sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O COMPORTAMENTO POLÍTICO ESQUIZOFRÉNICO DO FMI


Umas vezes, de mansinho, vêm dizer que a austeridade foi longe demais. Em outros momentos, mostram os dentes e afiam a língua para criar o ambiente necessário à inevitabilidade da austeridade. Perceber este comportamento político esquizofrénico não é fácil, quando um recente estudo prova a completa falência das opções propostas pela famigerada troika. Mas eles insistem, combinados, à vez, ora o FMI, ora a Comissão Europeia, ora aqueles que, dentro do País, olham para os portugueses como se fossem uma folha de Exel. Eles secundarizam tudo, a opinião dos economistas laureados com o Prémio Nobel, eles fazem o encantador discurso da solidariedade, mas marimbam-se em tudo o que cheira a pobreza, eles prometem um amanhã de felicidade, porém, na prática, o que se constata é que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Não é paleio, apenas os dados da estatística. Cada vez melhor me soa "Os Vampiros" de Zéca Afonso. Um tema intemporal. 


Christine Lagarde (FMI), sistematicamente, diz e contradiz. Tem dias. É uma Senhora conforme, conforme as pressões, os mercados, os interesses económicos e financeiros, toda essa gentinha para quem a multiplicação do dinheiro especulativo constitui objectivo primeiro da vida. Tem dias que lhe rebate a consciência. Mas depressa lhe passa. A verdade é que à custa dos mais vulneráveis e da sua exploração, falam por eles ao mesmo tempo que escondem as riquezas no Panamá e em tantos outros sítios congeneres. Ontem, a Senhora, agarrada a um relatório(!), veio, uma vez mais, puxar as orelhas ao governo português, ao insistir na necessidade de "mais medidas adicionais", leia-se medidas de austeridade, para cumprir o défice. Escrevo estas palavras ao mesmo tempo que vou cantarolando Zéca:
(...)
"A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas
São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei
(...)
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada.
(...)
Para ela e outros não há vida para além do défice. Há que restringir as despesas. Na Educação, na Saúde e nos direitos sociais já de si mínimos. Há que cortar, maldosa e fanaticamente, nos subsídios que disfarçam a pobreza. Há que continuar a política do trabalho sem regras, o despedimento facilitado, o trabalho precário, os "bancos de horas" e a enorme carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, em geral (Portugal foi o país da OCDE que mais aumentou a carga fiscal para os trabalhadores com baixos rendimentos em 2015 - Passos Coelho), e, em particular, sobre a praga dos recibos verdes. Há que privilegiar a banca, pondo o povo a pagar as leviandades, como se a esmagadora maioria desse povo fosse culpada pelo desastre gestionário. Há que assobiar para o lado, aquando de situações reprováveis como o daquela ex-comissária europeia Neelie Kroes, soube-se agora, que terá administrado uma empresa sediada numa "offshore", nas Bahamas, entre 2000 e 2009, em violação do código de conduta do executivo comunitário. A falta de vergonha e de honestidade passam ao lado, mas uma ou duas décimas no défice é logo motivo de alertas, de perseguições e de ameaças de corte nos fundos a transferir. Uma coisa é o dever de sermos rigorosos e irrepreensíveis administradores da coisa pública; outra é esta constante pressão que traz no seu bojo o roubo a quem pouco tem. Oh país martirizado e ofendido por aqueles que servem os grandes interesses! Acordemos!
Ilustração: Google Imagens.

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