sexta-feira, 15 de julho de 2016

DESABAFOS... A SOFREGUIDÃO PELO DINHEIRO


Tem já alguns anos, andava eu em visita a um país, não me recordo qual, metendo o corpo e todos os meus interesses e sentidos em tudo o que de mais importante havia para ver, saltando da zona histórica para os museus, catedrais, cantos e recantos citadinos, daqui para o pulsar do povo nas zonas mais concorridas e, no regresso, já em uma autoestrada, o amigo que me acompanhava disparou: "para ser feliz não é preciso ter muito dinheiro". Fomos até casa, ao longo de largos quilómetros, os dois casais conversando sobre o dinheiro e a felicidade. De facto, não é condição fundamental. Depois do que tínhamos visto, intensamente vivido e interiorizado, durante aquela jornada, sempre diferente todos os dias, de mochila às costas com um farnel de duas sandes, uns líquidos e fruta, máquina fotográfica e de vídeo, almoçando em um banco de jardim, aquele desabafo do meu Amigo fez todo o sentido. São tantas as vezes que a ele regresso. 


Isto a propósito de quê? Ah, do dinheiro e da louca correria para ser rico, muito rico, muitos sem tempo de vida para o gastar. Na véspera tínhamos falado dessa obsessão, pela banca, bolsas, offshore, investidores, lavagem de dinheiro, droga, armas, multinacionais, fuga aos impostos, negócios destinados a esmagar todos os outros, "desvios" e engenharias financeiras, Justiça, enfim, de toda essa engrenagem que, parecendo que não, estrangula a vida que deveria ser construída com um formato de sensatez. Nem por um momento sentimos inveja por quem o tem aos molhos, tampouco falámos de pessoas em concreto. Tudo de forma abstracta, na essência do que é ou deveria ser a vida, que é tão curta, face aos direitos, os fundamentais, os da saúde, educação, trabalho e protecção social.
O dinheiro, obviamente que é necessário, rigorosamente nada se faz sem ele, mas, convenhamos, há limites. A sofreguidão de uns compagina-se com a infelicidade da maioria. A desmedida ambição que sustenta o crescimento rápido acaba, genericamente, com danos colaterais. Dirão, uns: "é a vida"; digo eu: é a selva. Ainda ontem vivi, em discurso directo, uma situação que considero de emprego escravo, mal remunerado e que impede o acesso da maioria a essa felicidade sem muito dinheiro. Sublinho a palavra muito. O dinheiro está, cada vez mais, concentrado em alguns. Não é preciso dar exemplos de países de mão-de-obra baratíssima, de total exploração do ser humano, quando ao nosso lado os temos. É a história daquela jovem que encontrei em uma determinada empresa, muito conhecida. Talvez porque sou habitual cliente, essa proximidade conduziu-a a desabar, já não sei a que propósito: "tenho quase um ano de trabalho, mas sei que vou embora. Aqui ninguém pára ao final de x contratos. Já comecei a procurar emprego. Até para ir à casa de banho é preciso pedir ao encarregado. Temos hora de entrada, mas de saída nem por isso. Um salário mínimo e para ter mais algum é preciso vender, é preciso superar os objectivos. Mas como superar se as pessoas não têm dinheiro para comprar?" Pois, respondi-lhe, a exploração de milhares permite o desafogo desmedido de outros. Questiono, agora, para quê esta sofreguidão, precariedade e à custa de baixos salários?
As empresas, obviamente, não são instituições de solidariedade social. Existem para gerar emprego e possibilitar lucros. O problema não é esse. É sobretudo de equilíbrio, de rigor no trabalho, mas também de respeito por todos os que colaboram no êxito. O problema é como se cresce e se cria riqueza, se pela luta honesta diária, se pela desonestidade geradora de infelicidade. Regressando ao início, quando não é preciso MUITO dinheiro para ser feliz, repito, nesta curtíssima passagem pela vida.
Ilustração: Google Imagens.

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