quinta-feira, 18 de agosto de 2016

TANTA FUGA ÀS RESPONSABILIDADES POLÍTICAS

Não é coisa nova. É sempre assim, por falta de cultura democrática e sobretudo política. Ninguém é responsável por nada. Ninguém assume nada. Porque alguns políticos sabem tudo. Oiço o concidadão que ficou sem a casa a se lamentar que os bombeiros estiveram no local, mas o acesso era muito estreito para a circulação das viaturas. Pois, mas a casa estava lá e certamente foi autorizada e passada a respectiva licença. Não há responsáveis. Oiço o concidadão que pediu para cortar eucaliptos e pinheiros doentes em redor da casa, mas em vão. Entretanto a casa desapareceu. Responsáveis... dão-se alvíssaras! Como não existem pelo caos urbanístico nas zonas altas do Funchal. Vejo-os a fugir com o "rabinho à seringa", desmultiplicando-se em visitas, em conversas de treta e em necessários realojamentos, mas com uma máscara, pelo menos do meu ponto de vista, que tenta esconder a sua responsabilidade política pelo desordenamento. Tudo se passa às claras, sem qualquer "mea culpa" porque essa, a existir, foi da "anatereza" e, exclusivamente, dos incendiários.



Ainda hoje, o articulista Alexandre Diaz Catanho escreveu no DN-Madeira: "(...) a consciencialização para a construção desfreada que se verifica na Ilha, a qual oprime e descarateriza a paisagem natural que lhe é caraterística e única. Aqui sim, reside a chamada de atenção deste pensamento em voz alta. Não só as construções governamentais, turísticas, ou particulares, mas sim o seu aglomerado como um todo, transforma a paisagem, que deveria em grande medida ser virgem, e a cada viaduto da Via Rápida ser-se assolado por um verde a perder de vista entre as formações montanhosas que lhe conferem profundidade, observa-se em contrapartida uma savana urbana de cimento, telhados, complexos turísticos, ou terrain vagues que corrompem o verde, o selvagem, a misticidade daquele território. Assim como a arte por si só é alienação do ser humano, neste caso construir por construir é crime (que o diga a flora e fauna autóctone). Sendo o turismo um dos pilares, senão mesmo a base para o desenvolvimento e atração de investimento à região, fator que consequentemente se reflete na qualidade de vida da população, vê-se ameaçado por esta construção massiva. (...)". Embora importante, nada de novo neste texto, tantos foram os que, ao longo de quatro décadas, investigaram, escreveram, participaram em conferências, chamaram à atenção, tantos que na Assembleia Legislativa e nas autarquias lutaram pelo ordenamento e planeamento atempado, mas de que serviu?

Ora bem, mas o nosso drama não se circunscreve apenas às zonas altas. Não sou especialista nem estudos científicos tenho para uma abordagem séria e fundamentada sobre o centro do Funchal. Mas leio e sou sensível. Por isso, interrogo-me, quais as consequências das escavações autorizadas, por exemplo, no coração da cidade, onde abundam centros comerciais e parques de estacionamento automóvel abaixo do nível médio do mar e quais as repercussões das excessivas impermeabilizações dos solos. Quais serão as consequências a prazo? Pelo que leio serão muito graves. Trata-se de um assunto identificado, estudado e publicado pelo Engº Doutor João Baptista. Alguém esteve ou está preocupado com este aspecto? Tarde ou cedo, quando a desgraça acontecer, obviamente que ninguém será responsabilizado, porque foi a "anatereza", dirão.
Escreve, ainda, o citado articulista: "(...) Face à problemática exposta e à consequente necessidade de encontrar novas soluções, torna-se indispensável considerar novas medidas, metodologias e políticas públicas de ordenamento territorial e planificação urbana coerente com as preocupações expressadas e ainda com os valores de sustentabilidade, conciliando a preservação com a animação/reanimação socioeconómica dos territórios. (...)". Daí o meu apelo: embora tarde, urge criar uma equipa de especialistas em vários domínios, que conjuguem as suas preocupações e definam as linhas orientadoras da, julgo eu, possível sustentabilidade. Nos últimos anos têm sido registados sucessivos e trágicos eventos na Madeira os quais, certamente, têm como causas primeiras a ausência de compreensão da Natureza. O sentimento que tenho é que ela está a ajustar-se às agressões de que tem sido vítima. Sejam humildes, porque o  exercício da decisão política não pode ficar pela banalidade do "eu acho que...". 
Ilustração: Google Imagens.

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