, neste desafio permanente, qual o papel da escola? Temos uma Escola à altura desde desafio?Ou, já temos escolas que reconhecem que este é o desafio maior?
Cuidado? Ou... urge não ficar por aqui?

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
Gostaria de lhe dizer que sou uma pessoa que não abdico do rigor e que a Escola é de uma importância vital para o País. E quem fala do País fala das suas gentes. O problema é outro, é, fundamentalmente, organizacional, programático e pedagógico. O nosso sistema de ensino teve poucas alterações desde o século XIX. Entretanto, o mundo avançou em tantos domínios e o sistema, infelizmente, mantém as características do passado. Hoje, temos "crianças do século XXI, com professores do século XX e metodologias do século XIX". Há um óbvio desencontro.
A questão é determinar, no mundo que vivemos, como é que a Escola pode responder eficazmente a esse mundo. Tenho escrito muito sobre estas matérias. Deixo aqui, despretensiosamente, alguns contributos.

http://comqueentao.blogspot.pt/2015/06/educacao-na-finlandia-principio-ninguem.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2009/09/finlandia-iv-educacao-compreensao-das.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2015/03/finlandia-muda-de-sistema-educativo-em.html