terça-feira, 11 de outubro de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA NOS 140 ANOS DO DIÁRIO


O DIÁRIO faz hoje 140 anos. Parabéns. De forma muito interessante pediu a muitos observadores que prognosticassem a nossa vida colectiva daqui por dez anos. Com o Jornalista Jorge de Sousa tive um diálogo muito interessante sobre política educativa, cujo essencial foi publicado no endereço que deixo no final. Entretanto, deixo aqui a síntese do meu pensamento:


O DIÁRIO ADAPTOU-SE
A ESCOLA CONTINUA OBSOLETA

"Limito-me ao Ensino Básico porque aí reside o alicerce. Abeirei-me de uma criança de dez anos: então, que tal foi a escola? Igual aos outros dias, foi a resposta. Tive uma aula de hora e meia e nem um minuto pudemos falar. Pois, respondi, os professores têm de cumprir o programa, não é? Apesar da sua idade aproveitei para ajudá-lo a descodificar o que Georges Gusdorf (1912/2000) escreveu no plano dialógico professor-aluno: “o mais alto ensinamento do mestre não está no que diz, mas no que não diz”. Ora, pede-me o DIÁRIO para prognosticar a Educação a dez anos. Respondo, em aproximação àquela criança: o DIÁRIO foi fundado em 1876, adaptou-se aos novos tempos e continua a despertar a curiosidade diária, enquanto a escola, por sua banda, mantem o mesmo pensamento estrutural anterior à fundação do DIÁRIO, apresentando-se obsoleta, desconectada com a vida, com o presente e com o futuro, pelo que não desperta curiosidade. Consequências: insucesso, abandono, desmotivação e, na linguagem jovem, para milhares, “uma seca”. O sistema educativo bem tenta pintar de fresco o velho, mas mostra-se incapaz de mudar o modelo construído na decorrência da Sociedade Industrial. O que esperar de um sistema que repete o passado? Apenas a manutenção do erro, nunca o despertar de novas emoções. O que esperar de políticos que não estudam, demonstram falta de coragem e que ignoram, como sublinhou um aluno de 9º ano, que a escola só lhe dá 40% e que os outros 60% aprende fora da escola? Que esperar de um sistema que não se compagina com a oferta educativa fora da escola de natureza opcional e informal? Que esperar de um sistema que limita o questionamento e a descoberta, antes prefere o adestramento, o cumprimento do manual, o teste e o exame? Que esperar de um sistema que prefere verticalizar, burocratizar, padronizar e centralizar, ao invés de atribuir prioridade ao poder criativo e inovador? Sintetiza o investigador Joaquim Azevedo: "A escola mudou pouco, os adolescentes mudaram muito". O que significa que a escola que deveria adaptar-se e ser motor da sociedade, acabou por ser ultrapassada, anda a reboque, porque o sistema organizacional está apostado em olhar para ontem e não para o futuro, porque se tornou mais fácil a opção por currículos repetitivos e que, em muitos casos, são uma manta de retalhos, onde acrescem programas desarticulados e cheios de tralha. O próprio secretário de Estado dizia, há dias, que em alguns casos, os programas reflectem, hoje, um efeito de soma de conhecimentos acrescentados e não o essencial e despertador da curiosidade, em outros, como é o caso do programa de música, pasme-se, que ainda sugere a utilização do gira-discos e da cassete!
Daqui por dez anos? Dificilmente ocorrerão mudanças significativas. Só entregando a política educativa ao saber e ao conhecimento, a quem politize a Educação e não a partidarize. Uma pobre educação é sempre geradora de uma pobre democracia. E isso tem interessado no plano partidário. Ademais, a solução não está nos pensos rápidos em feridas profundas que transportam “infecções” de variadíssima ordem. É o caso das designadas “turmas +” e de outras iniciativas para consumo imediato. A "sepsis" educativa levará anos a ser “curada”, mesmo várias legislaturas, porque são muitas e complexas as variáveis: a política orçamental, cuja percentagem do PIB deve aumentar substancialmente; a escola como instituição de cultura sentida e vivida; as substanciais alterações na concepção da rede escolar, eliminando o perverso e economicista sentido de escala com custos a prazo; a vivência democrática dentro da escola e de cidadania para a vida; a formação e actualização geral, contínua e especializada de todos os professores para uma nova política educativa; a responsabilização pública, porque constitucional, em detrimento da opção privada e pelo “mercado da educação”; a interpretação da Educação como instrumento de progresso económico e social e não de legitimação de novas formas de divisão social; o rompimento com o pensamento dominante fazendo acreditar que outro terá de ser o paradigma pedagógico, que acabe com a exclusão e abra portas à verdadeira inclusão, com rigor, qualidade e dignidade; que não é aos vinte, trinta anos que se pede para ser empreendedor, quando levámos os anos anteriores a bloquear a criatividade; que somos o animal que mais tempo tem de infância e que é um absurdo subordinar a criança ao rigor de 30 a 50 horas de ocupação escolar, quando brincar constitui uma actividade fundamental e séria; a capacidade de perceber que o direito da criança a questionar, participar e descobrir tem muito mais valor e futuro que a obsessão pelo teste e pelo exame; que o estudo através de “fenómenos complexos”, problematizando-os de forma integrada, incomparavelmente, suplanta a segmentação por disciplinas desarticuladas entre si; que o tradicional conceito de turma e de aula é um grosseiro erro na formação básica (com aula ninguém aprende, diz-nos o Professor José Pacheco, o que equivale dizer que “quem pode cria, quem não pode ensina” – Bernard Shaw - 1856); que é preciso um investimento prioritário e específico nas necessidades educativas especiais; o combate à pobreza, à estrutura da sociedade a montante da escola, dando enfase à família e às políticas de emprego, enfim, tudo isto leva anos. Um exemplo, o Professor Sérgio Niza anda há 50 anos a defender a “Escola Moderna”, um dia dar-lhe-ão razão. A ele e a tantos outros pedagogos e investigadores. 
No actual quadro não é possível mudar o sistema de um ano para outro. Dez anos é curto, mas há o dever de caminhar. Lamento, mas o sistema educativo tem servido de passerelle para políticos impreparados e sem visão de futuro. Precisamos de estudá-lo a fim de determinar o caminho a seguir de forma necessariamente integrada. A transformação tem de ser graduada no tempo. Mudar, implica perceber as razões do aborrecimento e da falta de ligação na aprendizagem, o próprio esgotamento dos professores (30% estão em estado de Burnout), para que a escola não seja uma obrigação, mas um lugar chamativo, que apaixone, provoque emoções e liberdade a talentos tão desiguais. Tudo pode ser aprendido, porém, de forma diferente. Estamos muito longe desse patamar, até porque se a sociedade não está bem a escola não pode estar melhor. Mudar, precisa de coragem política, necessita, no caso da Madeira, de uma disponibilidade de todos e de uma fortíssima ligação à Universidade da Madeira, particularmente ao Departamento de Ciências da Educação, porque é lá que está a investigação e o saber. É ininteligível que o poder político ignore a investigação que lá produzem e prefira a “domesticação obscurantista” na expressão do Filósofo Fernando Savater. É dever de quem governa ter presente o pensamento de Carl Rogers (1902/1987): “ensinar é mais que transmitir conhecimento – é despertar a curiosidade, é instigar o desejo de ir além do conhecido. É desafiar a pessoa a confiar em si mesma e dar um novo passo em busca de mais. É educar para a vida e para novos relacionamentos”. O problema é saber quem é capaz de aceitar este desafio".
NOTA

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