domingo, 7 de agosto de 2016

O BEM E O MAL ENTRE AS PERNAS


Caríssimo, permita-me que o trate por Amigo. Eu sei, não temos uma relação frequente, mas conhecemo-nos. Só hoje soube, através do seu singular artigo, da situação que viveu e vive, também com uma extraordinária e singular atitude positiva. O seu artigo devia de ser de leitura obrigatória para todos os jovens. Devia ser esmiuçado no que às vicissitudes da Vida diz respeito. O seu artigo tem pinceladas de sofrimento consentido, de humor dentro da tristeza, de político sem o ser e de sincero amor pelos outros quando se refere a todos quantos nos ajudam em determinados momentos de angústia. A sua grandeza foi-me contagiante, tocou-me e, certamente, tocou a muitos que o leram. É um hino à Vida quando só vivemos uma vez. Parabéns pelo testemunho na primeira pessoa. Obrigado, Amigo.


"Antes de mais nada, peço que não vejam mal nenhum no título desta crónica. E, lendo-a até ao fim, chegarão à conclusão que o mal só poderá estar nalguma interpretação intempestiva.
A última vez que aqui deixei um escrito foi a 16 de agosto do ano passado. Dei-lhe o título de “Governantes corruptos” (onde é que eu tinha a cabeça?!...). Hoje podem ficar quietos. Mas governem bem!
Um ano de ausência por doença grave que levou à amputação do pé e de parte da perna esquerda, abaixo do joelho, devido a problemas de circulação, na sequência de diabetes em mais de vinte anos. Devem imaginar o que senti e o que ainda sinto. Parecia o fim do mundo. Mas não foi. Tantos meses de internamento, três operações cirúrgicas no pé e mais uma final na perna. Bactérias e vírus q.b.. Mas não foi o fim do mundo. Foi menos de meia perna. E é aqui que entram as pernas.
Aterrorizado com a ideia de que poderia estar sujeito a amputação (o que veio a acontecer), muito mal me sentia quando havia a iminência de isso suceder a companheiros de enfermaria, como infelizmente se verificou, antes e depois de mim. E claro que isso vai continuar a acontecer.
Será inevitável.
Agora, o que parece evitável é que haja tantas amputações na Madeira. Como um dia ouvi dizer uma muito conhecida profissional da medicina alternativa, “o hospital da Madeira parece um lugar de canibais”. Com certeza não se referia aos médicos, mas à praga das amputações ali operadas. Por isso, torna-se imperioso e urgente que se criem as condições mínimas para reverter a situação. Desde logo limpar o Hospital - uma imundície tremenda, onde é mais fácil adquirir bacilos, vibriões, cocos, bactérias, sépsis do que medicamentos e outro material elementar a um estabelecimento onde se pretender tratar de doentes; construir outro hospital à velocidade dum TGV e não dum “Comboio do Monte”; dotar toda a rede de pessoal médico e de enfermagem suficientes aos doentes acamados ou ambulantes.
Aspecto extremamente positivo foi o de ter constatado a entrega e a competência dos médicos com quem contactei durante e pos-internamento. Uma equipa de valor donde ouso destacar o Dr. Pinto da Cruz que não conhecia antes, mas que teve uma atenção tal que levou a que alguém o referisse como sendo um amigo meu. E foi.
Mas de igual valia foi toda a equipa de enfermagem do 2.º andar, lado poente, onde a Enfermeira-chefe Dalila, exigente consigo própria, atenciosa, muito interveniente, exige aos enfermeiros e às enfermeiras prestações, que são conseguidas, lutando todos contra as adversidades que por ali proliferam.
Bem hajam também todos os outros profissionais que dia a dia ajudaram a tornar o ambiente um pouco mais familiar.
Portanto, apesar de ter sido acometido por uma “hospitalite aguda”, por tantos meses lá passados, com fases de muito sucesso no percurso, resultante da competência referida, embora com desfecho negativo, muito derivado à sujidade hospitalar (estou convencido disso), a verdade é que houve aspectos muito positivos, passando pelas visitas e telefonemas dos amigos que fizeram o favor de me dar atenção.
Não podia esquecer a mesma forma profissional como estou a ser tratado na Fisiatria do Hospital Dr. Nélio Mendonça, onde encontro três vezes por semana o sorriso e o profissionalismo da Terapeuta Mariana, na reabilitação que me há de levar ao uso duma prótese.
Mais perna, menos perna, aqui estou a dar uma perninha com os escritos que o Diário me deixa publicar e os leitores me incentivam a aqui estar. Estas forças dão-me pernas para andar, faço-o até com uma perna às costas e, mesmo que alguém me queira cortar as pernas, hão de ter-me sempre à perna. É uma questão de pernas".
NOTA
Artigo publicado na edição de ontem do DN-Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

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