segunda-feira, 4 de abril de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA ÀS AVESSAS


Tenho pelo pedagogo Sérgio Niza e pelo neuropediatra Luís Borges uma enorme consideração. Por razões diferentes. Pelo Professor une-me os laços do seu pensamento sobre os caminhos da Escola Moderna, luta baseada na investigação vai para 50 anos; pelo Médico, o facto de ter, há muitos anos, diagnosticado e, por extensão, invalidado, em Coimbra, de forma certeira, uma primeira avaliação de um alegado problema saúde de uma filha. Por ambos, nutro consideração e muita estima pelos seus percursos, para mais, ainda, tratando-se de duas pessoas de fino trato, humildes e de rara inteligência. Ontem, dediquei algum tempo a ler assuntos de política educativa. E dei com duas entrevistas que me encheram de entusiasmo, simplesmente porque, quando o erro político permanece, há pensadores que vêm dizer, cuidado, vamos no sentido errado. Deixo aqui duas passagens das entrevistas que li. 


"A escola já não perde tempo a fazer aprender"

Alerta o professor e pedagogo Sérgio Niza. "Alunos sem esperança, professores ansiosos, ensino bafiento e uma escola que não serve os interesses das crianças e jovens nem os do país. Sérgio Niza dedicou a vida à educação e não se conforma com o estado a que a escola portuguesa chegou. Professores insatisfeitos, pais preocupados e alunos que acham as aulas uma maçada. O que é que se passa com a nossa escola?
Esse é o retrato da escola portuguesa e da generalidade das escolas dos países ocidentais devido à forma de organização do trabalho. A estrutura de ensino simultâneo – todos a aprender a mesma coisa ao mesmo tempo – vem do século XVII e ainda perdura apesar de se saber desde os anos vinte do século XX que é um modelo esgotado. O professor dá uma lição, depois faz uma pergunta, escolhe um aluno para responder e avalia o trabalho substancial que é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não-comunicação em que o professor usa mais de três quartos do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo possível. Poderá algum jovem ou criança suportar isto?

Encurtava as aulas, multiplicava os intervalos, mudava as metas curriculares, dava aos professores mais formação na área das neurociências e garantia aos miúdos mais tempo para brincar. 

"Se pudesse, o neuropediatra Luís Borges mudava a escola. E medicava muito menos. (...) Há coisas que não estão de acordo com as capacidades das crianças. Eles conseguem, mas com grande esforço, grande stress e sem alegria. Ao nível do cérebro, quando a criança faz uma conta bem feita e tem sucesso, é libertada uma substância que gera bem-estar, a dopamina. Já o insucesso liberta as hormonas de stress, a adrenalina, que muitas vezes bloqueiam a capacidade de raciocínio. Se a criança tem medo de errar, não está em boas condições para aprender. Depois, o stress acumula-se e a motivação que é o motor para aprender não existe, a escola torna-se uma seca".
A Secretaria Regional da Educação que pense nisto!
Ilustração: Google Imagens.

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