quinta-feira, 9 de junho de 2016

A ILHA QUE NÃO EXISTE


Apesar de ser uma das regiões portuguesas onde o turismo está presente há mais tempo (pelo menos desde o início do séc. XIX), hoje, uma boa parte da Madeira não é para mostrar. É como se não existisse. No passado, porém, a ilha parece ter sabido promover a imagem da sua arquitectura junto dos potenciais frequentadores: no séc. XIX, tempo das longas estadias invernais, foram os ingleses quem, em guias e relatos de viagem, louvaram e propagandearam as quintas de aluguer que povoavam a encosta do Funchal; na transição para o séc. XX, com o despontar do turismo de lazer, encurta-se a estadia, aumenta o fluxo de passageiros em trânsito e surgem os primeiros hotéis dignos desse nome: o Reid’s, o Monte Palace ou o Bela Vista, todos circularam pelo mundo sob a forma de bilhete postal; a partir da abertura do aeroporto, com a chegada dos primeiros ‘charters’, inicia-se a era do turismo de massas e da arquitectura hoteleira em betão armado, cujo expoente máximo, o hotel do Casino, de Oscar Niemeyer e Viana de Lima, figurava nos postais coloridos dos anos 70, anunciando a qualidade e modernidade do destino.


Ao tentarem adaptar o Funchal às exigências dos turistas, governadores e autarcas parecem ter sido capazes de criar, simultaneamente, belas ‘panorâmicas turísticas’. Entre as reformas que, em meados do século XIX, Silvestre Ribeiro levou a cabo para afeiçoar o Funchal à mobilidade dos ‘doentes do peito’, a abertura da estrada Monumental e da sua ponte foi das que teve mais destaque nos guias turísticos; em 1910, por iniciativa do Visconde da Ribeira Brava, o arquitecto Ventura Terra é incumbido de traçar um Plano de Melhoramentos para a capital do arquipélago, que mais tarde dará origem à Av. do Mar, verdadeiro bilhete postal do Funchal moderno; em finais dos anos 60, sob a presidência de Fernando Couto na Câmara Municipal, a cidade conheceu o seu primeiro Plano Director, onde o arquitecto Rafael Botelho definiu com clareza as novas áreas de expansão turística, cuja desafogada imagem recordamos hoje em alguns postais do Lido.
Por fim, chegada a era dos fundos europeus, assistimos ao ‘boom’ imobiliário e a avultados investimentos em infra-estruturas viárias, aero-portuárias e outros equipamentos (bem documentados pela fotografia de Tiago Casanova). Sulcada por vias rápidas, túneis e viadutos, orlada de obras marítimas e semeada de prédios de habitação, em menos de duas décadas, a ilha viu-se transformada numa dinâmica conurbação polarizada pela sua capital. Porém, a imagem turística que a Madeira decidiu projectar de si própria foi a de paisagens decantadas de tudo quanto fosse obra recente: o parque natural, alguns golfinhos e duas casas de Santana. Parece que o Caniço de cima não existe (nem o de baixo), que as zonas altas não existem, que as vias rápidas não existem e que as ribeiras, depois de betonadas, provavelmente, deixarão também de existir. Ao contrário do que sucedia no passado, as paisagens com as quais os madeirenses convivem quotidianamente não coincidem com as paisagens que promovem a ilha como destino turístico.
NOTA
Artigo de opinião publicado, na edição de hoje, do DN-Madeira, pelo Arqiitecto Rui Campos Marques (Ordem dos Arquitectos)

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