quarta-feira, 14 de setembro de 2016

PROFESSORES, "UMA CLASSE LIDERANTE" EM QUÊ?


Escolheram uma escola, encheram uma sala, disseram umas coisas e assim cumpriram o número político de "abertura do ano escolar". Uma pobreza ao nível da pobreza da governação. Mesmo em um quadro de algum simbolismo, a tal "abertura" deveria ser operacionalizada de uma forma consistente, onde o conteúdo das palavras, traduzindo conceitos, não ficassem pelas generalidades e até pelas banalidades. Lamentavelmente, o que li foi mais do mesmo, foi um subir e descer do pano em um palco que cheira a mofo. Poderiam, o presidente e secretário regional, ter trazido o novo, os traços de um novo paradigma adequado ao século que estamos a viver, mas não, preferiram ficar nos séculos XIX e XX, com um paleio exaurido, porque descontextualizado, sem rumo, sem chama e sem esperança. 


Teve "piada" aquela passagem discursiva do presidente do governo regional: "(...) A classe docente nesta terra, como neste país, deve ser e é uma classe liderante em termos de opinião pública e em termos de nortear a população pelo exemplo e pelos juízos de valor que emitem". Disse: liderante? Em quê? Os professores não são liderantes em rigorosamente nada. No quadro do sistema educativo vigente nem na sala de aula o são. Apenas cumprem, religiosamente, o que a hierarquia interna e externa lhes impõe, quer no plano organizacional, curricular e programático. Hoje, aliás, nem é preciso recordar-lhes, porque está tudo definido, existindo uma "regra" não escrita mas interiorizada pela prática, em que todos sabem como cumprir os caminhos da sobrevivência profissional, onde se inclui a avaliação de desempenho. Desde logo, pelo inexplicável sistema burocrático, que apenas passou do papel para o computador, pelas reuniões de conselho pedagógico, de departamento e de grupo, onde tudo é definido até ao pormenor da "leccionação". Seria "liderante" se os professores fizessem uma frente a este estado macambúzio que apenas repete o passado. Os professores encontram-se enredados na teia intencionalmente criada. Oh Senhor Presidente, como é que pode uma classe ser "liderante" se os últimos estudos provam que 91% dos professores "considera que nos últimos anos diminuiu o prestígio da sua atividade e 85% entende que os políticos não valorizam o trabalho que fazem; quando "32,3% dos docentes define a sua relação com o exercício profissional como "exausta" e "desiludida" (30% dos docentes estão em Burnout, ou seja, exaustos emocionalmente e sem qualquer sentimento de realização profissional), quando 84% dos professores assume que a sociedade não valoriza o trabalho que fazem"; quando, em um universo de 2.910 respostas consideradas válidas, 76% dos inquiridos considera que aumentou o controlo sobre o seu trabalho e 80% diz que perdeu, nos últimos anos, autonomia e poder de decisão"; quando "87% afirma que diminuíram o tempo e as condições que os professores têm para reflectir sobre as suas práticas educativas". Como ser "liderante" neste caos?
São percentagens preocupantes que reflectem uma abissal diferença entre o discurso político circunstancial e a realidade. Nem uma palavra os jornalistas aproveitaram, quer do presidente quer do secretário, sobre a sociedade, sobre o desemprego e a pobreza que se escondem a montante e que na escola pública desaguam; nem uma palavra sobre as múltiplas fomes que por aí andam; nem uma palavra sobre a ausência de financiamento consistente aos projectos educativos; nem uma palavra sobre a privatização do sistema educativo (25 milhões de  euros só este ano) e nem uma palavra sobre a necessária mudança estrutural que o sistema há muito necessita. Nem uma palavra! Por incapacidade, pergunto, mas quem sou eu para julgar! Circunscrevo-me aos factos: um novo ano com melodia e versos sempre iguais para uma vida que é sempre diferente. Voltarei ao assunto. 
Ilustração: Google Imagens.

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