quarta-feira, 31 de maio de 2017

ESTE BARRETO É UM "BARRETE"!


Por Joaquim Vassalo Abreu 
30/05/2017


"Lentamente vou-me actualizando, depois de muitos dias de imensa amargura e alheamento. Mas a vida continua…
E se há coisa, que até por aqui algures referi, que me faz pensar e me faz ficar cada vez mais perplexo é, acerca do processo por que passei durante uma dezena de anos, o facto de muita gente, maioritariamente mulheres, por acaso, me dizerem: nenhum (eu acrescento “quase”) homem faria o que você fez!
A minha perplexidade conduziu a que eu dissesse e escrevesse o que disse e escrevi: Mas como, perguntava eu? Mas haverá possibilidade de se ser Homem só pela metade? Ser-se honesto só pela metade? Ser-se vertical mais ou menos? Ser-se sério mais ou menos? Ser-se íntegro em part-time? E, finalmente : AMAR mais ou menos ou assim-assim?
Portanto, seguindo como sempre procurei seguir aquilo que sempre me foi ensinado, eu considero e sempre considerei que o que vivi não passou da “normalidade” e sempre respondi a essas pessoas: Eu? Que sofri ou sofro eu? E ELA?
Portanto, passado este pequeno introito, ele apenas é referido, como vão ver e ler, como introdução a uma apreciação, que não passa de uma pessoal apreciação, a uma pessoa que eu não posso considerar, pese a sua cultura, pese o seu estudo, pese o seu estatuto ou pese os lugares ou cargos que ocupou, como um Homem na sua essência total, mas apenas “mais ou menos” homem.
Porquê? Por uma simples e primeira razão: ninguém pode ou deve renegar nunca o que foi! Isto é, até pode mudar de ideias, mas renegar o que se foi? Para mim, nunca! Por exemplo: eu nasci pobre! Vou alguma vez esconder ou renegar isso? Para estudar fui para um Seminário. Posso isso renegar? E poderei, tendo em alguma época sido contestatário ou me ter comportado fora das regras, isso esconder? Ter pensado de maneira diferente do que agora penso e isso renegar?
Não, eu entendo que não! Acho que um Homem que é Homem, deve assumir a sua vida, os seus actos e a evolução do seu pensamento, mas nunca renegando o que foi ou como foi construindo o seu pensamento e vida.
E, no meu processo de reactualização com o dia a dia, dei por mim a ler numa capa de jornal um estrato de uma entrevista que o personagem a que me refiro (O Sociólogo António Barreto) deu a um qualquer jornal e em que dizia esta frase fundamental: “Eu não queria a “geringonça”, isto é, um Governo do PS apoiado pela Esquerda, PS e BE e Verdes…”. 
Emitir a sua opinião, como eu emito a minha, não tem nada de relevante e estranho mas, ao contrário de mim, que ninguém conhece e nem algum lastro tenho, ele é uma figura que foi sempre pública, foi Ministro, presidiu a “coisas”, emitiu e emite pensamento, escreve e é SOCIÓLOGO! E aqui está a substância.
Sociólogo? Mas de quê? Eu acho que a Sociologia pressupõe estudar as Sociedades, a sua evolução ao longo dos anos, com critérios gerais mas também específicos e concretos, a sua decorrência e suas consequências, as suas melhorias ou não mas, tendo como sentido prioritário, a explicação dessa mesma evolução. Mas a palavra Sociologia tem por origem o “Social”. E tendo como pressuposto a evolução dos “Povos”, das suas conquistas, dos seus progressos e das suas lutas, isto é, da forma como foram sendo ou não adquiridas.
Por isso, sem desrespeitar o seu trabalho ao longo dos anos de pesquisa e estudo, custa-me a mim acreditar como um homem como este, com tanto rasto e lastro, consegue emitir uma afirmação destas, como que dizendo, ou pretendendo dizer, que as Sociedades só poderão progredir com a aliança das classes médias com as burguesias, mas descurando o Povo. Do povo com o capital. Da evolução sem direitos. Da evolução através do neoliberalismo. Da desmaterialização da política e das ideologias. Enfim, dos interesses globais de uma “elite” sobrepondo-se aos mais básicos direitos de uma grande maioria. Que “Sociólogo” será este?
De modo que a pergunta que se impõe a este “senhor” é a seguinte: Que diabo o levará a pensar que um governo PSD/PS seria melhor que este? Infelizmente, a uma única conclusão chego: é ele ter como apoiante o PCP! Esta é a verdade pura e dura! Partido a que pertenceu, mas renega. Como se tivesse trabalhado numa empresa e, numa entrevista de trabalho, viesse falar mal, renegar, a sua anterior empresa! Que diria ele desta se alguma vez fosse contratado e saísse?
Sociólogo? Terá sido o seu profundo conhecimento da Sociologia que o levou a aceitar ser, como Sociólogo, é claro, o Ministro da Agricultura que acabou com a Reforma Agrária e devolveu as terras aos seus “legítimos” proprietários, os latifundiários, deixando o Povo Alentejano e Ribatejano, essencialmente, que tanto ao longo dos anos sofreram, sem terras e sem trabalho? Terá sido em nome do “Social” ou da “Sociologia”?
Sociólogo, o senhor Prof. Dr. António Barreto? Não! O Senhor é, sim, um REACCIONÁRIO! Palavra que, como Sociólogo, deve saber o que significa.
O senhor foi comunista na adolescência, foi socialista quando regressou das Suíças, foi depois duma coisa qualquer do PSD, transformou-se em politicólogo barato, passou pela Pordata (aqui fez qualquer coisa, mas depressa se foi), até que endoidou!
Tal como a outra…O senhor Prof. Dr. Barreto é tudo por metade e, por isso, é um “barrete”!"
NOTA
Transcrito de https://estatuadesal.com/2017/05/30/este-barreto-e-um-barrete/ 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

"LA BELLE ET LA BÊTE" OU A "BELA E O MONSTRO - NUMA VERSÃO TRUMPAMERICANA



"Repugna-me visceralmente moer o teclado em que escrevo e sujar os dedos nesse pântano viscoso em que nadam e se nutrem determinados homens-rãs capazes de tudo para mostrar-se na pele do monstruoso ‘boi-ápis’ das lendas. Dá pelo nome de cinismo, hipocrisia, despudor... E se sou obrigado a tragar o cheiro fétido do charco, faço-o de carreira, dele fujindo a sete-léguas. É o que farei neste momento, com base na caricatura que o jornal italiano ‘CORRIERE DELLA SERA’ traz hoje em primeira página.
O primeiro êxodo oficial de Trump pelas arábias, depois pelo Vaticano e ainda pelas instituições europeias não podia ser mais demonstrativo, a começar pela hora em que o fez: acusado de conluio com a espionagem russa, de que resultou a sua eleição, contestado pelas multidões, desacreditado por uma parte dos correligionários republicanos, ao ponto de enfrentar um eventual empeachment, o homem sai para o exterior e tenta ludibriar a opinião pública, exibindo mãos largas de afectos, profissões de fé no Alá dos muçulmanos, no Jehovah dos Muro das Lamentações e no Deus romano dos cristãos.
A ousadia do encontro com o Papa Francisco é o cúmulo! Digo ousadia, para não dizer garotice, porque teve o desplante de afirmar aos jornalistas no voo para Roma: “ sinto-me muito honrado pelo convite que me fez o Papa Francisco”, quando, afinal, não houve convite nenhum, o que houve foi um ofício de Trump a solicitar uma audiência para o dia 24 de Maio. E o Papa – comenta o diário espanhol ‘ABC’ – que não faz convites a nenhum chefe de Estado, simplesmente recebe todos os que lho pedem.
Na troca de presentes, a hipocrisia foi tanta que o assumido xenófobo atreveu-se a oferecer ao Papa cinco livros de Luther King – “espero que goste” - ele, o mesmo que persegue os imigrantes e reconstrói na América os muros da vergonha derrubados na Europa de 1989. Ao sair da audiência, repete comovidamente à comunicação social o que tinha dito ao Papa: ”É um homem fantástico… Parto do Vaticano, agora mais que nunca decidido a promover a Paz no mundo”. O mesmo ‘pacifista’ que tinha acabado de fechar negócio de venda de armamento à Arábia Saudita no montante de 110.000 milhões de dólares 

O protocolo, a meu ver saloio, do yanque embrulhou a família ‘real’ – a mulher-manequim Melania, a filha e, de arrasto, o genro – e a todos ensaiou o ritual litúrgico da ordem: o véu de viúva-virgem na cabeça, o terço para o Papa benzer, depois a visita dela ao hospital do Bambino Gesu e, por seu lado, a filha Ivanka à comunidade ‘Sant’Egídio’ onde encontrou mulheres africanas vítimas de violência. Uma encenação perfeita, milimétrica.
Muito lhe deve ter custado ao Papa Francisco engolir tanto cinismo. O rosto carregado e sombrio contrastava com os maxilares abertos do riso descarado do visitante. Francisco tinha em mente a reacção do Trump candidato, quando às suas declarações – “os que em vez de pontes levantam muros não são cristãos” – o dito cujo candidato classificou-as de “vergonhosas”. Apesar disso recebeu-o. Foi uma entrevista rápida e cautelosa, talvez “de cortar à faca, em que o Papa marcou a diferença entre Trump e Obama: para este concedeu 50 minutos, para aquele apenas 27. A oferta de uma oliveira, símbolo da paz, esculpida em medalha, e as suas três encíclicas sobre a alegria do Evangelho, o amor reencontrado e, mais directo, sobre ecologia e alterações climáticas, são o gesto sancionatório do bispo de Roma contra quem se recusa a manter os Acordos já assinados pelo anterior inquilino da Casa Branca: o Acordo de Paris sobre o ambiente, o Acordo com o Irão sobre o nuclear e, ainda, o Obamacare, sobre um novo Serviço Nacional de Saúde Americano.
Quanto à presença de Trump nas instâncias europeias, deve ser preciso trazer dentro da gravata, sarcasticamente vermelha, um escudo do tamanho de todo o despudor que há no mundo para falar àquela Europa que ele, textualmente, tinha apelado à desagregação total, na sequência doBrexit britânico…
Já demorei tempo demais à beira do charco. Mas é este o mundo pútrido que nos oferecem. Só espero que o povo americano não desista de lutar por uma desinfestação das estruturas e faça regressar o seu país e o planeta às raízes democráticas que o criaram e fizeram crescer".
25.Mai.17
Martins Júnior
NOTA
Texto do Padre Martins Júnior, publicado no seu blogue http://sensoconsenso.blogspot.pt/

quarta-feira, 24 de maio de 2017

NÃO SABER OCUPAR OS LUGARES INSTITUCIONAIS


Nos últimos dias, duas iniciativas marcaram aquilo que configura uma certa desatenção, para ser brando e compreensivo nas palavras, ao nível do primeiro órgão de governo próprio, a Assembleia Legislativa da Madeira. 


Primeira: a solicitação para um ministro vir prestar declarações à Assembleia. Não é a primeira vez que acontece, quando todos sabem que os membros do governo da República respondem perante a Assembleia da República e nunca perante as assembleias regionais. Se assim não for, não levaria muito tempo e os ministros estariam a responder aos presidentes das câmaras municipais. Foi um alarido de todo o tamanho que só posso considerar como uma trauliteira provocação sem sentido. Segunda: embora menos grave, é certo, o Presidente da Assembleia Regional ter emitido um comunicado contra o ataque soez, vergonhoso e anti-humanidade, perpetrado em Manchester. Não é que não o possa fazer, mas a título individual e não institucional. Quanto muito apresentaria um voto para apreciação e votação pelos deputados. Simplesmente porque compete ao Presidente da República, à Assembleia da República e ao Primeiro-Ministro de Portugal manifestarem, por um lado, o repúdio, por outro, a solidariedade ao povo da Grã-Bretanha por tão vil atentado. 
Há regras a cumprir pelos órgãos institucionais, pelo que são errados os atropelos, quer sejam os que se enquadram no combate político, embora sem sentido, quer aqueles que visam, julgo eu, dizer "estou aqui"! Daí que, necessário se torne, saber ocupar os lugares institucionais.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

PROCEDIMENTO POR DÉFICE EXCESSIVO


Hoje, politicamente, percebe-se que não havia necessidade de tanta austeridade sobre o povo português quanto aquela que foi imposta. Aqui e ali vamos lendo intervenções desde o FMI até à própria Comissão Europeia que demonstram quanto errados estiveram nas medidas impostas e que castigaram um povo, maioritariamente pobre, a uma situação de gravíssimo constrangimento social. Havia, como se prova, outros caminhos que a democracia acaba sempre por descobrir e seguir. Mas vem isto a propósito do "procedimento por défice excessivo". Escutei, de passagem os comentários na SIC-Notícias. Lá esteve o inefável José Gomes Ferreira e segui a intervenção do líder do PSD. Sinceramente, não sei onde termina o discurso político de Pedro Passos Coelho e começa o do jornalista José Gomes Ferreira (SIC). Mas isso pouco me interessa, até porque tenho a opção de mudar de canal...


Não me alegro nada com a decisão da Comissão Europeia, por  um único princípio: o da nossa soberania nacional. Porque deixámos de ser donos do nosso futuro. Uma coisa é ser europeísta, outra é perder a identidade em função dos complexos e muitas vezes obscuros interesses externos. Fomos esmagados (e somos), durante anos, por directórios que se sobrepuseram, de forma acéfala, a uma crise internacional, nascida fora de Portugal e que arrastou muitos e sobretudo os países mais vulneráveis. Portugueses houve, governantes, de pin ao peito que se vergaram, completamente aos "donos disto tudo". Massacraram o povo, roubaram-lhe direitos mínimos conquistados com trabalho e sangue que a História demonstra, sugaram salários, impuseram impostos incomportáveis, aumentaram a pobreza, deram cabo de uma parte do tecido empresarial, geraram as condições de aumento da riqueza para quem já dela não precisava, impuseram o desemprego e a precariedade, e agora, leio no Expresso, que Valdis Dombrovskis, número dois da Comissão Europeia, subtilmente, ainda tem o desplante de acentuar que o Governo terá de manter-se comprometido com o plano de reformas estruturais com vista ao país alcançar um crescimento sustentável, advertindo, entre outras recomendações, com laivos de chantagem, que Portugal se deve manter comprometido com o plano de reformas, com vista a uma “economia resiliente, dinâmica e inovadora”. Pergunto: o que entenderá ele com um plano de reformas? Julgo que lhes deve estar atravessada na garganta a solução que os portugueses encontraram para governar o país. Logo Valdis Dombrovskis que pertence a uma coligação de três partidos do centro direita da Letónia ("Unidade")
Ilustração: Google Imagens.

TERMINOU O XII CONGRESSO DO SINDICATO DOS PROFESSORES


"Um poder político que desvaloriza a função de professor reflete uma sociedade doente e inconsciente relativamente ao seu futuro" - Palavras do Senhor Representante da República para a Madeira, Juiz Conselheiro, Ireneu Cabral Barreto.

sábado, 20 de maio de 2017

DEUS E EU


Tenho pelo Padre José Luís Rodrigues uma enorme admiração e respeito pelo seu múnus sacerdotal. É um Homem de quem se gosta de ouvir ou ler, porque se aprende. Que me perdoem outros, mas este faz parte do limitado leque que assume, publicamente, o que lhe vai na alma. Como poucos, pelo menos para mim, sabe contextualizar a Palavra em função da vida real. São suas estas palavras, insertas no seu blogue: "Sou sacerdote. Gosto muito do que faço. Ora bem, e o que se há-de esperar de quem é feliz! Assim, o que mais desejo neste mundo é que os outros também sejam muito felizes". Declaração que o obriga sair da lengalenga para estar com outros e ao serviço dos outros. Porque é um Homem de uma invulgar abertura, por isso mesmo, há já algum tempo, abriu o seu blogue, pedindo, individualmente, a muitas pessoas, a resposta a uma pergunta tão simples quanto complexa: "Deus e eu". A este propósito tenho lido depoimentos que me deixaram a reflectir. Chegou a minha vez e lá deixei o meu pensamento. Um texto que partilho com todos os que por aqui passarem. Escrevi-o com o coração e com a cabeça em Cristo.


"Eu, leigo, me confesso. Não sou e nunca fui dado a rituais. Cansa-me a repetição, a ausência de inovação, porque me desvia do fundamental. Recebi o baptismo, transmitiram-me e liguei-me à Mensagem da Palavra que fala, entre outros, de amor, tolerância e solidariedade. Daí que, nas raízes do meu pensamento, esteja sempre a vida e os outros, tendo por elemento central a pergunta: se sou feliz, por que razão os outros não o deverão ser? A resposta não a encontro nos simbolismos para a qual a Igreja empurra, tampouco em uma fé desprovida de sentido ou em uma caridade que eterniza a vida dos que vivem na margem. Não significa isto o meu total abandono pelos cerimoniais, mas a profunda convicção que a Palavra, aquela que me transmitiram e que julgo ter sabido cruzar com as múltiplas circunstâncias da vida, aquela que me fez moldar a personalidade e sobretudo o carácter. Cristo apresenta-se aos meus olhos de espectador, observador e actor, como o portador do estandarte, o Homem referência que luta contra as vicissitudes e contra os desequilíbrios sociais. Cristo é muito mais que a Igreja Católica, burocrática, conservadora, ostentatória e com muitos preocupantes escândalos de permeio. Jesus Cristo é muito mais que o Estado do Vaticano e as suas secretarias de Estado (!). Cristo é muito mais que rezas, pecados, confissões, dogmas e sucessivos batimentos no peito em sinal de arrependimento. Depois, Jesus Cristo não pede sofrimento para a libertação, pede amor e honestidade aos Homens. Portanto, Cristo é a Palavra, cuja narrativa visa humanizar comportamentos e atitudes a todos os níveis e escalas. Só que, muitas vezes, interrogo-me, por onde andará, porque tão distraído me parece, face a tanto atropelo, maldade, terror, fome, miséria e ausência de compaixão. Ele que transborda amor e que manda rebentar as amarras, como permite os poderes, todos os poderes, que colocam o homem contra o homem? Acabo por me guiar nas profundas convicções que a Mensagem traduz, interferindo onde posso e devo, na certeza que contribuo para uma sociedade melhor. Sinto isso ao fazer, com regularidade, a pergunta: cumpriste?
Esta é, no essencial, a minha relação com Deus. A do leigo que acredita na utopia como um caminho para a consecução da fraternidade entre os Homens."

Publicado no blogue:
O Banquete da Palavra
http://jlrodrigues.blogspot.pt/

quinta-feira, 18 de maio de 2017

DEPOIS DO ARQUIVAMENTO DO "CUBA LIVRE", SEGUE-SE MAIS UMA INVESTIGAÇÃO COM O MESMO FIM?



Título do DN-Madeira, edição de hoje, página 15:

"Juíza manda investigar favores às construtoras". 

Alegadamente, salienta o DN, porque o Dr. Rui Gonçalves, ex- Director Regional e hoje secretário regional, "o governo regional teria feito um plano com as empresas de construção para assinar em 2011 acordos de regularização de dívidas, mas com data de 2010" (...) o Dr. João Jardim, ex-presidente do governo, "ao saber que não podia ocultar mais a dívida, deu ordem às empresas de construção para "criar nova dívida", através da emissão de facturas e debitando todos os juros que até aí se recusara a pagar". O texto desenvolve, ainda, "adjudicações fraudulentas", fala de "infiltrados no Tribunal de Contas", de "muitos a ganhar na Lei de Meios", de "não pagar à Segurança Social", de "favores a autarcas", de "trabalhos por facturar", de "um clube misterioso no Brasil" e que "Jardim ocultou dívida e mentiu em Tribunal".
"No comments!". Para ler e, individualmente, cada um retirar as suas conclusões.
Ilustração: Google Imagens. Título: Emaranhado!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

ESQUERDA E DIREITA NO SÉCULO XXI


(Por Immanuel Wallerstein, in Blog OutrasPalavras, 16/05/2017)



As turbulências e reviravoltas políticas que vivemos irão recrudescer. A esquerda só vencerá se souber aliar os que lutam por direitos sociais às forças multiculturais. Este é, hoje, o sentido da luta de classes.
O período entre 1945 e 1970 foi, ao mesmo tempo, de altíssima concentração de capital ao redor do mundo e de hegemonia geopolítica dos Estados Unidos. Na geocultura da época, liberalismo de centro estava em seu ápice, como ideologia dominante. Nunca antes o capitalismo parecia ter funcionado tão bem. Mas isto não iria durar.
O alto nível de acumulação de capital, que favorecia em particular as instituições e o povo estadunidense, chegou ao limite de sua capacidade de garantir o quase monopólio de empresas produtivas necessário. A ausência deste quase monopólio fez com que a acumulação de capitais em todos os lugares começasse a estagnar. Os capitalistas foram obrigados procurar maneiras alternativas para sustentar seus rendimentos. As principais formas foram transferir as empresas produtivas para regiões de custo mais baixo e se envolver em transferências especulativas de capital, procedimento mais conhecido como financeirização.
Em 1945, o quase monopólio geopolítico dos Estados Unidos só era desafiado pelo poder militar da União Soviética. Para assegurar este quase monopólio, Washington teve de entrar num acordo tácito, porém efetivo, com a União Soviética, chamado “Yalta”. Este pacto envolveu uma divisão do poder sobre o mundo: dois terços para os Estados Unidos, um terço para a URSS. De forma recíproca, concordaram em não desafiar tais limites, nem interferir nas transações econômicas do outro em sua respectiva esfera. Também iniciaram uma “guerra fria”, cuja finalidade não era derrubar o outro (ao menos no futuro previsível), e sim preservar à risca a lealdade de seus respectivos satélites. Este quase monopólio também foi aniquilado devido ao crescente questionamento sobre sua legitimidade, por parte dos perdedores, no status quo de então.
Para acrescentar, este foi um período no qual os movimentos anticapitalistas tradicionais, ou “velha esquerda” (em que se incluem comunistas, social-democratas e partidos de libertação nacional), assumiram o poder em várias regiões do sistema mundo, fato que parecia altamente inimaginável em 1945. Um terço do globo era governado por partidos comunistas e seus equivalentes. Outro terço era governado pelos partidos social-democratas na região pan-europeia (América do Norte, Europa Ocidental e Australásia); nesta, o poder alternava-se entre partidos social-democratas que adotavam o Estado de Bem-estar Social (Welfare State) e partidos conservadores que também o aceitavam, embora procurassem reduzir sua extensão.
E, na última região, no chamado “Terceiro Mundo”, movimentos de libertação nacional chegaram ao poder, com promessas de conquista da independência, na maior parte da Ásia, da África e do Caribe; e promovendo regimes populares na América Latina, que já era independente.
Dada a força dos poderes dominantes, especialmente dos Estados Unidos, pareceria insólito que movimentos antissistêmicos chegassem ao poder nesse período. Mas, de fato, ocorreu o oposto. Com o propósito de lutar contra o impacto dos movimentos anticoloniais e anti-imperialistas, os Estados Unidos fizeram concessões, na esperança de que forças moderadas assumissem o poder nestes países. Calculavam que tais forças estariam mais dispostas a governar segundo normas convencionais do comportamento interestatal. Tal expectativa mostrou-se correta.
O ponto de inflexão ocorreu com a revolução mundial de 1968, cuja notável — embora curta — insurreição, entre 1966 e 1970, trouxe dois grandes resultados. Um foi o fim de uma longa hegemonia do liberalismo de centro (1848-1968) como única ideologia legítima na geocultura. Em seu lugar, tanto a ideologia radical de esquerda como a ideologia conservadora de direita, reconquistaram suas autonomias, e o liberalismo de centro viu-se reduzido a ser apenas uma entre três ideologias concorrentes entre si.
A segunda consequência foi a afronta mundial contra a “velha esquerda”, por movimentos de todos os cantos, que concluíram que a mesma não tinha nada de antissistêmica. Sua ascensão ao poder não havia mudado nada relevante, diziam seus agressores. Estes movimentos passaram a ser vistos como partícipes do sistema que devia ser rejeitado, para que os verdadeiros movimentos anticapitalistas tomassem seu lugar.
O que ocorreu depois? No início, esta nova direita assertiva parecia ser a vencedora. Tanto o presidente Reagan, dos EUA, como a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher proclamaram o fim do até então dominante “desenvolvimentismo”, e o advento da produção orientada para o mercado mundial. Eles afirmaram que “não havia outra alternativa” (TINA = “there is no alternative”). Dada a queda das receitas do Estado, na maior parte do mundo, a maioria dos governos solicitou empréstimos, que só seriam concedidos se aceitassem os novos termos da TINA. Estes termos eram exigidos para reduzir drasticamente o tamanho dos governos e, assim, eliminar o protecionismo, enquanto acabava o estado de bem-estar social e aceitava-se a supremacia do livre mercado. É o que conhecemos como o Consenso de Washington — e quase todos os governos se renderam a esta grande mudança de foco.
Governos que não se enquadraram, caíram, culminando no colapso espetacular da União Soviética. Depois de algum tempo, os Estados complacentes descobriram que o aumento prometido na renda real, tanto do governo quanto da maior parte dos trabalhadores, não ocorreu. Pelo contrário, esses Estados sofreram com a austeridade imposta a eles. Surgiu uma reação à TINA, marcada pela insurreição dos zapatistas, em 1995, as manifestações bem-sucedidas contra a tentativa de decretar garantias obrigatórias para os chamados “direitos de propriedade intelectual”, em Seattle, 1998, e a fundação do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em oposição ao Fórum Económico Mundial, pilar de longa data da TINA.
Com a esquerda global ganhando força novamente, as forças conservadoras tiveram que se reagrupar. Deslocaram-se de sua ênfase exclusiva em economia de mercado e lançaram sua face sócio-cultural. Inicialmente, gastaram muita energia em questões como a proibição do aborto e a insistência no comportamento heterossexual exclusivo. Utilizaram tais temas para atrair apoiadores à ação política. E mais tarde voltaram-se para posturas xenofóbicas anti-imigração, abraçando o protecionismo a que os conservadores econômicos especificamente se opunham.
No entanto, os apoiadores dos direitos sociais expandidos para todos e do “multiculturalismo” copiaram a nova tática política da direita e legitimaram, com sucesso, ao longo da última década, avanços significativos em questões sócio-culturais. Direitos das mulheres, os primeiros direitos ao casamento homossexual, direitos dos indígenas, tudo isso se tornou vastamente aceito.
Então, onde estamos? Os conservadores económicos venceram primeiro, e depois perderam força. Seus sucessores, os conservadores sócio-culturais venceram, depois perderam força. Mesmo assim, a Esquerda Global parece hesitar. Isso acontece porque ela ainda não parece disposta a aceitar que a luta contra a Direita Global é a luta de classes, e que isso deveria ser explicitado.
Na crise estrutural do sistema mundo moderno, que começou nos anos 1970 e provavelmente vai durar mais uns vinte a quarenta anos, a questão não é a reforma do capitalismo, mas seu sistema sucessor. Se a Esquerda Global quer vencer a batalha, deve aliar solidamente as forças anti-austeridade com as forças multiculturais. Só o reconhecimento de que os dois grupos representam os mesmos 80% de baixo da população mundial tornará possível a vitória. É preciso lutar contra o 1% e buscar atrair os outros 19% para seu lado. Isso é exatamente o que significa, hoje, a luta de classes.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

SE É ASSIM, O DISCURSO DE RUBINA LEAL NÃO É POLITICAMENTE SÉRIO


Depois de várias semanas a cavalgar uma situação que nunca me pareceu séria, eis que Carlos Pereira, presidente do PS-Madeira, vem acabar com os equívocos. Li, sucessivamente, que os Açores tinham mais dinheiro para a Segurança Social do que a Madeira, mas nunca escutei da boca da Drª Rubina Leal as razões substantivas porque tal acontece, concretamente, as regras e os protocolos assumidos entre as partes que determinam que tal aconteça. Ficou-me sempre a ideia desta governante lançar para o ar uma historieta, escondendo as causas. Devem ser poucas as pessoas, independentemente do governo que esteja na República, a acreditar que a orientação nacional seja a da protecção de uns em detrimento de outros. Curiosamente, por maior gritaria política que seja feita, o escrutínio nacional feito pela comunicação social e comentadores, rigorosamente nada dizem sobre esta matéria. Eu não conheço as variáveis que estão em causa na determinação dos valores a atribuir para a protecção social, portanto, compete ao governo regional assumir e negociar o que está definido, naturalmente, com o seu aval. Repito, apenas levantar a suspeição não me parece sério.


Esclarece o presidente do PS-Madeira, Dr. Carlos Pereira:
“Segundo as recentes declarações da Secretária Regional da Inclusão e Assuntos Sociais, Rubina Leal, a Madeira tem menos dinheiro que os Açores para apoiar a pobreza, esquecendo, porém, que os apoios financeiros foram reduzidos pelo governo PSD/CDS, razão pela qual Carlos Pereira entende que o Governo Regional devia adicionar verbas para apoiar os mais pobres na Região Autónoma da Madeira” (...) o “PSD-M tirou cerca de 10 milhões de euros do Instituto de Segurança Social da Madeira e, este ano, vai retirar mais 5 milhões de euros para aplicar em medidas activas de emprego” (...) “o executivo de Albuquerque retira do ISSM, as escassas verbas existentes para apoiar a pobreza, no sentido de as transferir para um outro problema, nomeadamente a criação de emprego, que devia ser da responsabilidade do Governo Regional ao invés da Segurança Social” (...) “Há uma diferença, muito grande, entre o que faz o governo Socialista e o que faz o PSD quando comparamos as medidas de apoio à pobreza no plano da Região Autónoma dos Açores, uma vez que só no Orçamento Regional Açoriano existem mais de 20 milhões de euros para apoiar a pobreza enquanto na RAM não existe no Orçamento um único cêntimo para apoiar essa matéria”.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 14 de maio de 2017

SALVADOR NÃO DA PÁTRIA... MAS FAZ-NOS TÃO BEM SENTIRMOS A EUROPA RENDIDA AO NOSSO VALOR


O cantor Salvador Sobral considerou a que "música não é fogo de artifício, é sentimento". "Vivemos num mundo de música descartável, de música fast-food, sem qualquer conteúdo. Isto pode ser uma vitória da música, das pessoas que fazem música que de facto significa alguma coisa. A música não é fogo de artifício, é sentimento. Vamos tentar mudar isto. É altura de trazer a música de volta que é o que verdadeiramente interessa". (DN-Madeira)
Assino por baixo e parabéns SALVADOR. 
Já agora, que mande um CD ao Wolfgang Schäuble, Merkel, Juncker, a alguns países do Norte, entre outros!

sábado, 13 de maio de 2017

VENEZUELA EM SOFRIMENTO E REINA O SILÊNCIO NA COMUNIDADE INTERNACIONAL


Trata-se de um assunto interno que só aos venezuelanos compete resolver. A verdade, porém, é que já vai em cinquenta os que morreram. Pelos relatos, a fome espalha-se, aumenta a pobreza, um relatório oficial dá conta de um aumento da mortalidade infantil de 30,12%, em 2016, tendo morrido 11.466 bebés no primeiro ano de vida, faltam medicamentos, os roubos, assaltos e assassinatos são diários, as prisões enchem-se, a oposição não é tolerada, as pessoas fogem e a angústia não pára de crescer. Penso que esta é a primeira fase de um complexo processo político. A fase seguinte poderá ser muito mais grave. Pode descambar em guerra entre grupos com posicionamentos políticos inconciliáveis.


O que para mim é surpreendente é o silêncio da comunidade internacional. O que, eventualmente, se passa nos bastidores não é publicamente conhecido. Parecem-me, parafraseando, todos com um olho no burro e o outro no petróleo! Uma Venezuela com tantas potencialidades e linda, desfaz-se aos olhos do Mundo. Não poderei dizer que conheço a Venezuela, em toda a extensão da palavra. Conheço Caracas, Maracay e Valência, entre outros locais menos referenciados. E conheço, genericamente, o povo madeirense emigrante. Enganam-se os que pensam que são todos ricos. Há muitos, muitos mesmo, que vivem no limiar da pobreza, que sobrevivem através da solidariedade de várias instituições. E os que tinham a sua vida equilibrada foi à custa de muito trabalho e de muito sacrifício. 
A situação da Venezuela deve apavorar-nos face aos milhares nossos conterrâneos (e não só) que lá estão. Preocupação até por todo o restante povo. Uma revolução que poderia ter sido bem sucedida, corrigindo erros muito graves, a todos os níveis, sobretudo os da AD e do COPEI, durante dezenas de anos, acabou, por insuficiência e impreparação políticas, resvalar para um quadro que pode não ter retorno a breve prazo. Doloroso.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

DESCRUCIFICAR É EVANGELIZAR


"Será que Deus é sádico, Jesus suicida e a Senhora de Fátima, para aliviar o Céu ofendido, sacrifica crianças inocentes? Não tenho qualquer resposta para estas perguntas que regressam sempre como as gripes. Não as considero desprezíveis, embora nem todos as formulam de forma tão brutal. Passada a euforia da visita do Papa à Cova da Iria, essa questão tornar-se-á ainda mais aguda. Para erradicar a violência em nome de Deus, é fundamental desmascarar todos os lugares onde ela se disfarça. Ainda na missa da quarta-feira da passada Semana Santa embati numa oração que renego: “Senhor nosso Deus, que, para nos libertar do poder do inimigo, quisestes que o Vosso Filho sofresse o suplício da cruz, concedei aos vossos servos a graça da ressurreição.” Será verdade que Deus, para nos libertar do poder do mal, precisava de fazer morrer o seu Filho no horror da cruz? Gostará Deus do sofrimento de quem mais ama? Poderá ser invocado como Deus um ser tão sádico?


S. Paulo, na famosa Carta aos Romanos, tão celebrada por M. Lutero, para enfatizar a loucura do amor que Deus nos tem e do qual nada nem ninguém nos pode separar, atreve-se a escrever esta barbaridade: “Deus não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por nós todos [1].” Será que Deus gosta mais de nós do que do seu próprio Filho? Não será este um amor perverso?
No Evangelho de S. João, o Pai não exige nada a Jesus e aqueles que o matam pensam que o dominam, mas estão enganados: “Ninguém me tira a vida, mas eu dou-a de mim mesmo [2].” Posição reforçada na Oração Eucarística II: “Na hora em que Ele se entregava, para voluntariamente sofrer a morte...”
Aqui, tudo se complica ainda mais: ou Jesus fingia que sofria e não sofria nada ou gostava de sofrer e, então, era um doente masoquista. Pior ainda, um suicida para nos salvar.
Ao fim e ao cabo: Jesus foi condenado por Deus ou por uma coligação de Herodes e Pôncio Pilatos? [3]
No cenário da Mensagem de Fátima, Deus, o Coração de Jesus e o Coração de Maria estão cravados de espinhos, feridos pelos pecados do mundo. Mas que ideia foi essa, tão pouco celestial, a de fazer com que crianças inocentes assumam a reparação dos estragos feitos pelos pecados dos adultos? [4]
2. É verdade que na história do mundo, quase sempre paga o justo pelo pecador. Se essa desgraça não pode ter aprovação divina, muito menos pode ser Deus a exigir a morte do seu próprio Filho para perdoar as ofensas recebidas.
A teoria jurídico-teológica das exigências da reparação justa da ofensa feita a Deus, elaborada por Santo Anselmo adicionada à concepção do pecado original de Santo Agostinho, deixa Deus muito mal e desgraça Jesus Cristo. Foram tantos os estragos na imagem de Deus e na vida dos seres humanos que o melhor é dispensar definitivamente essa teoria.
Muitos textos [5], ao pretenderem que Jesus estava a realizar o desígnio de Deus, prefigurado no Antigo Testamento — não era um traidor —, permitem leituras vesgas: se era Deus que O entregou, os adversários que o executaram estavam a cumprir a vontade de Deus! No entanto, em lado nenhum, Jesus se apresenta com a seguinte proposta: há muito sofrimento no mundo; eu venho para o alargar e intensificar. Não me parece que o Nazareno se tenha aconselhado com José Saramago para conceber, delinear e realizar a sua missão.
No Evangelho de S. Lucas, Jesus apresenta o seu programa, na sinagoga de Nazaré, servindo-se de uma passagem do profeta Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos mendigos; enviou-me a proclamar aos presos a libertação e aos cegos a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano aceitável da parte do Senhor [6].”
A recepção imediata do público da sinagoga foi simpática, mas acabou mal. Porquê? O programa era bom. A ideia de um ano Jubilar estava prevista no Levítico (25). Convidava ao perdão de dívidas e à libertação dos escravos. A desgraça está nos pormenores. A primeira foi a de fechar o livro antes do tempo: suprimiu a passagem do dia da vingança de Deus. Isto era grave. Parecia que já mandava no texto sagrado. Como não queria nada com a ideia de um Deus de vingança, não leu essa passagem e pronto. A segunda foi pior do que a primeira: o que Isaías dizia do Messias estava a realizar-se nele, Jesus de Nazaré. Era pretensão a mais. “Encheram-se todos de fúria na sinagoga ao ouvirem as suas palavras”, da fúria passaram aos actos, “expulsando-o da cidade, levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava construída, para o atirarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”.
Os quatro Evangelhos cumprem o que diz o nome: Jesus é um amado de Deus que entrega a sua vida para que seja perfeita a alegria de todos. Nas últimas crónicas já apontei qual foi o caminho de Jesus. O seu programa recusava a dominação económica política e religiosa que crucifica a vida das pessoas, seja onde for. O amor ao sofrimento é doença; o esforço para procurar vencer o próprio sofrimento e o dos outros, nas suas causas e consequências, é amor da vida, é descrucificar [7].
3. Nestas crónicas recusei-me sempre a responder à pergunta: que vem o Papa fazer a Fátima? Julguei que era melhor esperar para ver. Sabendo de quem se trata, alimento o secreto desejo de uma boa surpresa.
Entretanto descobri que o Papa Francisco publicou uma carta apostólica, em forma de motu proprio, que transfere as competências sobre os Santuários para o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização [8]. É precisamente o que mais falta em Fátima: tornar-se um centro propulsor de saída para o mundo e não apenas de um altar de incenso.
São ridículas as notícias colhidas ou veiculadas pelo Santuário sobre os cuidados com a figura do Papa, a sua indumentária para celebrar, o cálice de ouro, a pala para o resguardar do sol e outras futilidades do género. Parecem manifestar o propósito de neutralizar, na Cova da Iria, o que Bergoglio trouxe de novo: uma Igreja de saída para todas as periferias, com gosto da alegria do Evangelho, de uma evangelização nova, libertadora, descrucificante".
[1] Rm 8, 31-39
[2] Jo 10, 18
[3] Act 4, 27-30; Cf. Simon Légasse/Peter Tomson, Qui a tué Jésus?, Cerf 2004; Nathan Leites, Le meurtre de Jésus moyen de salut?, Cerf 1982
[4] Cf. Lúcia de Jesus, Memórias, Edição crítica de Cristina Sobral, Fátima 2016.
[5] Cf. Act. 2, 22-36 //
[6] Lc 4, 16-30
[7] Lc 7
[8] L’Osservatore Romano, 06.04.2017

NOTA
Artigo assinado por Frei Bento Domingues O.P., publicado no jornal PÚBLICO, edição de 07 de Maio de 2017.

domingo, 7 de maio de 2017

RUI MOREIRA (Porto) UMA ESPÉCIE DE VIRGEM OFENDIDA


O "independente" Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, resolveu fazer uma tempestade política sem uma única razão pública plausível. Do meu ponto de vista, face a uma candidatura dita "independente", todos os partidos políticos que abdiquem de propostas próprias, têm legitimidade, em caso de vitória eleitoral, considerarem que o resultado também constitui uma sua vitória. Que mal existe nisso? Não desvirtua o princípio da "independência" partidária do vencedor e todos os contribuintes dessa vitória têm o direito de se regozijarem com a sua aposta. 


Mas vou mais longe. Não existem "independentes". Politicamente, todos nós transportamos princípios, valores e convicções. Temos uma história construída através de leituras, diálogos, pensamentos, vivências, ambientes familiares e tantos outros, e tudo isto acaba por moldar a forma como acabamos por posicionarmo-nos face à vida. Inclusive, nas opções politico-partidárias. Ora, o Dr. Rui Moreira não é um "independente". Não tem é um "cartão partidário", o que não significa, nas eleições legislativas ou nas europeias, por exemplo, não vote em um sentido que mais se coadune com a interpretação que faz da política partidária.
E assim sendo acabou por criar um problema, não para o Partido Socialista, mas para ele próprio. Foi uma decisão, reparem, do núcleo duro reunido na sua comissão política. Os partidos também têm o designado "núcleo duro" que integra a "comissão política". Portanto, parece-me óbvio que a imagem organizacional dos partidos serve para umas coisas, não para outras.
No meio do "terramoto político", leio no Expresso, que Manuel Pizarro (PS), agora candidato por força das circunstâncias, é considerado o supervereador que até o concorrente do PSD, Álvaro Almeida diz mandar na Câmara, em vez do presidente dos "eventos, festas e selfies". São os próprios adversários que reconhecem o valor político daquele que agora foi deselegantemente sacudido. Um dia saber-se-á o porquê.
Ilustração: Google Imagens. Rui Moreira/Manuel Pizarro

"PELA SUA SAÚDE, MEXA-SE"


Perante o caos, urge questionar: que raio de autonomia integramos se nem o mais básico e prioritário conseguimos assegurar? - Um artigo de Roberto Ferreira, publicado na edição de hoje do DN-Madeira.


1) O ruído insuportável à volta do setor da saúde parece não ter fim à vista. Dia sim, dia sim, denuncia-se a falta de um medicamento, de uma vacina, a impossibilidade de se realizar um exame, uma máquina de diagnóstico avariada, um serviço hospitalar sem médicos suficientes para suprir as necessidades. Para compor o ramalhete ficamos a saber, por estes dias, que a lista de espera para cirurgias aumentou, em vez de diminuir. 16 mil e 300 madeirenses aguardam por uma operação, muitos há mais de uma década. Sim, leu bem. Há quem (des)espere há mais de 10 anos para entrar no bloco operatório. Quando isso acontecer – se acontecer – estará ainda vivo? Em muitos casos os tempos médios de espera, indicados por patologia, não são respeitados.
Não se deve fazer demagogia nem usar pequena política quando se fala da saúde. Contudo o que se está a passar com esta área tão sensível na Região não pode nem deve ser encoberto, nem observado como se de falhas pontuais se tratassem. Perante o caos, urge questionar: que raio de autonomia integramos se nem o mais básico e prioritário conseguimos assegurar? Quem é responsável por esta situação? O governo regional? O da república? Ou somos todos nós, contribuintes pagadores e cumpridores, ao deixarmos a situação resvalar a este ponto? Que falta para que se tomem medidas capazes de estancar o estado debilitante em que se encontra a saúde na Madeira? Na torrente crítica fala-se de interesses privados que se sobrepõem aos da população, que envolve médicos e clínicas privadas. O que se sabe, em rigor, sobre a eventual promiscuidade?
Urgem respostas, cabais, esclarecedoras, convincentes, porque com a saúde não se brinca, não se raciona, muito menos se joga e ironiza. As pessoas vivem há tempo demais com a interrogação, com a dúvida e com as falhas permanentes de um setor que não tem tido a paz que deve marcar a sua ação.
Não podem ficar reféns desta ou daquela falta, “falha temporária” ou o que se quiser chamar. Este ruído em torno da saúde desenrola-se há tempo demais, subsiste há muitos anos, por entre silêncios cúmplices e promessas inconsequentes de quem lidera o setor. Não podemos encolher os ombros, nem protestar apenas quando o mal nos bate à porta. A pouca vergonha tem de acabar. Pela sua saúde, mexa-se!
2) A atividade política regional centra-se em duas figuras: Paulo Cafôfo e Rubina Leal. Todos os dias os dois aparecem nos jornais e na televisão, por motivos distintos.
O primeiro como presidente do município, a segunda no papel de secretária da Inclusão. Estamos a cinco meses das eleições e os principais candidatos fazem tudo para divulgar as suas propostas. Convém, no entanto, não nos deixarmos inebriar pela espuma de alguns discursos, nem pela demagogia típica da época.
Observando a uma distância considerável – que permite maior frieza de análise – dei por mim a pensar: quantos anos o PSD governou a Câmara do Funchal? Quantos anos Miguel Albuquerque esteve na presidência? Quantos anos Rubina Leal esteve ao seu lado?
Em que situação financeira deixou o PSD a principal autarquia da Madeira? Essa dívida aumentou desde 2013 – ano em que o PSD deixou de mandar - ou, pelo contrário, diminuiu?
Que dizem os relatórios independentes sobre o os resultados alcançados pela equipa de Cafôfo, designadamente o Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses? Convém saber e efetuar uma apreciação comparativa entre o antes e o depois.
Pode-se fazer mais pela cidade? Sim, sim e sim. Em diversas áreas. O que não se deve fazer é confundir cargos para “picar o ponto” junto do cidadão eleitor diariamente. Isso, por si, não é suficiente. Estamos em 2017...
P.S.: A Festa da Flor é o maior cartaz turístico da Madeira. Uma vez mais está ao nível do melhor que se faz por cá. Os hotéis estão cheios, os turistas andam na rua, a economia mexe. A Região agradece.
NOTA
Transcrito, com a devida vénia, do DN-Madeira.

sábado, 6 de maio de 2017

NA VÉSPERA DE UMA DECISÃO


Anda uma grande parte dos senhores da Europa com as calças na mão, em função do que se está a passar nas eleições francesas. No essencial, é a má consciência que transportam. Incapazes de fazerem um mea culpa por tantas e tantas situações absolutamente lesivas dos interesses mais básicos dos povos, eles que, alegremente, geraram as condições políticas, económicas e financeiras favoráveis ao descalabro (não esqueço a história dos "copos e mulheres" de Jeroen Dijsselbloem), eles que tudo quiseram padronizar e controlar, impondo as suas regras através dos armadilhados Tratados, eles que de forma conluiada permitiram que as diversas troikas espezinhassem, eles que continuam a triturar a liberdade, a autonomia dos povos e o direito a definirem o seu futuro no quadro da diversidade responsável, eles que criaram as condições para que a extrema direita e os populismos exacerbados crescessem, apresentam-se, agora, claramente aflitos com o desfecho em França. Multiplicam-se em contactos e em discursos denunciadores de pânico e de aposta no mal menor. O discurso de ontem de Jean-Claude Juncker, cheio de promessas, foi um evidente sinal de angústia.


Não nego a minha preocupação, na pátria da "Liberté, Égalité, Fraternité" (1789-1799), pela possibilidade deste acto eleitoral vir a colocar, no Palácio do Eliseu (as sondagens de ontem dizem que não), uma candidata que transporta o fermento que poderá deixar a Europa de pantanas. Não desejo isso, mas também não alinho na conversa de Emmanuel Macron, pois tudo leva a crer que é mais do mesmo. Será um "petit" Holland de braço dado com as políticas dominantes, ontem lideradas por Durão Barroso e agora por Jean-Claude Juncker. Parece que estou a vê-lo (Macron), logo na primeira semana, a assinar o ponto, ajoelhado frente à conservadora Merkel. Preferia outras soluções, defensoras da unidade europeia, catalisadoras de um novo tempo que recolocasse os princípios e os valores de uma União de valores partilhados. Não tolero uma UE de directórios, subtis ou descarados, que impõem os seus ditames em tantos sectores e áreas de actividade, conducentes à perda do poder de decisão dos países e ofensivos, até, da própria identidade dos povos. Ora, se o discurso de Macron não traz no seu bojo qualquer sentimento de esperança em uma mudança estrutural, o de Marine, que não esconde ao que vem, preocupa-me e de que maneira! Tenho presente os enganos das sondagens. Quem diria, por exemplo, que Donald Trump venceria Hillary Clinton, após vários estudos de opinião? Quem diria que o Brexit seria inevitável? Mas aconteceu. Em França existe essa probabilidade. Muito remota, mas existe. É sensível um generalizado descontentamento em vários sectores da sociedade, o medo está presente apesar de dizerem que a vida tem de continuar, as políticas de restrição dos direitos sociais são ofensivas da tal "liberdade, igualdade e fraternidade", os escândalos e a corrupção são evidentes, portanto, existe ali, em sentido figurado, um cocktail molotov quase perfeito que poderá "incendiar" a Europa fazendo-a desmembrar. Agora ou, caso tudo continue igual, em uma situação delicada daqui por cinco anos. Seja qual for o resultado, o sentimento que tenho é que a fratura na sociedade existe e factura pode vir a caminho. O que será muito grave face aos apetites imperialistas que estão desenhados e identificados, que se marimbam para a paz e para os valores comuns.
Não sou francês, daí que nada tenha em me posicionar por este, por aquele ou pelo mal menor. Os franceses que decidam. Só que esta angústia tem culpados. E que culpados!
Ilustração: Google Imagens.   

sexta-feira, 5 de maio de 2017

"FRUTA PODRE CAI SOZINHA"



Nota prévia: em circunstância alguma entendo as pessoas como "fruta podre". À partida, as palavras RESPEITO e DIGNIDADE, devem ser consideradas. Eu considero-as. Por isso, por todos, mesmo os que não foram nada simpáticos comigo ao longo de algumas décadas, respeito-os enquanto pessoas. Acabei por ser amigo de muitas delas. Outra coisa é apreciar comportamentos de natureza estrictamente política. 
E sendo assim, achei graça ao título que o Dr. João Cunha e Silva, ex-vice-presidente do governo regional, atribuiu ao seu artigo de hoje no DN-Madeira: "Fruta podre cai sozinha". Ora se cai, meu Caro. Direi que, politico-partidariamente a língua escorregou para a verdade. Na Venezuela, tema do artigo, ou em qualquer outra parte onde os poderes tipo "duracel" tudo fazem para recarregar baterias velhas e viciadas! De facto, no caso da "fruta", ela tem o seu tempo próprio de crescimento, de maturação e, se não for "apanhada" cai sem salvação possível. Politicamente, deve ser apanhada no acto eleitoral, com sabedoria. Nesta "fruta" muito específica, de colheita de quatro em quatro anos, é o momento, qual metáfora política, para, simultaneamente, uma severa poda, para um desbaste que salve a árvore. O povo não tem tido esse cuidado, salvo nas autárquicas de 2013, onde podou sete das onze árvores. De resto tem mantido as árvores ao abandono. Já lá vão quarenta anos. Por isso tem razão o Dr. João Cunha e Silva, a "fruta podre cai sozinha".
Ilustração: Arquivo próprio.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

SISTEMA REGIONAL DE SAÚDE... UM PÂNTANO


Foram muitos anos a empurrar os problemas para a frente. Aos primeiros sinais não houve coragem política para atacar os problemas, fundamentalmente, ao nível da inversão das PRIORIDADES. Primeiro, estiveram outros interesses, a tal "obra" pública; depois, os pilares da saúde e da educação. E assim, em síntese, se gerou o um monstro que não há maneira de domar. A responsabilidade é de quem governou e governa, não dos médicos, enfermeiros e restantes técnicos. Se bem que muitos silêncios e assobios para o lado, ajudaram à situação que é hoje vivida. As páginas 2 e 3 do DN-Madeira de ontem dão conta de um quadro cada vez mais preocupante. A solução parece-me estar na necessidade de novas políticas, até porque, parafraseando, há pessoas que dizem que têm 40 anos de experiência, quando no fundo, demonstram possuir uma experiência repetida 40 vezes.

terça-feira, 2 de maio de 2017

EM 2003, O DR. MIGUEL ALBUQUERQUE QUIS DAR CABO DA PRAIA E ARRIBA DO TOCO. EM 2017, O TOCO É GEOSSÍTIO A PRESERVAR.


Texto que acabo de ler no DN-M online:
"A Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais, dando continuidade aos objectivos definidos na Estratégia Regional para a Conservação do Património Geológico, elegeu para Maio o Toco como o geossítio do mês. A arriba litoral do Toco expõe o melhor afloramento de depósitos hidrovulcânicos provenientes de erupções hidroplinianas, pertencentes à Formação do Funchal (Complexo Vulcânico Superior – CVS2 pih). Trata-se de uma sequência composta por níveis hidrovulcânicos distais e níveis de pedra-pomes traquítica com paleossolos intercalados. No topo desta sequência, aflora uma escoada subaérea de composição basáltica que apresenta disjunção prismática bem desenvolvida e inclina suavemente para o mar."


O curioso desta situação é o facto de, em 2003, sob a presidência do Dr. Miguel Albuquerque, a Câmara Municipal do Funchal, contrariando o PDM, elaborou e apresentou um concurso público internacional para "concepção, construção e exploração da marina da praia do Toco". Para habitação e escritórios foram destinados 41.620 m2; hotelaria, 36.000 m2; comércio 16.9280 m2; lazer 4.450 m2; marina para 412 lugares; estacionamentos para 2000 lugares. Área edificada acima do solo: 99.510 m2. Área edificada abaixo do solo: 70.000 m2. A previsão de custos da obra rondava os 390 milhões de euros.
Em 2008 a proposta da Câmara era mesmo para avançar já no ano seguinte. Lembro-me de pertencer à vereação que contestou esta megalomania. A principal figura foi a Drª Violante Saramago Matos. Em acta foi deixada uma extensa nota baseada nos seguintes artigos do PDM:

Artº 86º:
1. As praias são sistemas naturais costeiros, constituídas por formas de acumulação mais ou menos extensas de areias ou cascalhos, de fraco declive, limitadas inferiormente por linhas de baixa-mar (...) representando áreas de grande sensibilidade ecológica e paisagística.
2. As praias constituem zonas non aedificandi.
Artº 87:
1. As arribas são sistemas naturais costeiros, constituídas por formas particulares de vertente costeira abrupta ou com declive forte, em regra talhadas em rochas coerentes pela acção conjunta de agentes morfogenéticos marinhos, continentais e biológicos, representando áreas de grande sensibilidade ecológica e paisagística que necessitam de ser preservados, juntamente com as suas faixas de protecção adjacentes.
2. As arribas e faixas de protecção adjacentes constituem zonas non aedificandi.

Em função desta posição "Caiu o Carmo e a Trindade". Tenho presente os comentários feitos pela maioria política, cujo presidente lidera hoje o governo regional. Pois bem, passados cerca de catorze anos, a obra ainda bem que não foi concretizada. Vem agora o governo, através da Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais, eleger para Maio, o Toco, como o geossítio do mês. Fica-me a pergunta: o que pensa o Presidente do Governo desta situação em função das suas posições aquando da sua presidência da Câmara?
Pessoalmente, ignorante na matéria, não tenho a menor dúvida que todo o funchalense, ou melhor, todo o madeirense reconhece que aquela zona que se estende até ao Garajau é de um recorte lindíssimo que a natureza brindou. Olhamos e gostamos até porque identifica a cidade a leste. Mas não basta isso. Foram os técnicos, os especialistas em várias áreas, que definiram o que consta nos Artigos 86º e 87º do PDM.
Ilustração: Arquivo pessoal a partir do estudo apresentado. Clique para ampliar a foto.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

43 ANOS DEPOIS... RESPEITEM OS ELEITORES


Ontem, a Câmara Municipal do Funchal anunciou um investimento calculado em 70 milhões visando a reabilitação urbana, depois de vários estudos realizados por uma equipa liderada pelo Arquitecto Paulo David. O DN-Madeira titulou "Programa Arrojado". Hoje, o PSD vem falar de uma "febre de mostrar trabalho (...) a cinco meses das eleições (...) o que significa, sublinham, "show-off’ político". O mais interessante disto é que ainda na passada semana, o governo foi à Ribeira Brava e a Machico anunciar mais de 12 milhões de investimentos. Mas aqui parece que tudo é normal e, portanto, não existem promessas a "cinco meses das eleições". 



Pior, ainda, se a Câmara paga a dívida deixada que atingiu os 105 milhões de euros, reduzindo-a substancialmente e sem contratos-programa com o governo, logo é criticada porque não fez obra. Então, a pergunta que fica aos olhos do cidadão, talvez seja esta: se lá tivessem continuado, como pagariam a dívida aos fornecedores e, simultaneamente, fariam investimento em obras públicas?
Quarenta e três anos depois de Abril é tempo do discurso político não assentar em paleio insustentável e sem deixar rabinhos de fora! É tempo dos políticos se consciencializarem que lá foi o tempo dos eleitores comprarem gato por lebre. O exercício da política faz-se, no poder, através do cumprimento dos programas sufragados e, na oposição, através da fiscalização e de um grande sentido propositivo. Tudo o resto cansa.
Ilustração:  Google Imagens.

PARA QUE TODOS TENHAMOS PRESENTE A LUTA DE HÁ 131 ANOS


Apesar da sucessiva perda de direitos, convém ter presente o que pretendem os senhores do Mundo! 


INFERNOS NÃO FALTAM


Fátima dá uma imagem do catolicismo português que não corresponde à reforma desencadeada pelo Papa Francisco. Falta-lhe ser o centro da nossa evangelização.

Um artigo de Frei Bento Rodrigues O.P.
Jornal Público

1. Pesadelos do Inferno, evidências do Purgatório e tristezas do Limbo faziam parte da paisagem religiosa da minha infância. As Alminhas do Purgatório habitavam em dois nichos na minha aldeia. Suscitavam devoção e reciprocidade: “Vós, que ides passando, lembrai-vos de nós que estamos penando.” As pessoas lembravam-se e, para tudo o que precisavam, a elas recorriam, sabendo que aliviavam as suas penas. Em favor delas não podiam fazer nada, mas, quando invocadas com promessas cumpridas, eram uma fonte de graças para todas as ocasiões. Não desempregavam Santo António ou S. Bento da Porta Aberta, mas estavam mais à mão. As esmolas que recolhiam serviam para mandar dizer missas pelas mais abandonadas.
Eram Alminhas pintadas. Um dos nichos ficou muito estragado e foi pedido a um habilidoso de muitas artes, que periodicamente passava por lá, para o repintar. Perguntou: querem ver as Alminhas a irem para o céu ou a continuarem no Purgatório? É claro, a irem para o céu. Veio um Inverno rigoroso e a pintura desapareceu. O pintor não aceitou a queixa acerca da má qualidade das tintas. Tinham ido todas para o céu.
O Inferno era outra história. Por tudo e por nada, uma mãe zangada com os filhos (ou até com o gado), juntamente com um palavrão, exclamava: metes-me a alma no Inferno! Não era grave. Grave, muito grave, eram os sermões de preparação para o “confesso”: quem não confessasse, com todas as circunstâncias, os pecados mortais e morresse nessa situação, ia direitinho para o Inferno. A alma caía num lago de fogo, atiçado por uma multidão de diabos feios e maus e nunca mais de lá saía. O relógio infernal repetia “sempre, nunca”: aqui entraste, aqui ficas e daqui nunca sairás!
O Inferno era eterno, mais eterno que o infinito amor de Deus que nada podia fazer contra essa Instituição. O diabo tinha vencido o Anjo da Guarda e o próprio Deus.
Para as pessoas de bom senso, não havia lenha para tanta eternidade nem alma que aguentasse tanto fogo! Um bom caminho para a descrença: um deus que fabrica tais enormidades é inacreditável.
O Limbo, nem triste nem alegre, para onde iam as crianças que morriam sem baptismo, era o além mais povoado, não passava de um eterno aborrecimento. Bento XVI encerrou-o sem protestos.
2. Voltei a ler as Memórias da Lúcia de Jesus. O que diz acerca do Inferno não excede o que também eu ouvi em criança: “Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros.” [1] Como sugestão para um filme de terror, não está nada mal. Diz a Lúcia que a Jacinta perguntava: “Porque é que Nossa Senhora não mostra o inferno aos pecadores? […] Às vezes perguntava ainda. Que pecados são os que essa gente faz para ir para o inferno? Não sei, talvez o pecado de não ir à Missa ao Domingo, de roubar, de dizer palavras feias, rogar pragas, jurar. E só assim por uma palavra vão para o inferno? Pois! É pecado. Que lhes custava estar calados e ir à Missa? Que pena que eu tenho dos pecadores, se eu pudesse mostrar-lhes o inferno!” [2]
Passando da Terceira para a Quarta memória, há revelações curiosas. “Então Nossa Senhora disse-nos: não tenhais medo, eu não vos faço mal. De onde é vossemecê? Sou do Céu. E que é que vossemecê me quer?, lhe perguntei. Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora, depois direi quem sou e o que quero. Depois voltarei aqui uma sétima vez. E eu, também vou para o Céu? Sim, vais. E a Jacinta? Também. E o Francisco? Também, mas tem que rezar muitos terços.
“Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco, eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com minha Irmã mais velha. A Maria das Neves já está no Céu? Sim, está. Parece-me que devia ter uns 16 anos. E a Amélia? Estará no Purgatório até ao fim do mundo. Parece-me que devia ter 18 a 20 anos. Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores? Sim, queremos. Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.” [3]
3. Nossa Senhora mostrou que era uma pessoa muito organizada e pouco supersticiosa com o dia 13. Estou um bocado desapontado com a pouca originalidade das suas revelações e pedidos. Por tudo o que li, parece-me que os Pastorinhos levaram para os locais do seu pastoreio o que rezavam em família, o que aprendiam no catecismo e nas pregações. Deviam ser crianças bastante impressionáveis. A revelação mais extraordinária é, também, a mais incrível: não bastando à Amélia ter sido violada, vir de Nossa Senhora a afirmação de que ficaria no Purgatório “até ao fim do mundo”, é de mais. Isso não se faz!
A edição crítica das Memórias de Lúcia de Jesus, as investigações históricas já realizadas e em curso, vão oferecer um panorama da vida e religiosidade da freguesia de Fátima que irão atenuando os delírios acerca destes fenómenos nomeados como aparições ou como visões.
O que mais falta não é só a revisão crítica da pastoral católica da época. Muitas das suas concepções alojaram-se na história de Fátima. Desamparada, em Portugal, de uma prática crítica de reflexão teológica até ao Vaticano II, e até muito depois, Fátima dá uma imagem do catolicismo português que não corresponde à reforma desencadeada pelo Papa Francisco.
Falta-lhe ser o centro da nossa evangelização, como veremos.

[1] Lúcia de Jesus, Memórias, Edição crítica de Cristina Sobral, Fátima 2016, pp.186-187.
[2] Ib., pp. 188-189.
[3] Ib., pp.230.