sexta-feira, 30 de setembro de 2016

KRISTALINA GEORGIEVA - TUDO MENOS CRISTALINA!


Estamos a viver dias muito conturbados, pela descredibilização política, pelos escândalos financeiros, pela arquitectura da mentira, pelo exercício da política que, diariamente, se estende, qual passadeira vermelha, para que os poderes económico e financeiro imponham as suas regras, pelas atitudes sem vergonha, às escâncaras, de políticos sem princípios e valores morais e éticos. Tudo ou quase tudo cheira mal. A todos os níveis generalizou-se a cultura da demissão, da subserviência, do medo, mas também do favor, dos interesses e da subtil manobra dos mais fortes sobre os mais fracos. É um mundo às avessas. Nem na ONU encontramos um referencial de independência e de credibilidade. O que se está a passar na candidatura a Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas é absolutamente paradigmático. Kristalina Georgieva faltou a todas as votações informais, o que significa que fugiu a todos os debates com António Guterres, porém, pelo apoio que recebe da Alemanha, concretamente de Angela Merkel, aí está ela como candidata. 


O que está em causa é simples: primeiro, que razões sustentam o facto de, agora, ter de ser uma mulher? Areia para os olhos. Então os lugares não devem ser ocupados pela competência e em igualdade de circunstâncias? Trata-se, do meu ponto de vista, de um factor ridículo apenas para mascarar outros interesses; segundo, que interesses, pergunto? Os da direita política que não suportam que o Engenheiro António Guterres, socialista, oriundo de um pequeno país, ascenda ao mais representativo lugar da ONU. É, por isso, que os bastidores se movimentam. Antes da competência, absolutamente demonstrada em cinco votações informais do Conselho de Segurança, estão os múltiplos e radiculares interesses da teia. No meio disto surge, para consumo interno, a hipocrisia de Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, que destacou o "empenho demonstrado" por António Guterres num processo que já dura há alguns meses dizendo acreditar que "qualquer manobra" não possa alterar o essencial do processo. Pois, como se eu acreditasse na bondade das suas declarações! No próprio PSD, Mário David que "está ligado aos países do leste europeu, há anos, como assessor de Durão Barroso na Comissão Europeia e como eurodeputado do PSD - integrado no Partido Popular Europeu", há muito que pressiona o governo da Bulgária para propor Kristalina Georgieva, situação que ainda anteontem se confirmou. Um português contra a eleição de um português. Por interesses pessoais, como lebre política de outros? Não sei.

Não é que o seu posicionamento relativamente ao apoio não seja possível e defensável, mas diz muito dos comportamentos políticos e do que se esconde para além do palco. O embaixador Seixas da Costa, tem razão quando diz que "não há qualquer obrigação patriótica" de apoiar Guterres, mas que é estranho que "a figura central da acção externa do PSD no quadro do PPE, esteja a ser o principal instrumento da candidatura" de Georgieva. Por ser alguém que "teve responsabilidades institucionais no partido de que faz parte, isso mereceria uma tomada de posição do PSD", acrescentou. 
Correcta foi a posição do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa: "(...) Por princípio, Portugal respeita e saúda todas as candidaturas. No entanto, eu senti um pouco aquela sensação, tive aquela sensação de estar a ser corrida uma maratona e de repente aparecer um concorrente que entra nos últimos 100 metros para tentar ganhar a maratona". É isso mesmo. O que diz bem deste mundo político de crescente hipocrisia e ausência de vergonha. Estou convencido, embora se me afigure difícil, que Guterres poderá ganhar Kristalina Georgieva. Se Kristalina perder, dizem, que ela já tem um lugar à sua espera, o de Presidente do Banco Mundial. Esta direita política nunca "bate prego sem estopa".
Ilustração: Google Imagens.

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