quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

GATO POR COELHO


A concertação social não é uma central de interesses partidários. É um instrumento respeitado, útil e indispensável para a construção de políticas compatíveis com o interesse social.


Espernear e esbracejar costuma ser a melhor forma das crianças darem nas vistas, fazerem-se notar, na busca de conforto, carinho ou ajuda. Há por isso nesta dialéctica do PSD algo de pueril: fazer prova de vida parece ser o alfa e o ómega de tanta agitação.
Não vale, por isso, muito a pena discutir a essência da contradição de Passos: defendeu uma política de competitividade das empresas, assente no empobrecimento, através do corte de rendimentos do trabalho, e na redução da TSU. Foi sempre assim, tendo gerado, mesmo, alguns sobressaltos governativos. Este é o caminho preferido da direita, mesmo que pareça, agora, que dá o dito por não dito! É verdade que já nos habituámos às contradições do PSD, conforme lhes dá jeito, mas o caso em análise tem contornos mais delicados. Depois do diabo não ter aparecido, Passos decidiu encarnar o belzebu, cruzando os dedos para que essa entrada pudesse contrariar o que julgo ser, no pensamento passista, a estabilidade irritante da geringonça e, obviamente, do país.
Mas parece que teria sido melhor continuar à espera do diabo, porque o tiro pode sair pela culatra. Afrontar o diálogo social e colocar em causa o esforço de trabalhadores e patrões em torno da política de salário mínimo, e dos mecanismos de competitividade empresarial, não ataca a geringonça, é antes um haraquíri do líder do PSD. Afronta o seu eleitorado mais fiel e não fará com que o centro esquerda caia nos seus braços. A concertação social não é uma central de interesses partidários. É um instrumento respeitado, útil e indispensável para a construção de políticas compatíveis com o interesse social, onde sindicatos e associações patronais procuram pontos de equilíbrio, ajudando a promover a estabilidade do país e o crescimento económico.
Compreendemos melhor, agora, a gritaria do PSD sobre a decisão do Governo em aumentar o salário mínimo, mesmo que falhasse o acordo com trabalhadores e patrões. A estratégia era a mesma, mas com alvos diferentes: apostar no falhanço do diálogo social e puxar pela instabilidade por essa via. Nunca se importaram verdadeiramente com a obtenção de qualquer acordo. Sempre desejaram que as negociações falhassem e isso nada tinha que ver com o salário mínimo ou com a TSU. Era apenas oportunismo partidário puro e duro: seria o motivo que procuravam para agitarem a bandeira da instabilidade e das decisões contrárias à concertação social. O diabo, os reis magos, as agências de notação, a Comissão Europeia, a OCDE e a TSU fazem todos parte da mesma narrativa: de que este Governo, e este acordo parlamentar, provocam instabilidade e desconfiança.
Nunca como agora a estratégia foi tão obtusa. Há uma parte da concertação social que observa este comportamento de Passos como fogo amigo e, não tenho dúvidas, essa parte que participou genuinamente no diálogo social e que contribuiu para uma solução win-win, compreende melhor aqueles que sempre recusaram a redução da TSU, por princípio, do que os que a recusam, por oportunismo.

NOTA
Artigo de Carlos J. Pereira, Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PS e Presidente do PS-Madeira - 20 Jan 2017/Jornal Económico.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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