domingo, 5 de fevereiro de 2017

JUSTIÇA: A DELAÇÃO PREMIADA


Na semana em que o Engº José Sócrates realizou uma conferência de imprensa sobre o longo processo judicial, Miguel Sousa Tavares escreveu, no Expresso, um artigo que coloca em causa a designada “delação premiada” e toda a investigação que até ao momento, segundo o jornalista, também jurista, nada conseguiu provar. Deixo aqui duas esclarecedoras passagens do artigo. Será que a montanha irá parir um rato? 


“(…) No caso do sr. Bataglia, homem de negócios à escala planetária, o facto de não poder sair de Angola sob pena de ser preso em qualquer outro país, era, de facto, uma espécie de prisão domiciliária territorial. Ele negociou isso com o dr. Rosário Teixeira: Entrou como foragido da justiça, suspeito de vários crimes que, confirmados, lhe dariam anos de prisão aqui, e saiu como homem livre. A mim parece-me evidente que o acordo que fez não foi simplesmente para vir prestar declarações, mas para vir dizer aos autos aquilo que o dr. Rosário Teixeira queria que ele dissesse. Este é o preço que se paga pela delação premiada: nunca se sabe se o delator disse a verdade verdadeira ou a verdade conveniente. (…) Temos então que o oportuníssimo dr. Bataglia veio dirigir para outros horizontes a investigação da “Operação Marquês” e, aparentemente, salvá-la à beira do fiasco. Já está em marcha a manobra junto da opinião pública destinada a fazer ver que o prazo terminal de 17 de Março para encerramento da instrução terá de ser prorrogado face “aos novos elementos” – tal qual no “Caso Freeport” que demorou seis anos de investigação, sem conclusões algumas. Pois bem, que percam a vergonha e prorroguem. Mas uma coisa há que ninguém pode tirar de cima do dr. Rosário Teixeira e do dr. Carlos Alexandre: afinal, depois dos “fortes indícios de corrupção” pelo Grupo Lena, das auto-estradas, da Parque Escolar, dos contratos com a Venezuela, de Vale do Lobo, do Grupo Octapharma, as verdadeiras suspeitas de corrupção de José Sócrates estavam no Grupo GES. Ou seja, andaram a investigar durante quatro anos e mantiveram-no preso durante dez meses à conta de falsas pistas e falsas suspeitas. E foi o muito recomendável sr. Bataglia quem, à 25ª hora, os fez ver a luz e os terá safado de nada terem para apresentar no dia 17 de Março! É brilhante. E assustador.”
Ilustração: Google Imagens.

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