segunda-feira, 24 de julho de 2017

DISCURSOS SEM QUALIDADE


Há políticos que ainda não perceberam que as suas intervenções, mesma aquelas durante as quais o povo se diverte entre a espetada, a poncha e o croquete, exigem um mínimo de qualidade. Parece que falam para pacóvios ou para quem, como por aí se diz, anda a tirar documentos para estúpido. O povo já não é isso, não é o de 74, de 80 e mesmo de 90. O povo já não engole tudo quanto dizem de cima do palco. Nem do púlpito, como outrora acontecia! No meio da sua humildade, olha, observa e diz lá para com os seus botões: vais ter! Ora, fiquei estupefacto quando ontem escutei palavreado solto de arrepiar e que espremido nada deita. Entre Passos, Miguel e Fafá, a cantora parece que, ainda assim, foi a melhor.


O de lá, com total amnésia, pegou no microfone e deu três tiros que fizeram ricochete e atingiram-no. Falou do hospital, dizendo que o “povo da Madeira” merece esta infraestrutura (merece ou tem direito?), que lamentava o atraso do governo da República nesta matéria e esqueceu-se, por um lado, que esta é uma história que vem, no mínimo, com avanços e recuos, desde 2001, e que esteve quatro anos como PM e nada resolveu. Mas, ali, foi capaz de dizer que com ele no governo já havia novo hospital. Espantoso. Hoje, sabe-se que, pelo menos, existe uma garantia de comparticipação de 50% nacional. Adiante. Falou do Banif, mas não assumiu as suas responsabilidades quando, muito antes da resolução imposta pelo Banco de Portugal (20.12.2015), não se lhe ouviu uma palavra de preocupação, muito menos de intervenção. Pior, ainda, quando sublinhou que a República está a exigir à Madeira uma taxa de juro superior à da República pelos empréstimos feitos: "A República estar a exigir à Madeira mais do que paga ao FMI é profundamente injusto". É injusto, pois é, mas qual o governo que a impôs e quem é que, sistematicamente, tem levantado essa questão? Não disse, mas o povo, genericamente, sabe.
O de cá, não sei como comentar. Quando de um discurso sobressaem, apenas, que a oposição é uma "geringonça incompetente" que "paralisou, desmanchou e abandonou os concelhos", que é só "conversa fiada", de "promessas", de "mentiras", que a "cidade (Funchal) estagnou", que tudo o que vê é "publicidade paga e sorriso Pepsodente" e que "esta vereação (Funchal) é a pior desde D. Manuel", parece-me que está tudo dito. Os eleitores sabem que não foi por mero acaso que, há quatro anos, sete das onze autarquias foram à vida e que os então eleitos levaram estes últimos quatro anos a pagar monstruosas dívidas criadas e pregadas no tecto, estrangulando uma parte da economia local. E que o actual governo, ao contrário do que acontecia, bloqueou contratos-programa com as autarquias que não seguiam a sua orientação política. Este tipo de discurso já não pega, porque existe maior capacidade de interpretação dos dados trazidos pela comunicação social e porque a oposição, também, tem um discurso muito mais estruturado e acutilante. O tempo de ganhar todos os concelhos e a esmagadora maioria das freguesias já pertence à História. O quadro político é hoje substancialmente diferente. Os "gatinhos" já abriram os olhos e, portanto, conquistaram um sentido de orientação que lhes permite decidir segundo a sua consciência. Quando votam não estarão "dependentes" nem da espetada, nem da poncha, nem do vinho a copo!
Ilustração: Google Imagens.

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