terça-feira, 17 de janeiro de 2017

PERDI UM VERDADEIRO AMIGO


Um Amigo que me considerava irmão. O Franklim Lopes tinha 91 anos. Aprendi muito com ele. Não precisou de uma qualquer licenciatura, mestrado ou doutoramento. Ele fez o seu próprio doutoramento na vida com a imensidão de livros que leu, as revistas e os jornais de referência que assinou, da música ao cinema passando pelo teatro, das letras a todo o movimento político. Era um Homem de princípios, de valores e culto em múltiplas áreas do conhecimento. Viajámos muito, percorrendo de catedrais a museus, da arquitectura das grandes cidades aos olhares sobre preservação dos locais mais recônditos, da História às pessoas. Estou a vê-lo e a senti-lo em um profundo abraço, com as lágrimas nos olhos, tão sensível que era, à saída da pequena mas intimista Basílica do Sangue Sagrado de Bruges, da Galeria degli Uffizi, em Florença, da Capela Sistina, em Roma, da Catedral de Ulm, na Alemanha, frente à Guernica, de Picasso, em Madrid, do Grito de Edvard Munch, em Oslo, ou dos trabalhos de Vicent Van Gogh, em Amesterdão, entre centenas de momentos de exaltação interior. 


Estou a vê-lo e a sentir a sua emoção no jazz ou de quando falava das suas profundas preocupações sociais. Nunca discutimos. Trocámos pontos de vista, sempre com elevada consideração recíproca. Tenho já saudades do seu humor, muitas vezes cáustico perante vozes que cantavam a ignorância, saudades da liberdade do seu pensamento estruturado, da sua capacidade para ver o outro lado das coisas e de antecipação do futuro, do cruzamento da informação e da leitura dos acontecimentos à escala mundial. Um dia, tem já muitos anos, quando ninguém falava de crise económica, em uma das nossas longas conversas, disse-me: “André, isto vai dar tragédia, quando, não sei, mas que vai dar, não tenho dúvidas”. E deu! Tenho já saudades das nossas viagens, do Homem que amava a vida e a sua família, do que vimos, observámos, comentámos e até rimos, do ir e regressar por tantas e desconhecidas estradas que ele aproveitava para falar e falar das inquietações que invadiam o seu mundo e o mundo dos seres humanos, saudades dos nossos hilariantes almoços de uma sandes e um sumo, em um recanto de jardim, por vezes à chuva, porque a ânsia de ver e desfrutar era maior. Tenho saudades dos encontros à Sexta-feira à noite, à volta de um frugal petisco com muita conversa de permeio. Mas a vida é assim. Está limitada no tempo. Estive com ele na antevéspera da sua morte. Apertou-me a mão e disse: “grande amigo, o Homem consegue fazer tudo, é espantoso, mas é tão frágil”. Morreu um grande Amigo. Exactamente há dois anos tinha sido a sua Mulher, a Lídia, que grande Amiga, companheira de viagem e que sofrimento foi a sua partida! E assim sendo, nada mais. Apenas um profundo e amigo abraço à Lena, às suas netas, Sofia e Carolina e ao João. Até sempre, Franklim. A memória, bem gravada, jamais se apagará enquanto por aqui nós andarmos.
NOTA
Imagem do 90ª aniversário.

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