segunda-feira, 13 de junho de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA - O PROBLEMA É PRECISAMENTE ESSE... NÃO "LEVANTAR ONDAS"


O secretário regional da Educação da Madeira foi considerado, pelo DN-M, "protagonista" da semana finda, segundo o jornalista, no pressuposto que "vai mudando a educação sem levantar ondas". Ora, o problema é precisamente esse, é o silêncio que se torna ensurdecedor e preocupante. Aliás, são muitos os silêncios, os encolher de ombros, os deixa andar, as anestesias de muitos anos que travaram naturais e salutares sobressaltos, os medos espalhados e as angústias sentidas e engolidas, as ideias pré-concebidas, as decisões verticais desarticuladas das horizontais, enfim, uma amálgama de factores que convergem para uma situação anti-democrática de "mudança sem ondas". É o que se designa por "comer e calar", mesmo que a incompetência seja evidente, o avesso desejável para qualquer sector de actividade que pretenda mudar e se desenvolver. O sector da Educação é um deles, até por não existirem verdades absolutas. Agora, do que sei, é da existência de muita investigação, de muitos autores, de muita literatura, de muitos que pensam de forma diferente e, sobretudo, de muitas experiências por esse mundo fora que determinam a necessidade de, por aqui, arrepiar caminho.

Interroguem-se sobre motivo(s)
 de 
muitas crianças considerarem que a "Escola é uma seca"?

Porque esta coisa de fechar escolas ou juntar umas com outras, esse paleio de escudar-se na natalidade (neste momento a taxa está a melhorar) para fundamentar decisões, é o mais fácil, porém, se mergulharmos na realidade, apercebemo-nos que as razões mais substantivas são de natureza economicista e nada têm a ver com a arquitectura de um sistema portador de futuro. Questiono, a título de exemplo: justificam o encerramento de estabelecimentos de ensino pela diminuição do número de alunos, mas existirá, simultaneamente, alguma preocupação em alterar o quadro de estabelecimentos com mais de mil alunos? Ou, então, já agora, se a obrigação de um governo democrático é o de cumprir a Constituição da República, como justificar o encerramento de estabelecimentos de ensino quando se oferece ao privado mais de 25 milhões de euros anuais, descapitalizando a escola pública e reduzindo o número de alunos? Existem muitas outras questões!
Ora, as "mudanças sem ondas" conduziram a que a escola pela qual passaram os meus pais, foi a escola pela qual passei, foi a escola das minhas filhas e é a escola dos meus netos. As "mudanças sem ondas" deram nisto, em novos edifícios mas com lógicas de funcionamento a permanecerem "ad aeternum". Não sou eu que afirmo, são tantos os investigadores que assumem que esta "escola" atravessou o Século XIX, manteve as suas traves-mestras durante o Século XX e permanece, de forma redutora, no Século XXI. Toca-entra-toca-sai, professores que debitam e alunos que escutam programas a cumprir, como se a vida fosse disciplinas em separado. A "mudança sem ondas" apenas impede a ideia que a vida, em todas as suas variáveis e contextos, seja um fenómeno complexo, o que obrigaria, naturalmente, a uma nova concepção do funcionamento dos estabelecimentos de educação e ensino. 
A escola está pintada de fresco, é verdade, dispõe de mais este ou aquele projecto, está mais universal, mais integradora, mas também completamente desadaptada no tempo que vivemos. É esta "mudança sem ondas" que precisamos? Onde tudo parecendo novo, acaba por ser velho e caduco, que mata o prazer pelo conhecimento? É esta "mudança sem ondas" e de "calmaria" que a Madeira precisa, quando o insucesso e o abandono são extremamente preocupantes? É com uma "mudança sem ondas" que se esbaterá, de forma integrada, os dramas sociais que se escondem a montante do sistema?
Nós, madeirenses, pela pequenez do território, poderíamos ser um exemplo nacional e europeu, mas não somos, infelizmente. E teria sido tão fácil. Agora, levará muitos anos, estou certo disso. O problema é que o governo não quer uma escola pública de qualidade, com novos formatos de organização do trabalho de aprendizagem e de intervenção na sociedade. Portanto, "Protagonista" só se for pela manifesta opção pela escola do passado e não pela escola do futuro. O problema da escola do Século XXI não é a do encerramento de estabelecimentos, mas a de abertura da mentalidade, de cultura e de uma visão sistémica inovadora, cada vez mais criativa. E por aqui fico. 
Ilustração: Google Imagens.

Sem comentários: