sexta-feira, 5 de agosto de 2016

UMA ESCOLA COM 2.400 ALUNOS NÃO É UMA ESCOLA


Ontem cruzei-me com um distinto Colega, o João, com quem, demoradamente, conversei sobre a Educação e o Sistema Educativo. Ali ficámos no meio de um largo corredor de uma enorme superfície comercial. Identifico-me, totalmente, com a sua visão do sistema. O sentido da mudança que obriga a repensar o caminho, essa predisposição para colocar tudo em causa através de múltiplas interrogações, com o desejo de partir, trilhando, aliás, caminhos já conhecidos e experimentados, concluímos, estar muito distante. Falta sabedoria e, sobretudo, coragem. A manutenção das rotinas, mesmo que os resultados os angustie, parece-lhes ser muito mais confortável que a ruptura. De regresso, fiquei a pensar na nossa inesperada mas saborosa conversa. Porque a Educação foi, para mim, e ainda para ele é, uma paixão que ultrapassa o domínio profissional.  


Ora bem, um estabelecimento de ensino com 2.400 alunos não é uma escola, talvez seja um supermercado que vende disciplinas. Um corrupio de entra e sai, de sala para sala, de corredor em corredor, tal como em uma qualquer superfície comercial onde passamos e vamos retirando produtos para o carrinho. Um estabelecimento de ensino não deve ser comparável a uma empresa que tenta satisfazer os clientes. Tampouco deve funcionar em uma perspectiva de escala, isto é, um estabelecimento de 2.400 alunos sai mais barato que dispor de quatro escolas de seiscentos alunos. O barato sai muito caro. Tem saído muito caro. Uma escola que "vende" disciplinas com o prazo de validade de um ano, obviamente, que não cumpre o seu desígnio de vida, aprendizagem, vivência e convivência. Se, na superfície comercial poucos se conhecem, cada um vai à sua vida, desejando, rapidamente, passar pela caixa, a escola, pelo contrário, deve constituir um lugar de permanente desejo, de comunicação e pensamento crítico. Quando ele não existe, não é escola. Não entender isto, não perceber que esse desejo de "aprender, desaprender e voltar a aprender" implica um sistema organizacional diferente e adequado ao mundo que tais "clientes" vivem, conduz ao sentimento de vazio por parte de toda a comunidade que configura a escola. Confrontamo-nos, assim, genericamente, com professores que resolvem o seu problema, cumprindo os programas e toda a parafernália burocrática, mais ainda, conforme as turmas que lhes caem em sorte, satisfeitos com os "vintes" atingidos ou com o desastre dos "chumbos" que necessitam de uma burocrática explicação; e alunos mais receptores que actores do conhecimento, que repetem o manual sem interrogações básicas: para que serve isto? Que ligação é que isto tem com a complexidade da vida? Qual a relação de umas "disciplinas" com as outras?
Tenho o maior respeito por quem dirige uma escola sobredimensionada e nutro consideração por todos quantos desempenham a sua função docente. Eles são o elo mais fraco, embora deles dependa o desejo e pressão no sentido da mudança. O mesmo não digo relativamente a um governo que permite uma situação destas, um governo que prefere colocar antes do conhecimento os aspectos economicistas. Como se a escola fosse uma empresa, como se o grande fosse belo e onde os alunos são meros "clientes" de um supermercado de disciplinas. Cada uma delas sem contra-indicações e com um extenso descritivo de teóricas aplicações. Teóricas aplicações, repito. Isto, quando até as grandes empresas comerciais se subdividem em unidades funcionais, embora pertencentes ao mesmo grupo. Será difícil compreender isto, senhor presidente do governo regional da Madeira? E se não é difícil, por que permite?
Amigo João, está quase tudo por fazer. E ainda te faltam tantos anos para saíres da enervante rotina. Como te disse na despedida, tens pela frente uma "pena máxima". Tiveste, agora, porque é Verão, uma "licença precária". Também passei por elas... Um abraço, João. Foi muito bom termos desabafado.
Ilustração: Google Imagens.

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