terça-feira, 20 de dezembro de 2016

SÓ EM DITADURA TODOS OS ANOS SÃO DIFÍCEIS


Nota prévia: é meu entendimento que não se justifica o cargo de Representante da República na Região Autónoma. É, cada vez mais, de um simbolismo bacoco que nem na esfera da fiscalização legislativa se justifica. Aliás, se essa é a explicação, há muito que a alternativa está estudada. Portanto, o que aqui deixo escrito nada tem a ver com o cargo, mas com as declarações ontem produzidas. O Senhor Representante deveria poupar-nos a ler certas posições ou preocupações políticas. Enquanto cidadão, pode escrever ou dizer o que pensa, porém, na função que assumiu, deveria ser muito mais discreto.


Ontem, após um encontro, disparou: "(...) Os meus votos para 2017 são que, sem prejuízo da luta interpartidária, que é regra da boa democracia, não se perca os valores superiores da região, que devem primar em relação aos interesses partidários" (...) "Em 2017 temos as eleições autárquicas e um ano de eleições é sempre um ano mais difícil" (...). 
Vamos a isto. Um ano de eleições é um ano difícil? Que razões, no plano político, o levam a dizer o que sublinhou? Para o Representante, existe uma boa e uma má democracia? E quais são os "valores superiores da Região"? A manutenção de um poder que, injustificadamente, conduziu a Região ao descalabro financeiro, a um processo judicial por facturação não reportada, autarquias em "falência" financeira, ao aumento da pobreza e a uma situação muito complexa no desemprego? São estes os valores superiores da Região? São interesses da Região, o silêncio, o come e cala-te, uma maioria política que continua a confundir maioria absoluta com poder absoluto, que desrespeita as oposições e que chumba, por atacado, dezenas de importantes propostas, nem as querendo discutir? São estes os interesses superiores da Região? E que história é essa dos "interesses partidários"? Será que os partidos, excluindo o do poder, terão de se manter como decorativos da Democracia?
Não há anos difíceis quando o povo é chamado às urnas. A Democracia exige participação de todos, a denúncia clara do que mal vai, a proposta séria, honesta e exequível, custe o que custar aos ouvidos do poder. Que tem de haver respeito entre todos, obviamente que sim, mas a luta acesa de mobilização e denúncia é incompatível com a ideia de "ano difícil". Difícil, para quem, questiono. Ao contrário do que o Representante sublinhou, nós não "somos já uma democracia adulta e uma autonomia adulta". Não somos. A Autonomia é uma miragem, pois estamos a léguas do que deveria ser, por megalomanias concretizadas ao longo de 40 anos, somos pobres, dependentes e assimétricos. Por múltiplas e substantivas razões, ter órgãos de governo próprio é quase um faz-de-conta. Raramente a Assembleia é legislativa, mas adaptativa(!) dos diplomas. Por outro lado, uma Democracia adulta não espezinha e não controla as mentes. Existem muitos exemplos negativos no bas-fond da política regional e que não chegam, lamentavelmente, ao conhecimento de toda a população. Por isto e muito mais, que venham as eleições autárquicas, que os partidos lutem pelos seus projectos e que o povo decida. Simplesmente, porque não existem anos difíceis quando há eleições. Nas ditaduras, sim, todos os anos são difíceis.
Ilustração: Google Imagens.

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