quarta-feira, 30 de março de 2016

PRIMEIRO ANO DE GOVERNO DA MADEIRA É UMA COMÉDIA DE ENGANOS


Quem acreditou, concedendo o voto, tem razões para sentir o desconforto. É que não está em causa o stop à “obra” pública ou as mal explicadas e polémicas substituições em cargos políticos, mas sim para onde caminha a Região. E isso ninguém sabe. O governo transmite a imagem de um departamento da função pública que abre e encerra, pontualmente, todos os dias. Cumpre o horário, despacha o normal e o anormal, comparece aos actos protocolares e autopromove-se através dos seus gabinetes. Políticas estruturantes de natureza económica, educativa, de saúde, de assuntos sociais, vectores fundamentais portadores de futuro, do crescimento e do desenvolvimento, não são perceptíveis. É sensível uma política de transmissão de uma imagem serena, feita de palcos e palavras, de sessões contínuas de filmes em cena há tantos anos, não de pensamento acerca do futuro.


A coisa vai funcionando, viciosamente, mas governar é muito mais do que isso. Alguém saberá como resolver o dramatismo da impagável dívida e as políticas económicas associadas, mormente as do desemprego que cresce descontroladamente? Alguém está interessado em gerar linhas orientadoras de um novo e basilar sistema educativo? E a saúde esgotar-se-á no debate em redor de um novo hospital? E a aflitiva pobreza, os imensos dramas vividos nas margens sociais e as questões da solidariedade resolvem-se com iniciativas folclóricas que nascem e morrem no mesmo dia?
Seria curial que, em função da gigantesca dívida herdada pelos confrades, emergisse sinceridade no discurso político, transmitindo à população as múltiplas impossibilidades e que, no mínimo, restassem as convicções de um percurso estruturado no bem-estar futuro. Nem isso acontece. Assiste-se a uma representação teatral, a uma comédia de enganos, que não consegue disfarçar uma certa impreparação para a complexidade do acto de governar. Ao contrário de transmitir uma imagem de grupo coeso, firme e posicionado na dianteira dos problemas, tem ficado o sentimento da desarticulação entre sectores e uma encenação que tenta disfarçar, inclusive, as tensões partidárias internas, o que tem sido provocador de uma corrida, permanentemente insensata, ziguezagueante e de promessas adiadas, sempre atrás das circunstâncias. O governo, muitas vezes, parece-me mais guiado pelo “Diário” e não por um eventual pensamento político. 
O problema é que há políticos deslumbrados, no governo e na Assembleia, para os quais parece mais valer o lugar que ocupam que a importância da função que desempenham. Resquícios do passado ou hereditariedade política, talvez. E isso é um problema que em nada ajuda na construção de uma região próspera. Ai, ai, se este quadro acontecesse no Continente, com a massa crítica exigente e implacável!
NOTA
Texto da minha autoria, publicado na edição de ontem do DN-Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

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