sexta-feira, 14 de abril de 2017

NÃO É POSSÍVEL "CANTAR E ASSOBIAR" AO MESMO TEMPO


Li as críticas e, de imediato, assaltaram-me três perguntas: primeira, alguém pode ser politicamente visado (culpado) por, em quatro anos, não ter tido possibilidades de resolver um assunto que outros, durante quase quarenta anos, não resolveram?; segunda, terá bom senso uma crítica política por obras indiscutivelmente prioritárias e não realizadas, quando outros não só não as solucionaram como deixaram uma dívida de 105 milhões de euros que urgia pagar?; terceira, será politicamente honesto confundir um saldo CONTABILÍSTICO positivo de seis milhões, com capacidade financeira de investimento, quando no decorrer do último mandato sublinharam, também, que a administração tinha dado "lucro"?


Ora bem, quando leio: "(...) O PSD/Madeira denunciou hoje a falta de investimento da Câmara na cidade do Funchal, e em particular nas redes de abastecimento de água potável" (...) a cidade “tem uma rede de água envelhecida, pouco eficiente e com grandes perdas" (...) neste momento "mais de 60% da água fornecida pela Câmara do Funchal perde-se na rede, ou seja, mais de metade da água que é paga pela Câmara é totalmente desperdiçada antes de chegar a casa das pessoas" (...) “O que os funchalenses não percebem é como a Câmara do Funchal e o seu presidente se gabam de ter tido um lucro de 6 milhões de euros no último ano, e no entanto não tenha sido feito nenhum investimento na rede de água da cidade. Nenhum funchalense percebe como é que a Câmara dá lucro, mas a factura da água continua a ser a mais alta da Madeira". Pois é, o partido que assim se posiciona é o mesmo que teve nas mãos a possibilidade de solucionar este grave problema e não o fez, apesar de tantos apelos e de públicas boas relações com o governo da região. Eu sei que o Dr. Raimundo Quintal muito lutou por isso, no tempo da presidência do Dr. Miguel Albuquerque, e reconheço que alguma obra foi realizada (as chamadas "obras invisíveis"), mas também sei que o problema de hoje tem causas profundas de desinvestimento prioritário na rede, que governo e câmara não foram capazes de solucionar ao longo de quatro décadas. Repito, quase quarenta anos!
Todos sabemos que não é possível "cantar e assobiar ao mesmo tempo", isto é, ou as dívidas são pagas e são mantidos os serviços necessários ao funcionamento da cidade, ou há investimento em obras e criam-se mais dívidas que, paulatinamente, se tornam impagáveis. De resto, as instituições públicas não podem viver à custa do financiamento privado, clarifico melhor, não podem chutar para a frente, solicitando às empresas que façam as obras no convencimento que um dia, um dia bem longínquo, alguém pagá-las-á!
Foi assim durante muitos anos, ao ponto dos madeirenses e portosantenses estarem a pagar uma dívida de quase seis mil milhões e de alguns políticos serem hoje arguidos por dívidas não reportadas (escondidas). Estamos todos a pagar por não terem sido respeitadas as PRIORIDADES, uma delas, obviamente, o caso das perdas de água, recurso escasso e cada vez mais primordial no futuro.
Portanto, o que dizer destas iniciativas políticas que repetem o discurso político do passado e não têm em conta os recursos financeiros de hoje? E o que dizer quando é manifesta a ausência de sentido de responsabilidade e de um discurso que coloque o governo da região na defesa das PRIORIDADES, as quais não são apenas do Funchal, mas de toda a Região? Sem contratos-programa assumidos nesse quadro, tiremos o cavalinho da chuva, nunca será possível, repito, "cantar e assobiar" em simultâneo. 
Ilustração: Google Imagens.

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