domingo, 2 de abril de 2017

TRAGÉDIA... DISSE ELE!


O Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, mostrou-se impressionado com a "incrível tragédia" face aos números "aterradores" do desemprego jovem nas Regiões Ultraperiféricas (RUP). Por exemplo, a Madeira regista 50,6% da população jovem desempregada. Parece que todos sabíamos desta dura realidade, só Juncker ainda não se tinha apercebido. Espantoso. Nem ele nem o seu antecessor Durão Barroso. "Tragédia", disse!  O que me leva a concluir que a política europeia sempre esteve a duas, três ou mesmo quatro velocidades, se partir do princípio que os próprios "cérebros" não dominam a realidade. Quem se espanta com o desemprego jovem estará, porventura, desperto para os grandes desequilíbrios a todos os níveis? Não me parece.


Sendo, apenas, um dos indicadores da crescente negação a esta Europa política, Jean-Claude Juncker, figura pela qual, sublinho, não nutro qualquer admiração política, faz parte da clique que lá no fundo aplaude, sem aplaudir, esta Europa marcada pela dor profunda sentida pelos povos. Os contributos e a redistribuição do dinheiro de todos não apaga os desmandos. Por isso, não me deixo iludir, quando a propósito da discussão sobre o “Livro Branco sobre o Futuro da Europa”, Juncker exclamou: "(...) Gritamos aos quatro ventos que o debate é necessário e que é preciso ir ao encontro dos cidadãos e dos eleitores – que são cidadãos e não apenas eleitores – e quando o fazemos somos criticados. Então merda. Eu diria merda se não estivesse no Parlamento Europeu. O que querem afinal que façamos?" Então, perante este desabafo, pergunto, não é a família política a que o Presidente Juncker pertence que, desde há muito, tem os cordelinhos na mão e que conduziu esta Europa para um lamentável pré-colapso? Não foram esses senhores que tudo fazem para apagar as identidades nacionais, a diversidade de culturas e as especificidades seculares, marimbando-se para a voz dos cidadãos, onde quase nada é concretizado sem uma pergunta a Bruxelas, um subordinação à autorização, uma subserviência que esmaga e limita o respeito pelas leis nacionais?
Não gosto de escrever sobre um tema sem o perfeito domínio de todas as causas. Mas, enquanto cidadão, assisto ao Brexit, ao descontentamento de muitos especialistas que leio, à perda de princípios e valores que pautaram a construção europeia, assisto à corrupção de pendor criminal e dou comigo a pensar nas razões mais substantivas do crescendo populista que ganha no espaço da angústia. E vem agora o Senhor Juncker falar dos cidadãos que não são apenas eleitores? Paroles... Paroles... Paroles!
E pior, ainda, é o Presidente do Governo Regional da Madeira dizer que o desemprego é "um preço que a Madeira paga pela insularidade e que a União Europeia deve compensar apoiando programas de estímulo ao emprego (...)". A Madeira, apesar da insularidade, tem uma factura social altíssima porque negligenciou o planeamento, porque apostou, fundamentalmente, no cimento e não na diversificação da sua economia, porque descurou, profundamente, as políticas educativas, quem a tem governado mandou às malvas o sentido prospectivo, porque foram políticos e não estadistas, porque confundiram crescimento com desenvolvimento.
E para que fique claro: sou europeísta. Sou por uma Europa de paz e de princípios solidários. Sou por uma Europa de livre circulação de pessoas. Sou por uma Europa de estratégia comum na defesa. Sou por uma Europa que respeite as nações. Digo não a uma Europa de directórios que impõem os caminhos que devemos trilhar, até porque, entre tantos sectores, a Economia deve estar ao serviço das pessoas e não as pessoas ao serviço da Economia. Com a licença dos leitores, faço minhas as palavras de Juncker: "merda"... para esta Europa!
Ilustração: Google Imagens.

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