terça-feira, 24 de maio de 2016

UM CARTAZ OFENSIVO E IGNORANTE


Comparar o Professor Mário Nogueira, líder da Fenprof (Federação Nacional de Professores) a Josef Stalin, político soviético de triste memória, a par de outros, é ofensivo, grotesco, malcriado e de uma notável ausência de cultura histórica. O que não é de estranhar. Os jovens do PSD, assim, não vão longe. Assumir que o ministro da Educação, Doutor Tiago Brandão Rodrigues, é uma marioneta face às posições do representante da esmagadora maioria dos professores sindicalizados, é outra infelicidade, para não designar de outra maneira, pois revela completo desconhecimento das obrigações constitucionais e dos princípios que devem nortear uma política educativa portadora de futuro. Podem não gostar de qualquer uma destas figuras e do que politicamente assumem, mas há outras formas de transmitir opiniões, mesmo que marcadamente ideológicas, de uma forma sensata, elevada e contundente. Os autores deste cartaz precisam de uma aulinha de História, de uma sessão sobre sindicalismo e, ainda, de uma outra sobre políticas educativas. Discordar é natural e necessário, ofender sem sentido, é reles.


Sou sindicalizado há várias décadas e membro dos órgãos do Sindicato de Professores da Madeira. Os professores entenderam que me deveriam convidar para presidente da Mesa da Assembleia Geral dos Professores. Estou a cumprir esse mandato. O meu sindicato (SPM) é por seu turno membro da Fenprof. E tenho muita satisfação nisso. Respeito quem esteja ligado a qualquer um outro sindicato membro da UGT, mas espero que me respeitem na minha opção. E se ali estou, é porque reconheço a luta de muitos anos por um melhor sistema educativo. Poderão questionar-me: mas está de acordo com todas as posições do secretário-geral da Fenprof, Professor Mário Nogueira? A resposta é NÃO, mas naquilo que é essencial e estrutural obviamente que estou. O resto são fait-divers políticos que não aquecem nem arrefecem. E ainda bem que é assim, porque me é garantido o direito de ter opinião, de contestar e de escrever, sempre no sentido de um sistema educativo que não deixe ninguém para trás. Da mesma forma como exasperei contra alguns ministros da Educação, inclusive, indicados pelo Partido Socialista.
Conhecerão os jovens do PSD o que é andar com a casa às costas durante dez, quinze, vinte anos, das ilhas para o Minho ou de Trás-os-Montes para o Algarve? Conhecerão o Estatuto da Carreira Docente e, por exemplo o ineficaz processo de avaliação de desempenho docente? Dominarão as questões dos concursos? Estudaram, em toda a sua extensão, as questões da escola pública vs escola privada? E os dramas do desemprego, o bloqueio na carreira e a ausência de financiamento? E sobre a rede escolar? E sobre as questões organizacionais, curriculares e pedagógicas? E sobre a Educação Especial? E sobre o Ensino Profissional? E sobre o Ensino Superior? E sobre as razões mais substantivas do abandono e do insucesso? E sobre os horários de trabalho? E, já agora, fizeram um trabalho sério de conhecimento sobre a formação inicial, contínua e especializada? E sobre a municipalização do sistema? E sobre as causas da indisciplina e violência no meio escolar, qual foi o vosso esforço? E sobre as questões de uma gestão e administração democráticas?
Curiosamente, não falei do regime salarial. De facto, tratando-se de uma matéria importante, raramente os portugueses assistem a reivindicações nesse quadro. As questões do sistema, da escola pública e do sucesso nas aprendizagens têm prevalecido sobre um sindicalismo que não reduz as suas preocupações à esfera salarial. Talvez porque a Fenprof preocupa-se com a totalidade do sistema e não com uma parte do mesmo, Mário Nogueira, a par dos seus antecessores, sempre foram figuras a abater. Uns mais do que outros. Mas a verdade é que foram e são os professores que nele votam há vinte anos! Dir-me-ão, mas é tempo de ceder o lugar a outro(a). Talvez, não digo que não. Não aceito, todavia, que um articulista do Expresso escreva, levianamente: "Quem é Mário Nogueira? Um dos inimputáveis do regime". Porque essa pergunta e essa resposta ofende os professores.
Ilustração: Google Imagens.

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