sábado, 6 de maio de 2017

NA VÉSPERA DE UMA DECISÃO


Anda uma grande parte dos senhores da Europa com as calças na mão, em função do que se está a passar nas eleições francesas. No essencial, é a má consciência que transportam. Incapazes de fazerem um mea culpa por tantas e tantas situações absolutamente lesivas dos interesses mais básicos dos povos, eles que, alegremente, geraram as condições políticas, económicas e financeiras favoráveis ao descalabro (não esqueço a história dos "copos e mulheres" de Jeroen Dijsselbloem), eles que tudo quiseram padronizar e controlar, impondo as suas regras através dos armadilhados Tratados, eles que de forma conluiada permitiram que as diversas troikas espezinhassem, eles que continuam a triturar a liberdade, a autonomia dos povos e o direito a definirem o seu futuro no quadro da diversidade responsável, eles que criaram as condições para que a extrema direita e os populismos exacerbados crescessem, apresentam-se, agora, claramente aflitos com o desfecho em França. Multiplicam-se em contactos e em discursos denunciadores de pânico e de aposta no mal menor. O discurso de ontem de Jean-Claude Juncker, cheio de promessas, foi um evidente sinal de angústia.


Não nego a minha preocupação, na pátria da "Liberté, Égalité, Fraternité" (1789-1799), pela possibilidade deste acto eleitoral vir a colocar, no Palácio do Eliseu (as sondagens de ontem dizem que não), uma candidata que transporta o fermento que poderá deixar a Europa de pantanas. Não desejo isso, mas também não alinho na conversa de Emmanuel Macron, pois tudo leva a crer que é mais do mesmo. Será um "petit" Holland de braço dado com as políticas dominantes, ontem lideradas por Durão Barroso e agora por Jean-Claude Juncker. Parece que estou a vê-lo (Macron), logo na primeira semana, a assinar o ponto, ajoelhado frente à conservadora Merkel. Preferia outras soluções, defensoras da unidade europeia, catalisadoras de um novo tempo que recolocasse os princípios e os valores de uma União de valores partilhados. Não tolero uma UE de directórios, subtis ou descarados, que impõem os seus ditames em tantos sectores e áreas de actividade, conducentes à perda do poder de decisão dos países e ofensivos, até, da própria identidade dos povos. Ora, se o discurso de Macron não traz no seu bojo qualquer sentimento de esperança em uma mudança estrutural, o de Marine, que não esconde ao que vem, preocupa-me e de que maneira! Tenho presente os enganos das sondagens. Quem diria, por exemplo, que Donald Trump venceria Hillary Clinton, após vários estudos de opinião? Quem diria que o Brexit seria inevitável? Mas aconteceu. Em França existe essa probabilidade. Muito remota, mas existe. É sensível um generalizado descontentamento em vários sectores da sociedade, o medo está presente apesar de dizerem que a vida tem de continuar, as políticas de restrição dos direitos sociais são ofensivas da tal "liberdade, igualdade e fraternidade", os escândalos e a corrupção são evidentes, portanto, existe ali, em sentido figurado, um cocktail molotov quase perfeito que poderá "incendiar" a Europa fazendo-a desmembrar. Agora ou, caso tudo continue igual, em uma situação delicada daqui por cinco anos. Seja qual for o resultado, o sentimento que tenho é que a fratura na sociedade existe e factura pode vir a caminho. O que será muito grave face aos apetites imperialistas que estão desenhados e identificados, que se marimbam para a paz e para os valores comuns.
Não sou francês, daí que nada tenha em me posicionar por este, por aquele ou pelo mal menor. Os franceses que decidam. Só que esta angústia tem culpados. E que culpados!
Ilustração: Google Imagens.   

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