sexta-feira, 31 de março de 2017

PERDE CREDIBILIDADE QUANDO UM GOVERNO CONJUGA O VERBO ESCONDER


Não é de agora, pois sempre se assistiu à tendência dos governos em negar as evidências. Nos últimos tempos, a ruptura de alguns medicamentos e de outros materiais têm constituído matéria de informação. São os utentes, os médicos, os enfermeiros, os que assinam "cartas do leitor" que o dizem, abertamente, que existem falhas, algumas, pelo que se lê, inadmissíveis. Enquanto cidadão, confronto-me com essas notícias e pelo volume dos reparos sou levado a acreditar em dois aspectos: primeiro, que as falhas existem; segundo, pela meritória acção dos profissionais de saúde, com toda a certeza que tudo é feito no sentido de salvar vidas. Se da segunda parte não me restam quaisquer dúvidas, exemplo disso são os casos de sucesso publicitado, entre tantos que passam anonimamente, a primeira deixa-me, eu não digo irritado, mas com um sentimento de mágoa política por não assumirem os seus próprios erros políticos. É a política de esconder o que já não pode ser ignorado.


Um governo de um partido que esconde mais de mil milhões de facturas (Processo Cuba Livre) é muito capaz de tentar esconder muitas outras situações menores. Há uma história e um comportamento que me leva à conclusão que a ordem é a da conjugação do verbo esconder. E o mais grave, tal como em outros momentos bem recentes, o poder volta a ameaçar com processo judicial quem dá conta pública das múltiplas situações que preocupam os cidadãos. Esse poder que tem meios para corrigir notícias, que tem direito ao contraditório, que pode e deve emendar o que entender necessário, não pode nem deve fazer ameaças e, tampouco, negar o que é admitido na Assembleia, o que dizem os utentes e os próprios profissionais de saúde. Há sistemáticas rupturas de stock, ponto final. Há mal-estar entre profissionais, é óbvio que sim. Mal-estar que agride quem se dedica e que tem de levar com as incompreensões. Ora, que tudo isto exige capacidade gestionária, obviamente que sim. Não é escondendo que se resolvem as instabilidades. A pergunta assalta-me: então, com quatro secretários da Saúde nos últimos três anos e vários Conselhos de Administração e Direcções Clínicas, afinal, onde está o fulcro dos problemas? Será nos profissionais de Saúde, nos jornalistas ou no exercício da política? 
Uma coisa é o rigor na gestão, porque o dinheiro é um recurso muito escasso, com aquisições feitas em função dos consumos médios, outra é, pontualmente, existirem necessidades não satisfeitas absolutamente superadas, julgo eu, através de entidades diversas, inclusive, privadas, outra, ainda, este para mim o ponto grave, é a tendência para a negação das evidências. 
Entretanto, dinheiro, como é público e notório, não tem faltado para tanto gasto não prioritário, quando o sector da Saúde constitui o bem mais precioso do ser humano. E o curioso e paradoxal é que o secretário das Finanças, ainda há dias, no plano político, veio vangloriar-se (!) das contas da Madeira terem sido fundamentais para o défice nacional de 2,1% (!), passando ao lado dos tempos que contaram com a sua co-responsabilidade, no défice nacional que atingiu valores preocupantes, exactamente pelas contas deficitárias da Região. Se outras tivessem sido as prioridades estabelecidas, a todos os níveis, estou certo, nem os madeirenses andariam a pagar a penosa factura geral, como as críticas ao SESARAM estariam praticamente reduzidas a zero.
Mas, enfim, como nota final, se há coragem política que avancem para os processos judiciais, pois talvez seja a forma da população conhecer outras vertentes escondidas. 
Ilustração: Google Imagens.

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