quarta-feira, 7 de junho de 2017

THERESA MAY NA SENDA DE AZNAR?


Francisco Louçã, in Público

06/06/2017)

Vale a pena olhar para Espanha por estes dias que correm. Na economia, uma nova vaga pode derrubar o Popular, o banco Opus Dei, que seria então o primeiro banco europeu a ser “resolvido” já de acordo com as ameaçadoras regras da União Bancária, ou seja, com confisco de depósitos. Na política, Pedro Sanchez ganhou as eleições no PSOE, contra o aparelho e contra o El Pais, e promete oposição a Rajoy, em concorrência ou aliança com o Podemos de Pablo Iglesias.


Mas é Theresa May, primeira-ministra britânica, quem antes de todos devia estudar com atenção a história recente de Espanha e, em particular, o episódio da derrota impossível da direita, então conduzida por José Maria Aznar, em 2004. Aznar estava há oito anos no poder, tinha maioria absoluta, as sondagens anunciavam vitória esmagadora, a oligarquia mediática desprezava os adversários. Era um dos grandes do mundo: com Barroso e Blair, fora às Lajes apoiar Bush e iniciar a invasão do Iraque. E foi derrubado pela viragem surpreendente nas eleições, logo depois de ter tentado aproveitar um atentado da Al Qaeda, mentindo sobre os seus autores, para obter ganhos internos. Foi demasiado evidente, fracassou, perdeu as eleições.
Esse ataque foi de dimensão dificilmente comparável com o que ocorreu em Manchester ou agora em Londres, mesmo que as motivações fossem semelhantes e a desumanidade seja indistinguível. Mas a forma de gestão política de uma crise de segurança, que atinge a pessoa comum que se passeia na rua, ou as crianças e adolescentes que saem de um concerto, essa deve ser analisada com atenção. É uma difícil mas também rara oportunidade para os governantes, ainda mais em campanha eleitoral, e May nem fingiu que não queria aproveitar o momento para reforçar a sua imagem de liderança política depois de semanas de perda. Aznar, no seu tempo, fez ainda um pouco mais, deformou as informações para enganar a opinião pública, faltavam poucas horas para o voto. Só que esses momentos estão naquela fronteira invisível que é gerada pela emoção: um pouco mais é demais e o jogo político depende de como é sentida a credibilidade do governo. Aznar perdeu tudo e May poderia seguir o seu caminho.
As probabilidades ainda a favorecem, mesmo que nestas vésperas do voto a diferença entre Conservadores e Trabalhistas já seja reduzida. Lembremo-nos, no entanto, da evolução desta espantosa campanha: há duas semanas May tinha quase 20% de vantagem e a imprensa era unânime, Corbyn é um “activo tóxico”, vai conduzir o Labour a uma “derrota histórica”, é “demasiado radical para vencer eleições”. A vitória esmagadora dos Conservadores foi festejada um pouco cedo demais, agora instalou-se a dúvida e não será por acaso que um homem de direita descobre que, afinal, May é uma continuidade de Thatcher (e de Blair, que foi o herdeiro de Thatcher), o que pode levar o país a mais problemas.
Ora, o que virou o jogo eleitoral foi o debate sobre os programas dos partidos e o que querem fazer no governo. Quanto a critério democrático, não está mal. O contraste, aliás, foi a chave do sucesso de Corbyn: no seu manifesto propõe a nacionalização dos correios, dos caminhos de ferro, da água e da distribuição da energia, a criação de um novo banco público e a recusa da venda de um banco nacionalizado (o Royal Bank of Scotland, um dos maiores do mundo), e ainda a manutenção da propriedade pública de duas cadeias de televisão. Os Conservadores de May, pelo contrário, prometeram prosseguir o curso da privatização e dos cortes nos serviços públicos, a receita que já conhecemos.
Pode um programa socialista, moderado como este, ganhar as eleições? Pois pode. Mas ganhar eleições não basta, é preciso governar e, no passado, os trabalhistas fracassaram em duas grandes ocasiões: em 1945 e em 1966. Para mais, o bom senso dirá que, com o Brexit e o peso da finança globalizada, a situação é ainda mais difícil agora.
Em todo o caso, que um partido contrarie o consenso de que Macron é hoje o exemplo mais exuberante – e continua a prometer que a sua primeira grande medida será facilitar os despedimentos – e que demonstre que um programa de nacionalizações pode mobilizar amplo apoio popular, isso sim é um sinal de como o mundo pode girar.

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