terça-feira, 31 de janeiro de 2017

EM 2017, DOIS CENTENÁRIOS "MUTUAMENTE EXPLOSIVOS"?

Um texto do Padre Martins Júnior, publicado no passado Domingo, no seu blogue Senso&Consenso
Porque hoje é Domingo…
E por sê-lo, o corpo repousa e a mente voa. Livre como um pássaro e desarvorado como o vento, o espírito chega até onde não nos permitem os dias comuns. Por isso não tem mapa de voo, nem sequer heliporto terminal. E aí é que surgem as surpresas mais estranhas, não pensadas, quase esotéricas, saltitando nos lagos imprevistos do pensamento-viajante de fim de semana. Umas vezes, com lampejos inspiradores, outras sem nexo aparente, mas sempre com um que nos interpela e nos persegue.
Foi o que me sucedeu precisamente. Imaginem para onde me levou hoje la folle de la maison (a louca da casa) como ironicamente definia Montaigne a nossa mente?... Fez-me atravessar dez décadas e deixou-me no pico alto do ano 1917. Abriu o livro de memórias e mostrou-me duas paisagens, dois retratos, dois hemisférios radicalmente opostos, qual deles mais contrastante que o outro. E ambos enraizados na encosta do mesmo mês: Outubro de 1917. Um deles, cercado de luz, uma “Senhora mais brilhante que o sol”, uma azinheira rústica, repousante. O outro, um estouro retumbante, um murro no trono, uma foice e um martelo, uma revolução. “Malhas que o Império tece”…
Já notastes, decerto, que me refiro a dois acontecimentos, plantados ao mesmo tempo, mas de crescimento e frutificação tão diversos! Ocorria o mês de Outubro de 1917. Na Rússia, consumava-se a revolução bolchevique, inspirada no marxismo-leninismo. Em Portugal, na Cova da Iria, dava-se o “milagre do sol”, consumando-se as aparições da Virgem, que passou a chamar-se “de Fátima”.
Este foi o texto linear que a mente, la folle de la maison, me deu a ler no voo sem rumo deste Domingo. Declaro desde já que hoje não tenciono perorar, nem sequer filosofar, sobre tão escaldante dialéctica. Garanto-me, porém, a mim próprio, que farei o maior esforço de hermenêutica para decifrar o enigma da concomitância destes dois pilares históricos que marcaram um século da história e mexeram com as estruturas pensamentais, económicas, culturais e sociais do mundo todo, a partir do continente europeu. É da mais elementar filosofia o conhecido axioma de que “os extremos tocam-se”. Monitorizar as linhas de intersecção onde os dois casos se tocam e se repelem – eis uma tese que se impõe a todo aquele que procura a sabedoria, mesmo que não se assuma como analista arguto dos fenómenos histórico-sociais. Em que medida Rússia e Fátima serviram mutuamente de arma agressora ou de alavanca colaboracionista no seu desenvolvimento, ao longo de cem anos? 
É curioso notar o afã com que os promotores ou propagandistas de um e outro factos se esmeram em programar a secular efeméride, cujo depósito têm à sua guarda. “Pela aragem, conhecer-se-á quem vai na carruagem”, significando este aforismo, no caso vertente, que pelos cerimoniais, pelos discursos, pela opulência (ou não) dos protocolos, será possível detectar aspectos fundamentais que, das duas mensagens, só virtualmente visualizamos. Pela minha parte, guardo na reminiscência da infância, desde os bancos do seminário até aos inflamados sermões das igrejas, a palavra de ordem vigente de que “Nossa Senhora de Fátima veio a Portugal para acabar com a Rússia e que, por isso, era preciso rezar muito”. Desde então, pairou-se-me no subconsciente a ideia de que os dois casos estão ligados um ao outro.
Estas e outras incógnitas, cujos contornos se ramificam superabundantemente, farão parte dos meus projectos, não apenas nos voos de Domingo mas na serena e porfiada análise de cada dia. Seria bom ter alguém por companhia neste exigente percurso.
29.Jan.17
Martins Júnior

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