domingo, 23 de abril de 2017

A ÁGUA E A CIDADE


Um texto de relevante interesse assinado pelo Engº Danilo de Matos, publicado na edição de hoje do DN-Madeira.
A água determinou o povoamento da Ilha. As povoações nasceram junto às praias de calhau e em torno das fozes das ribeiras. A água desenhou a ocupação e o crescimento da nossa cidade – a água que cavou os vales e corre pelas ribeiras e a que está ali, sempre presente, a lembrar a insularidade. É uma relação para a vida, o que não quer dizer que seja eterna, porque se não soubermos cuidar dela a nossa existência enquanto ilha estará seriamente ameaçada, como nos lembra Reynaldo Oudinot.


É isto que hoje, quando discutimos a cidade e particularmente as desastrosas intervenções governamentais nas ribeiras, há quem não perceba e não queira ver. Mas isso é outra conversa. Convidaram-me para falar um pouco da cidade ferida na sua identidade e dos apagamentos de memórias a que temos assistido, fruto de muita ignorância e de uma certa amnésia que ameaçam a alma especial desta cidade - e isto não é uma metáfora; antes fosse.
As ribeiras fazem parte da vida da cidade, da nossa vida. Definiram a matriz e a malha urbana e com isso acrescentaram-lhe uma singularidade única de que nos orgulhamos. São duma riqueza ecológica, paisagística, ambiental e patrimonial que tem de ser acarinhada e não desbaratada. Oudinot percebeu isso quando cá chegou para tratar das ruínas do trágico aluvião de 9 de Outubro de 1803. Ele corrigiu os traçados urbanos das três ribeiras em alguns pontos, definiu as secções de vazão que ainda hoje são actuais, os perfis das muralhas, os atravessamentos, a ocupação das margens, o basalto aparelhado como material e os processos de construção. Deixou-nos uma herança patrimonial e histórica notável.
A ribeira de Santa Luzia, a ‘jóia da coroa’, merece um tratamento especial. O que lhe fizeram é inqualificável. Era a ribeira mais querida e emblemática de todas - muita da nossa autoestima como funchalenses revia-se ali. A abertura ao mar e à serra, as muralhas conservadas como se fossem monumentos, as pontes históricas como símbolos, os tapetes de flores, a frescura, o cheiro e o som da água nos períodos mais calmos – e tudo isto com a envolvência e a ‘carga’ do centro histórico onde vai desaguar. É como se fosse a nossa grande Alameda! Um espaço canal que estruturou a cidade e lhe emprestou uma estética que correu o mundo. 
As feridas são profundas, há cicatrizes que vão ficar. E agora o que podemos fazer? -perguntam-me. A ribeira e a cidade nunca mais vão ser as mesmas. Mas a cidade é um corpo vivo, tem órgãos, tecidos e pele. Eu sou um defensor da ‘acupunctura urbana’, sobretudo em situações como as que estamos a viver que exigem transformações e respostas rápidas. Um conceito e uma prática de que os grandes pioneiros são os urbanistas Jaime Lerner (brasileiro) e Marco Casagrande (finlandês). A ideia é enquanto esperamos pelos planos, que levam naturalmente o seu tempo, ‘picar’ com as agulhas certas os pontos certos da cidade que têm de ser revitalizados, com pequenas intervenções urbanas rápidas. Não podemos deixar adormecer o nosso amor à cidade.
Deixei o desafio ao Gabinete da Cidade. Vamos salvar o troço final da ribeira de Santa Luzia. Afiar as agulhas para uma ‘acupunctura’ daquele espaço com um projecto simples com a criação de um passeio amplo ao longo das duas margens. O resto da ribeira fica para depois. A ideia está aí!
Danilo Matos

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