sábado, 23 de abril de 2016

PARA QUE SERVEM OS TPC


Da capa da penúltima revista Visão: “crescem os apelos e movimentos contra os trabalhos para casa. Aversão à escola, maior desigualdade e conflitos familiares alimentam críticas”. No interior, leio: “(…) Há anos que ouvimos o psicólogo Eduardo Sá falar da falta que faz um sindicato das crianças” (…) onde uma das “primeiras iniciativas fosse, exactamente, a greve aos TPC”. Uma metáfora por considerar que os mais novos já trabalham de mais nas horas que passam na escola, conclui a jornalista Teresa Campos. Mais adiante: “(…) Maria José Araújo, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Universidade do Porto, classifica os TPC de excessivos, repetitivos e inúteis, pois as “crianças aprendem muito mais quando estão a brincar”. Por seu turno, Mário Cordeiro, prestigiado pediatra, assume: “(…) Queixamo-nos que a família se reúne pouco e, depois, vemos o trabalho e a escola invadirem a intimidade e a privacidade das crianças”. Daí a pergunta: “Valerá a pena, pela noite dentro, as crianças estarem a ser torturadas, com os pais aos gritos e acabarem por serem eles, pais, a fazerem os trabalhos, criando-se um clima familiar horrível, desgastante para todos, antes da hora de dormir? (…) Desengane-se quem pensa que os seus cavalinhos de corrida chegarão à meta mais depressa à custa de TPC. Pelo contrário”. José Morgado, professor de Psicologia da Educação, sentencia: “Quem defende os TPC é a população que foi escolarizada dessa forma e associa uma coisa à outra. Pensam que por ir ao médico este tem de receitar análises. Depois espantam-se que os jovens gostem cada vez menos da escola”.


Há muitos anos que este é um assunto incontornável, o que me conduziu a estudá-lo, lendo e ouvindo especialistas, finalmente, propondo adequada legislação na Assembleia Legislativa da Madeira, chumbada, claro. Hoje, mais bem consolidado o meu conhecimento, teria ido muito mais longe do que então. Em um texto que publiquei em 2011 assumi: os TPC, sobretudo no primeiro ciclo, não se justificam numa escola devidamente organizada. Uma criança que entra na escola às nove horas da manhã e, muitas vezes, dela sai ao final da tarde, a questão que se coloca é o que lá andou a fazer durante o dia. Se os mentores políticos da escola que temos lessem um pouco mais sobre “desenvolvimento e aprendizagem”, se reflectissem sobre a problemática da “criança e do jogo” em um sentido lato, certamente que outros seriam os seus posicionamentos, até porque, mais escola não significa melhor escola (…) e não é queimando etapas do desenvolvimento (somos o animal com maior tempo de infância) que se atingirão melhores resultados finais, isto é, seres disponíveis para a conquista do mundo. Ainda desse texto: (…) Ontem segui uma peça, no Telejornal da RTP 1, sobre os designados Trabalhos para Casa (TPC). Em síntese, retrataram uma escola do 1º ciclo do Ensino Básico onde não são marcados trabalhos para casa e, ao fim de semana, os livros e cadernos ficam no cacifo da escola. Dizia um professor que a escola estava organizada no sentido do estudo acompanhado pelo que se tornava dispensável retirar tempo ao tempo de lazer e de jogo próprio da criança”.
Ora, passados cinco anos, o tema continua na ordem do dia. Ainda bem, porque de tanto se debater talvez alguma coisa se altere. Não conheço muitos exemplos na Madeira, mas um, recentemente, deixou-me feliz. Na Escola Básica 123 do Curral das Freiras que há alguns anos situava-se nos últimos lugares (1207º) do ranking nacional de escolas, saltou, no último, para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano. O interessante é que “tem 300 alunos, não tem campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batem certo com os do autocarro”. Uma escola onde 92% dos alunos beneficiam da Acção Social Educativa – Jornal Público. Facto que prova que não são os TPC que resolvem o problema, mas outras e inteligentes opções organizacionais e pedagógicas.
Ilustração: Google Imagens.
NOTA
Opinião, da minha autoria, publicada, hoje, no Funchal Notícias

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