segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SÓ AGORA, RICARDO?


O Dr. João Pedro Vieira foi meu aluno, hoje, um jovem médico. Tenho por ele uma enorme amizade, apesar de há muito não falarmos pessoalmente. Foi das pessoas que por mim passaram que, assiduamente, me recordo. Um aluno fantástico e, sobretudo, portador de uma relação com os outros que deixa marca. Talvez por isso mesmo sigo os seus artigos com interesse. Ontem, na edição do DN-Madeira, publicou o texto que aqui deixo. Publico-o, não na perspectiva, de resto saudável, do diálogo com o director do DN, mas pela aguçada leitura política das circunstâncias que evidencia. O João Pedro não é de criar situações desagradáveis com os outros, de ser menos polido, é sobretudo um cidadão com opinião e tem uma coisa que o distingue de muitos: é frontal sem ser ofensivo. 



"Em Fevereiro de 2015, nas vésperas das eleições regionais que fizeram de Miguel Albuquerque Presidente do Governo Regional, numa das conferências de um ciclo organizado pelo DIÁRIO em Lisboa dedicado ao momento político vivido, iniciei uma discussão com o Ricardo Miguel Oliveira sobre a relação entre a imprensa regional e o poder político madeirense que acabou por valer-me a presença neste espaço e a que volto de tempos a tempos. Há exatamente uma semana, o Ricardo assinou uma peça em que denunciou a tentativa de condicionamento do PSD Madeira ao DIÁRIO e assinalou o fim da Renovação. Ora, a pergunta que, respeitosamente, dirijo hoje ao Ricardo é simples: só agora?
A Renovação não acabou; a Renovação nunca existiu. O PSD Madeira e Miguel Albuquerque, por mais que tantos tenham tentado convencer-nos do contrário, são os mesmos de sempre. Miguel Albuquerque é o mesmo que durante 40 anos conviveu muito bem com Alberto João Jardim; é o mesmo que durante 20 governou a Câmara Municipal do Funchal de acordo com a mesma escola, nomeadamente na relação com a oposição e com as contas públicas; e que durante os últimos 2 tem feito tudo - incluindo viajar muito, como também ensinou Alberto João Jardim -, menos cumprir as promessas com que venceu eleições. Miguel Albuquerque é o mesmo que foi líder de claque de Alberto João Jardim na JSD primeiro e seu adjunto no PSD e na Fundação depois. Estavam mesmo à espera de diferente?!
O grupo parlamentar do PSD Madeira, liderado por Jaime Ramos Filho, é exatamente igual ao que durante anos foi liderado por Jaime Ramos Pai - e basta ver e ouvir a patética figura de Carlos Rodrigues a falar sobre democracia na Assembleia Regional para perceber isso mesmo; o PSD Madeira de Rui Abreu é exatamente igual na forma, no estilo e nos métodos ao do agora empresário Jaime Ramos; e a JSD Madeira de André Alves é a mesma de Rómulo Coelho, José Pedro Pereira e daqueles que os antecederam.
O que o Ricardo escreveu a semana passada, Paulo Cafôfo e a Câmara Municipal do Funchal denunciam há meses: desde que chegou ao poder, Albuquerque não fez diferente de Alberto João na ostracização a quem se opõe – e desde sexta-feira passou a incluir o Grupo Parlamentar nessa disputa. O que o Ricardo sentiu a semana passada, Emanuel Câmara e todo o Porto Moniz sentem todos os dias: o que é ter o PSD de Francisco Nunes a dizer uma coisa hoje e a fazer outra amanhã, quando ajuda a encerrar Urgências, vota contra a EMIR na Costa Norte, contra manuais escolares gratuitos para as crianças e diz que os apoios aos idosos promovidos em conjunto com Associações não são mais do que despesismo. O que o Ricardo revelou a semana passada, a cidadania madeirense de Danilo Matos, Raimundo Quintal e tantos outros, gritou durante semanas, opondo-se a atentados como as obras levadas a cabo nas ribeiras do Funchal. O que o Ricardo expôs a semana passada, muitos madeirenses sabem desde sempre: a Renovação prometeu tudo, não cumpriu nada e continua a acusar os mesmos de sempre - e basta ver o que se passa, outra vez, com as viagens dos estudantes no Natal para perceber que Eduardo Jesus não é, também ele, diferente de Ventura Garcês.
Já dizia Lincoln e bem que é possível enganar todos por algum tempo e alguns por todo o tempo, mas não é possível enganar todos todo o tempo. O Ricardo descobriu a semana passada o que tantos souberam todo o tempo - e ainda bem que assim foi, porque estou convencido de que se isso contribuir para deixarmos de ler meia dúzia de páginas sobre o que se passa no Chão da Lagoa todos os anos, é meio caminho andado para nos vermos livres de quem tanto procura reconstruir o seu passado. Outubro é já amanhã."
Ilustração: Google Imagens.

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