domingo, 30 de dezembro de 2018

HAVERÁ MOTIVOS PARA UMA ACÇÃO DE GRAÇAS?


Não faz o meu jeito retirar frases do contexto que as encerra. É perigoso, desonesto para além de induzir os leitores em erro. Portanto, não vou pegar nas palavras do Senhor Bispo Carrilho e conduzi-las ao meu moinho de escrita. O que está em causa é mais profundo, é a Mensagem de quase nulo significado. E tanto que há para dizer, do ponto de vista social, económico, financeiro e cultural de forma contextualizada com a Palavra. Fixei esta frase: "(...) importa, sem dúvida, conservar e renovar no seu verdadeiro espírito e significado as belas tradições natalícias (...)". Pois, em abstracto, qualquer pessoa concordará, mas não podia e não deveria ter ficado por aí e por mais algumas coisitas de somenos importância. Lamento dizê-lo, mas já não consigo aceitar generalidades, muito menos banalidades das hierarquias políticas e religiosas. Continuo a querer aprender! Quando repetem, das duas uma, ou não têm nada para dizer ou tentam esconder alguma coisa. Porque não interessa, certamente.


Devia o Senhor Bispo António Carrilho ter lido os últimos dois textos do Senhor Padre José Martins Júnior, publicados no blogue "senso&consenso" e aí encontraria o fio condutor de uma intervenção com a qualidade necessária aos tempos conturbados que estamos a viver. Deliciei-me a ler tais textos e, certamente, a muitos teria sido importante escutar a Palavra cheia de Mensagem. Eis um excerto: "(...) É de ver e pasmar a atenção dos mirones para as originalidades e ‘originalidezes’ de cada espécime de presépio, do mais rude ao mais pintado. E ninguém se lembra de interpelar aquela Criança, para fazer a única e necessária pergunta: “Que vens fazer aqui, Menino?.. Que é que te fez nascer por estas bandas?... Qual é o teu projecto de vida”?. (...)" E a partir daqui tanto, mas tanto teria para dizer aos fiéis. 
O Senhor Bispo prefere a repetição que, de uma forma exemplar, o DN-Madeira, tem já algum tempo, publicou, comparando, julgo que dez anos de homilias, de onde concluiu que elas são "repetitivas". Percebo que não tenha tempo nem queira ler o Padre José Martins Júnior. Nem esse nem o Padre José Luís, nem outros que com exímia coragem e frontalidade escrevem e falam do exemplo de Cristo. Ainda por cima, o Padre da Ribeira Seca continua, com a "benção" do Senhor Bispo António Carrilho, vergonhosamente suspenso "a divinis". Percebo a dificuldade de pedir o perdão reconciliador, mas se a tal Justiça Divina existe, o Senhor Bispo Carrilho e os que o antecederam têm continhas a ajustar. E percebo também o porquê de, subtilmente, naquela frase inicial que deu o mote a este texto, ter falado em "conservar e renovar". Repito, não quero descontextualizar, mas, eu diria que, politicamente, fugiu-lhe a língua para a sua verdade: manter os que vieram em nome da "renovação" e, por isso, subliminarmente, que Deus os "conserve". As palavras são traiçoeiras e exprimem, muitas vezes, aquilo que trazemos em pensamento. As palavras não são neutras. 

Seja como for, amanhã, no Te-Deum de Acção de Graças, com os eleitos perfilados frente ao altar, agradeça, Senhor Bispo, aos governantes, o facto deste povo catalogado de "superior", constituir a segunda região mais pobre do País. Agradeça-lhes um Sistema de Saúde que mantém 60.000 actos médicos em lista de espera (DN de hoje). Agradeça-lhes o facto da Madeira apresentar taxas que nos envergonham no abandono e insucesso escolar (65% da população da Madeira, com 15 ou mais anos, tem apenas até o 9º ano de escolaridade). Agradeça-lhes o facto de, passados tantos anos, não ser possível pagar, através do Orçamento Regional, um complemento de pensão a quem dispõe de prestações geradoras de pobreza. Agradeça-lhes terem produzido gente que enriqueceu à custa da Autonomia e da degradação dos direitos de quem trabalha. Agradeça-lhes a existência de quase 30% de pobres. Agradeça-lhes a produção em massa de gente deprimida. Fale disso e, por favor, não fale de fé e caridade! Até porque Cristo não tem nada a ver com os desmandos políticos. 

Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Endereços dos artigos do Padre José Martins Júnior:
http://sensoconsenso.blogspot.com/2018/12/natal-da-decepcao.html
http://sensoconsenso.blogspot.com/2018/12/devotos-destruidores-de-todos-os.html

sábado, 29 de dezembro de 2018

UM ABRAÇO PARA 2019


Tenho andado arredado de tudo. Intencionalmente, por vários motivos, parei. Tenho razões para isso. Afinal, o ano, apesar de passar cada vez mais rápido, ainda assim comporta muitos dias para escrever as múltiplas preocupações que o dia-a-dia vai suscitando. Umas, absolutamente banais, outras que a todos nos toca e preocupa.
Estamos a poucas horas de um novo ano. Não faz o meu jeito enunciar, transcrevendo, a lengalenga dos habituais votos. Deixo aqui apenas um: que a saúde acompanhe todos quantos por aqui passarem. Isso é o melhor que se pode aspirar e desejar. E a todos envolvo em um ABRAÇO fraterno, tal como exprime esta fotografia que fiz no final de ano de 2016. Como foi tirada ficou. Quis aquele momento do disparo que ficasse registada uma espécie de abraço a uma figura indefinida. Designei-a por "abraço de anjo", embora não o seja, muito menos com as asas que o fogo se encarregou de colocar! 
Ilustração: Arquivo próprio.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL PARA TODOS


Quando chego a este período do calendário, sinto um misto de alegria e de profundo desencanto pela humanidade. Todos, certamente, sentirão o mesmo pelas mais variadas razões. Desde a falta de quase tudo até à doença; desde as múltiplas desestruturações à vida fútil até à violência gratuita. Vivo na incompreensão de uma dialética onde a inteligência, a descoberta e as necessidades estão em permanente oposição sem uma saída plausível. No meio disto, sinto a alegria por um Cristo que deixou uma Mensagem que me invade e que se os Homens tomassem à letra as Palavras então ditas, não teríamos tantas assimetrias locais, regionais e mundiais. Dos conflitos à fome, da guerra aos refugiados. 



Disse o Papa Francisco: "O Natal é a desforra da humanidade sobre a arrogância, da simplicidade sobre a abundância, do silêncio sobre o tumulto". É, sem a menor dúvida. Para quê tanta arrogância e para quê tanto dinheiro nas mãos de tão poucos, quando incontáveis milhões vivem excluídos nas margens da sociedade. De uma ponta à outra do planeta, convenhamos! 
É este desencanto que me prostra. Essa inteligência ao serviço do mal, o paradoxo da incapacidade para não querer entender as pessoas e os benefícios da paz, os incríveis jogos de política subterrânea, a busca incontrolável da riqueza à custa do trabalho escravo ou a paulatina destruição do planeta pela ganância imediata que impede de ver a sustentabilidade ambiental. Tudo isto, quando a vida é finita e a morte espreita ao virar da esquina, ficando tudo aí.
Não sou uma pessoa sem esperança. Acredito no conflito e na reprodução, isto é, que ao tempo turbulento poderá se seguir uma nova ordem mundial, através do grito dos povos, que conduza a uma nova Economia, uma Economia do povo para o povo, a uma justa distribuição da riqueza assente em novos equilíbrios políticos. Difícil, muito difícil, é certo, mas pior será embarcar nesta onda que tudo varre e que não permite uma faísca que ilumine um novo olhar sobre um caminho que não assente na caridade. 
Neste Natal, mais do que as palavras ditas em um qualquer Te-Deum, dos rotineiros votos expedidos aos amigos porque são de bom tom, mais do que os almoços e jantares tradicionais, mais do que visitas de apresentação de cumprimentos entre entidades públicas, mais do que Missas do Parto, ponchas, licores, broas, bolos de mel e de tantas iguarias em todo o Mundo, finalmente, mais que o fogo que ilumina os céus de todos os espaços, entre passas e promessas, fica a minha renovada esperança no Homem enquanto centro de todas as preocupações.
Feliz Natal para todos os Amigos que por aqui passarem e que 2019 valha a pena em todos os sentidos.
Ilustração: Arquivo próprio.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

BATER EM QUEM ESTÁ KO!


Nota prévia
Não conheço, pessoalmente, o Dr. Armando Vara. Apenas sei que teve um percurso no PS e que a Justiça condenou-o a uns anos de prisão efectiva. Que esgotou todos os recursos e com a sentença transitada em julgado, provavelmente, dará entrada em um estabelecimento prisional.

Obviamente que se diz inocente. Não sei e não me interessa saber. Se todos os patamares da Justiça consideraram-no culpado, então aí o problema é de consciência do próprio. De resto não conheço o processo, tampouco sou jurista para, permitam-me a expressão, mandar aqui uns palpites. Porém, anteontem, a "procuradora" da SIC, Manuela Moura Guedes, confesso que não a tenho como jornalista de excelência, ao comentar a figura do cidadão Armando Vara disse que se tratava de uma figura "sinistra". 


Quero admitir que se tratou de um exagero ou deslize de linguagem. Não lhe ficou bem. Eu não conseguiria dizer aquilo de um cidadão mesmo com o grau de culpabilidade a que o Tribunal chegou. A palavra tem uma carga, pelo menos para mim, tão negativa que a coloca junto de um inveterado criminoso, muito para além do quadro da corrupção. A palavra transporta um grau de perversidade, de pavor, de uma maldição e de uma propensão para o mal assustador, que julgo de todo inadequada. Manuela Moura Guedes não o classificou de figura "sinistra" por ter lateralidade "esquerda" ou por ter mau aspecto, outrossim, quis maltratar, amesquinhar e aviltar publicamente. Deveria ter-se circunscrito ao acórdão judicial, divulgando-o e comentando-o, aspecto totalmente diferente de entrar em comentários grosseiros de cidadã para cidadão. Já há dias, referindo-se à Assembleia da República, a comentadora da SIC defendeu que os deputados são como rebanhos: "tudo vota em rebanho, mesmo quanto não estão lá". Ela sabe porque por lá passou no grupo parlamentar do CDS! Para além de uma outra situação, ali para os lados de Belém, aquando de uma prova de atletismo, tendo deixado registado na sua página de facebook: “(…) Só me apetece atropelar estes bandos de viciados (…)”.
No caso Vara cheirou-me a vingança pelos maus momentos que efectivamente passou (e também provocou com o seu ar altivo), quando era pivot do Jornal Nacional. Só que uma pessoa não se enaltece e se torna reconhecida quando regressa ao ecrã e sente o "poder" de pensar "agora é a minha vez... estão fritos". Alguns comentadores são assim. Que mal existe nisso, perguntar-me-ão alguns. Pois, apenas digo, tenho bom remédio, mudo de canal, porque não gosto da agressividade, sobretudo quando um sujeito está no chão, irremediavelmente KO e continuam a lhe bater!
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

VOLTA DIABO ESTÁ PERDOADO


In blog, O Jumento, 17/12/2018) 

Durante algum tempo a extrema-direita fina apostou tudo na vinda do diabo, Passos Coelho meteu na sua grande e brilhante cabecinha que o mafarrico vinha em setembro de 2016 e os seus crentes andaram um ano em regime de sabática política, convencidos de que voltariam aos gabinetes governamentais em finais desse ano, para depois pedirem mais um resgate que lhes permitiria governar mais uma legislatura sem respeitar regras.



O mafarrico não veio e durante muitos meses ficaram convencidos que de era uma questão de tempo. Para se entreterem enquanto o dito não aparecia foram-se entretendo com incêndios ou, na falta de melhor, com o Metro de Lisboa. O disparate chegou ao ponto de a Assunção Cristas propor que Lisboa tivesse mais estações de Metro do que paragens de elétricos.
Mas o mafarrico não apareceu. O Passos Coelho percebeu que o melhor seria procurar emprego porque para esperar pelo regresso ao governo o melhor seria ter onde se sentar, logo alguém achou que o seu brilhantismo intelectual não merecia menos do que uma cátedra e o pobre homem lá foi dar cabo da credibilidade académica do currículo dos alunos do ISCSP.
Sem diabo a alternativa acabou por ser ficarem com o diabo no corpo e apareceu então a destingida bastonária dos Enfermeiros, rapariga próxima do agora catedrático. Começou com greves por tudo e por nada, mas como tanta greve estava a ir ao bolso dos enfermeiros teve uma brilhante ideia: porque não uma greve paga que matasse dois coelhos, (o catedrático do ISCSP e o deputado do PAN que me perdoem), com uma cajadada? Dá-se cabo do SNS e mandam-se centenas de clientes para os privados ao mesmo tempo que os enfermeiros das cirurgias metem férias pagas generosamente por gente anónima!
Tem sido um regabofe. Os enfermeiros fazem greve, os juízes vão pelo mesmo caminho e agora é o Marta Soares, que depois de ter traído o seu amigo Bruno de Carvalho aparece a exigir o apuramento de responsabilidades políticas num acidente com que nada tem que ver. Pelo meio ainda houve um assalto a um paiol que até deu direito a um memorando sobre o mesmo, devidamente enviado por gentis militares.
Durão Barroso chegou ao poder ajudado pela queda de uma ponte. Passos Coelho foi ajudado por uma crise financeira. O PSD parece estar a ficar viciado em empurrões para chegar ao poder.

SÓ SE FOR PARA UMA RESSACA...



Passei por uma superfície comercial que integra uma farmácia de qualidade indiscutível, se considerarmos o espaço e o atendimento. Só que, no "pórtico" de entrada, dei com esta preciosidade: "A receita certa para este Natal". Por baixo uma jovem que me parece ter dores de cabeça! Achei interessante e desajustado. Mas a pergunta que me assaltou, talvez com algum humor, sendo um local particularmente destinado a medicamentos, portanto, a quem está menos bem de saúde, interroguei-me se existe alguma receita certa para o Natal? Só se for para uma ressaca.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

HIPOCRISIA SERVIDA AOS IDOSOS


Bem gostaria que não existisse, no Natal, qualquer tipo de refeição, para novos e anciãos, para pobres e excluídos e para todos os que lá aparecem porque desempenham funções políticas. Seria sinal que a sociedade, mesmo com as suas margens, tinha muitos dos seus dramas solucionados. Ficaria, apenas, o convívio, a Festa! Infelizmente, a sopa e o pratinho são servidos para matar por um dia as carências sentidas nos outros dias do ano. É claro que existem o Banco Alimentar, a Cáritas, a Cruz Vermelha, as paróquias e tantas instituições que vão colmatando a pobreza sentida em uma região que é a segunda mais pobre do país. O que me leva a este desabafo é o sentimento de quadros ridículos e enervantes, porque ofende a dignidade das pessoas, ao oferecerem um convívio com uma mão e aproveitá-lo para saltar para o palco e realizar um comício político. Repugna-me.


Na Calheta/Madeira, como habitualmente, a Câmara Municipal reuniu 1200 idosos e a páginas tantas ouve-se uma voz a falar  em nome dos presentes: "(...) Não vamos atrás de ilusões, não vamos atrás de fotografias e imagens bonitas, queremos pessoas sérias, competentes, responsáveis, que façam aquilo que se comprometeram com a população”. Pegando nas palavras, o presidente do governo, não perdeu a oportunidade: "temos alguma folga orçamental" em 2019, por isso, em Janeiro ou Fevereiro "vamos anunciar medidas de apoio à população mais idosa, seja a nível dos apoios para medicamentos e para óculos seja para o suplemento às reformas". Repugna-me. 
E porquê? Pela proximidade de eleições. Fico pelos medicamentos e pelo complemento de reforma ou pensão. Há que anos, mais de vinte, que o PCP na Assembleia Legislativa e, muito mais tarde, o PS, apresentam propostas no sentido de contemplar as pensões mais baixas e todos os mais vulneráveis, com um complemento regional. No início do século começou, salvo erro, por € 50,00. Todas essas propostas, sucessivamente apresentadas, de orçamento em orçamento, foram chumbadas pelo PSD-Madeira. Porque não havia necessidade e porque o governo, a Segurança Social e tantas instituições colmatavam algumas situações precárias. Pela oposição chegou a ser apresentado o exemplo da Região Autónoma dos Açores, não apenas relativamente ao complemento de pensão, mas também o COMPAMID (Complemento para a Aquisição de Medicamentos pelos Idosos), proposta de 2008, julgo do CDS, aprovada nos Açores, por unanimidade, e que garante "50% da retribuição mínima mensal garantida em vigor na Região".
Isto é, o governo da Madeira levou mais de vinte anos para aceitar a pobreza na Região e a necessidade de esbater as necessidades sentidas por mais de 70.000 pessoas. E agora, com os calos a doer face ao descrédito em que anda, resolveu abrir os cordões à bolsa e prometer, prometer e prometer, até óculos,  talvez, para que não se enganem no quadradinho da seta! Repugna-me.

A política não é isto. Cumpram o dever para com os mais vulneráveis, ofereçam, comemorem o Natal, mas não utilizem o palco para promoção pessoal e de grupo. Distribuam os cabazes com discrição, sem fanfarronices. Fica feio. Evitem a presença física como quem dá uma esmola a troco de um voto. Deixem a hipocrisia sentada a um canto da porta, entrem com dignidade e saiam ligeiros distantes dos holofotes, porque não lhes fica bem. Lembrem-se que a solidariedade não tem dias nem épocas, é todo o ano, através de actos e não de atitudes caritativas. Fujam do Banco Alimentar, instituição que, durante anos, nunca aceitaram como uma necessidade, mas também porque se trata de uma instituição independente da Igreja e dos partidos. 

A partidarite desmiolada é tal que, na mesma semana que apelam à participação (regresso) de Alberto João Jardim, o presidente da Câmara da Calheta falou da "grave crise" que este governo herdou, mas que o presidente do Governo, Miguel Albuquerque "recuperou financeiramente a nossa Região, encetando um programa de governo e uma série de compromissos para com população", pedindo, por isso, um aplauso aos 1.200 idosos que estiveram no pavilhão dos Prazeres - Fonte DN-Madeira. 
Ora, perante tanta hipocrisia, repugna-me!
Ilustração: DN/Madeira.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Pela dignificação do exercício da política


É um erro generalizar tomando o todo por alguns que se comportam de uma forma que a sociedade não aceita. Há sempre bom trigo e joio. Aliás, todos nós estamos sujeitos a convenções e códigos sociais que determinam o comportamento certo do errado. E aqui não pode, em circunstância alguma, haver lugar a subterfúgios ou fugas às situações praticadas. Ademais, a sociedade não aceita que se mascarem as situações para que tudo fique na mesma. O problema de tudo isto é que há uma evidente degradação dos comportamentos éticos, isto é, dos princípios e dos valores, os tais que não se divulgam, sublinho, mas que influenciam o colectivo. O resvalar tem sido suave mas contínuo e, por isso mesmo, cada vez mais sensível aos olhos da população. Há uma significativa perda de credibilidade, porque tem sido concedido espaço à desmedida ambição de pessoas, cultural e socialmente, medíocres. A qualidade anda fugidia e quem a tem, perante o quadro que se vive, foge a sete pés, mantém-se no silêncio, na reserva e até distante do comentário, entenda-se exposição pública, com algum receio de ser menos bem aceite e até medo que a perseguição surja na primeira esquina. 

Resultado de imagem para caciquismo

É notória uma ausência de cidadania plenamente assumida, independente de posicionamentos de base ideológica, que, pela qualidade das pessoas, a mediocridade política seja colocada no seu devido patamar. Não se trata de uma questão elitista, pois nutro tanto respeito pelo trabalhador mais humilde, indiferenciado, como tenho por quem se apresente com altas graduações académicas e profissionais. Não é isso que está em causa, até porque há bons e maus em ambos os blocos. A questão é outra, é a de, pela participação activa dos cidadãos, não seja permitido o caciquismo, os jogos de interesse pessoal, a corrupção dos valores e que os patamares mais altos da hierarquia política possam ser atingidos por pessoas, a quem lhes falta tudo ou quase tudo, o conhecimento, não me refiro apenas aquele derivado do percurso académico, mas sobretudo a credibilidade política nos planos da economia, das finanças, dos vários sistemas, inclusive, o cultural e, por via disso, a aceitação social.
Há pessoas que têm um qualquer curso e utilizam-o como recurso! Outras, têm o nome de família e pouco mais e vão longe por isso mesmo. Outras, fazem o percurso sinuoso das organizações partidárias, que conhecem os militantes como as suas mãos e que utilizam esse facto para atingir lugares que, no quadro de uma democracia adulta e exigente, jamais teriam hipóteses de lá chegar. Ainda outros, movidos por desmedidas ambições tentam subir os degraus quatro a quatro e mor das vezes espalham-se. Outros, finalmente, tornam-se reféns da teia. Desta forma sumária, o poder está pejado de instalados que se tornam senhores da "tabanca", até porque, entre um emprego de € 800,00 e um de € 3.000,00 fica a ideia que vale tudo por uma robusta folha de salário. A competência, essa é outra história.
Portanto, nada de estranhar que os que se encontram no vértice estratégico da pirâmide hierárquica, em situação extrema, sintam que, afinal, o poder não está nas suas mãos. Ele está capturado por uma espécie de "bandoleiros" com peso no interior da estrutura. Já não digo que sejam aves com a mesma plumagem (no plano político, muitas vezes são), mas o líder fica sujeito e obrigado aos comportamentos impostos pelos sequestradores políticos. Quando isto acontece é o fim de uma organização/instituição.
Um recente caso político pode servir de exemplo à reflexão que aqui estou a discorrer. A prova que a hierarquia está capturada, é o facto de transformar um caso político e público, provado pela apresentação de "desculpas", em um caso de natureza privada. Não é. Se assim fosse, generalizando, o crime por violência doméstica seria, também, um caso privado. E não é. Se, neste hipotético caso, a sociedade critica e os Tribunais podem, até, como medida de coação, afastar o criminoso da vítima, no primeiro, politicamente, o mais correcto seria determinar o seu afastamento da instituição pelos danos de imagem que dos actos resultaram. Só que a hierarquia não pode quando está aprisionada por uma história de largas cumplicidades. Imagine-se se a situação em causa envolvia um deputado na República?
Ora, o sentido mais puro do exercício da actividade política não é o de servir-se ao invés de servir uma causa. E o povo está farto dessa promiscuidade, de ser enganado, de assistir a golpes palacianos, de observar jogos de poder que interferem com as políticas que desejam ver implementadas, de presenciar que uma  coisa é o que dizem, outra o que fazem, o povo está farto de conflitos estéreis e de ver que os seus representantes se comportam de uma forma absolutamente desprezível. Não é que deles, políticos, esperem a imagem de anjos com asas, mas que transmitam segurança, qualidade, palavra e assunção dos erros quando os cometem. E, na política, quando as situações são publicamente graves só há um caminho: o regresso ao emprego de origem. Não basta um pedido de desculpas.
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Reflexão, da minha autoria, publicada no blogue www.gnose.eu

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

NÃO PODE HAVER CONTEMPLAÇÕES. INQUÉRITO E DEMISSÃO


Ontem, teci, aqui, considerações negativas sobre um deputado do PSD-M que teve um comportamento inadequado, face à responsabilidade que advém da sua função para a qual foi eleito. Passadas umas horas recebi um vídeo, onde é mostrado um deputado do PS-M simultaneamente, vice-presidente do partido, em imagens que apenas digo serem chocantes quando tornadas públicas. Não vou aqui descrevê-las. O próprio youtube suspendeu tal vídeo.

Ora, face a um caso destes, não há desculpas. O presidente do PS-M só tem um caminho possível: abrir um inquérito sumário, averiguar, levar o assunto à Comissão de Jurisdição propondo a sua demissão. Entretanto, deve o deputado em causa deixar a Assembleia Legislativa da Madeira e todos os cargos que ocupa.
Da minha parte, hoje mesmo, expedirei para o PS-M o meu cartão de militante, com quotas pagas até Dezembro de 2018, solicitando a sua anulação, enquanto não forem tomadas as devidas atitudes por parte da direcção do partido, ao abrigo, entre outros, do nº 2 do Artigo 13º dos Estatutos "(...) conduta que acarrete sério prejuízo ao prestígio e bom nome do partido".
O exercício da política tem de ser pautado pelo rigor, pela decência e por comportamentos adequados. E por aqui fico.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O PÉSSIMO EXEMPLO DE UM DEPUTADO


Há situações que não sei como defini-las: se se trata de um acto de momentânea irresponsabilidade, se de arrogância pela função que desempenham ou de duvidosa formação pessoal. Pior ainda quando um acto é cometido por um deputado que deveria ser o exemplo máximo de conduta irrepreensível. Só que isto é nacional, tantos os casos já julgados ou em curso que envolvem políticos que desonram a democracia representativa e, portanto, a dignidade das funções que desempenham(ram). 

Agora foi um deputado que fugiu a uma operação stop, mas foi apanhado e detido com "1,87 gramas de álcool por litro de sangue", segundo o DN-Madeira.
As perguntas que desde logo emergem são estas: como é possível uma figura destas manter-se na Assembleia após aquele acto? Como pode ser representante do povo que o elegeu? Como poderá, doravante, falar sobre o que for? 
Para além da mancha, conhecida a forma como muitas vezes os debates ocorrem, no mínimo, pode ouvir de uma bancada: "tás com os copos?".
É que não basta pedir o levantamento da imunidade parlamentar, quando está em causa o péssimo exemplo dado. Ser deputado não é um emprego, é sim um temporário serviço público à comunidade, é ser exemplo para os demais quando fala ou se comporta na sua vida social. Ou não será assim?
O exercício da política está muito abaixo dos patamares comportamentais exigíveis. Do passado ao presente, embora com contornos e níveis diversos e são tantos os maus exemplos de arrepiar, a Assembleia Legislativa da Madeira tem sido um feudo, uma propriedade para alguns ali colocarem os amigos a quem não podem dizer NÃO, os cúmplices, aqueles a quem devem favores políticos, os facilmente subjugáveis, os medíocres, os caciques locais, gente que a maioria do povo não os conhece e que, depois, recebem em troco do voto as atitudes que essa mesma maioria repudia.
Julgo necessário uma transformação no sentido da dignificação do primeiro órgão de governo próprio. É preciso que a Assembleia seja composta por pessoas impolutas, socialmente credíveis, respeitáveis e de qualidade. Assim, NÃO!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

MEMÓRIA SÓ APARENTEMENTE CURTA A DA SENHORA DEPUTADA


"(...) Cada orçamento diz muito sobre a visão do proponente do orçamento e das suas propostas de alteração, sobre o país, a região e a cidade. Sobre as suas prioridades para a nossa sociedade (...)" - Rubina Berardo, deputada do PSD/Assembleia da República. Vale a pena ler o artigo da Senhora Deputada, publicado na edição de Sexta-feira do DN-Madeira, se fizermos um esforço de trazer em memória o que foram, por um lado, os anos de governação de Pedro Passos Coelho, por outro, os anos de governação de Alberto João Jardim que deixou os madeirenses a pagar uma dívida inicial superior a seis mil milhões de euros. 


De Pedro Passos Coelho fica a nota que todos os orçamentos apresentados foram, por esta ou aquela razão, considerados inconstitucionais. E que o povo sofreu, emigrou, deixou a formação académica e ficou mais pobre. Foram anos de bebedeira política ao serviço de outros interesses que não os do País. Só mais tarde, ficou a certeza que havia uma alternativa a esse tipo de governação tresloucada baseada na austeridade imposta externamente. Gente que vendeu o país, privatizando quase tudo, esquecendo-se que fomos vítimas, mais do que os erros de governação interna, de uma significativa crise internacional, de origem externa, que varreu tantos países. Não fomos só nós que ficámos em sérias dificuldades. Até fizeram vingar a ideia que "vivíamos acima das nossas possibilidades". 
E assim, no caso português, foram anos de roubo e de saque às pobres carteiras dos portugueses que, aliás, ninguém esquece. E nessa altura, que eu tenha presente, não me lembro de qualquer atitude da Senhora Deputada contra o esvaziamento do país, o pavoroso medo de seguir a primeira notícia de um telejornal, tantas vezes de anúncio de mais uma taxa, mais um imposto, mais um corte nos salários e pensões, ou, então, contra essa tenebrosa troika. Pois, eu sei, a memória de alguns é curta. De onde concluo que poderia eu agora escrever exactamente a síntese da Senhora Deputada: "cada orçamento diz muito sobre a visão do proponente do orçamento (...)". 
A Senhora Deputada sabe, porque estou certo que tem memória de elefante, que um espremeu os portugueses até ao tutano, não admitindo qualquer alteração ao percurso definido; o outro, por aqui, fez o que quis e entendeu não ouvindo ninguém, esbanjou em obras de prioridade duvidosa, ao ponto da corda continuar no pescoço dos madeirenses. Ainda assim, a Senhora Deputada fala de "palavra dada, palavra honrada"? Dá jeito dizer isso, compreendo. Dá jeito passar ao lado do que prometeu Pedro Passos Coelho durante a campanha eleitoral e o que veio a fazer na prática (ouvir aqui)E dá jeito comparar algumas decisões aqui tomadas com outras no plano da República, escondendo tantas que os governos da República tomam com reflexos bem positivos para a população local. Dá jeito! 
E hoje, como se isso fosse possível, os mesmos que não se opuseram às políticas de Pedro Passos Coelho/Paulo Portas, que pouco se ralaram com o sofrimento do povo, integram a orquestra que aplaude e exige ao actual governo, rapidamente, a reposição de todos os direitos perdidos. Querem tudo de um país que se tenta reerguer dos erros do passado e das políticas da dupla Passos/Portas. Discursam e ou escrevem julgando que a oportunidade política assim exige. Mais parecem sindicalistas e não deputados!
Oh coerência, por onde andarás? 
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 9 de dezembro de 2018

HÁ QUEM NÃO APRECIE O CONTRAPONTO



FACTO

O Pedro Ramos, secretário regional da Saúde disse, ontem, que “a Ordem dos Médicos politizou-se e descredibilizou-se”. 


COMENTÁRIO

Quanto enganado está. Todos os organismos que servem os cidadãos são POLÍTICAS. Podem é não ser partidárias. Relativamente à OM ainda bem que faz política, pois significa que tem pensamento acerca do direito constitucional à Saúde. Todas as suas opções são políticas, caso contrário a instituição não cumpriria o seu mister. Não se trata de estar com ou contra, mas a de estudar, analisar e propor caminhos. É isto que a credibiliza, que a torna não uma instituição amorfa, mas uma parceira que persegue o seu fim último constante na Lei: "Contribuir para a defesa da saúde dos cidadãos e dos direitos dos doentes". E se assim é, a sua natureza é POLÍTICA. 
O problema é que o Dr. Pedro Ramos, certamente, gostaria de não sentir o "desconforto" de outros pensarem de forma diferente. Não sei, mas parece que o irrita. Do meu ponto de vista, não se trata da OM fazer oposição partidária a um cargo desempenhado por um médico de profissão, mas de assumir posições diferentes e livres que só poderão ajudar a que o sistema, de norte a sul, do Minho ao Corvo, funcione melhor. É um problema de DEMOCRACIA, não se trata de um problema partidário. E se alguém é político e partidário é o secretário regional da Saúde. Quanto à Ordem dos Médicos apenas é POLÍTICA, como qualquer outra instituição que toma opções; não é, com toda a certeza, partidária. Nem aqui nem lá! Até por Estatuto.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Paris a arder ou uma Europa em cacos?


A minha Amiga Doutora Ana Benavente, que foi secretária de Estado da Educação, tem, na fotografia da página do facebook, uma tarja onde se pode ler "Quem semeia guerras colhe refugiados". O essencial desta frase, com algum jogo nas palavras, pode aplicar-se a tantas situações. Relativamente aos acontecimentos de Paris, de Bruxelas e de outros desencantos por toda a Europa, poderia dizer-se: quem semeia a injustiça social colhe coletes amarelos. É isto. 


Não sou especialista em assuntos europeus, mas não sou nem cego nem surdo! A televisão traz-nos as imagens e o relato do desconforto das populações. Daí a minha interrogação: Paris está a arder ou a Europa está em cacos? Paris e Bruxelas, e aqui vamos, é a consequência de políticas que atentam contra a dignidade dos povos. Neste processo, os directórios europeus andam, sorrateiramente, calados, quando as suas cristas ficam bem empinadas para impor as famigeradas regras constantes dos Tratados. Como disse o banqueiro, lá pensarão... "ai aguentam, aguentam"! Só que, por aí fora, crescem os movimentos contra a agressão aos direitos mais elementares que espezinham os trabalhadores, enquanto florescem as riquezas, muitas mal explicadas ou fruto do favorecimento. Podem colocar 90.000 polícias na rua, podem lançar gaz lacrimogéneo, canhões de água, podem fazer centenas de detenções, podem punir a voz do povo, porém, estou certo que não conseguirão travar esta onda de coletes amarelos, que é muito mais profunda do que o preço dos combustíveis. Nesta luta, o único aspecto condenável é a violência e a destruição. Tenhamos presente que apesar de ser condenável ela é consequência de quem, desde há muito, anda a semear a injustiça social. E, repito,

Quem semeia a injustiça social colhe coletes amarelos!

Em qualquer sector, não há um passo político que não seja antes questionado se o mesmo é ou não apadrinhado pelas instituições europeias, em uma claríssima perda da própria vontade dos povos, dos seus governos e das identidades nacionais. Há um inaceitável espartilho que os senhores desta Europa impõem contrária aos interesses comunitários. De uma Europa dos povos, vivemos hoje em uma Europa de alguns. Da Europa da livre circulação de pessoas e bens e da Europa unida pela paz, caminhamos para uma Europa desavinda, de progressivo afastamento (atentemos no Brexit) e até de "afrontamento" cuja posição italiana relativamente ao seu Orçamento de Estado, constitui uma inequívoca demonstração de que ela já não corresponde aos interesses dos países e, portanto, dos seus povos.
Enquanto cidadão português e europeu, desejo uma Europa dos cidadãos, uma Europa das Regiões, uma Europa que respeite as identidades nacionais, uma Europa de paz, de solidariedade entre os povos e de irmandade entre as nações. Desejo uma Europa de justiça social. Rejeito uma Europa subordinada a directórios políticos que impõem vontades políticas minoritárias, desrespeitosa da vontade dos países, uma Europa que divide o bolo para o qual todos contribuem, mas, logo a seguir, com paradoxal decência, oprime. Desejo uma Europa construída para o bem-estar, rejeito uma Europa que aqui venha ditar o que eles querem que nós sejamos.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

BISPOS TEODORO E CARRILHO CONFESSEM-SE E PEÇAM PERDÃO


A história da suspensão "a divinis" do Padre José Martins Júnior é conhecidíssima. É uma história que envergonha, desde logo, os três bispos após o 25 de Abril (Santana, Teodoro e Carrilho) e, por extensão, a própria Igreja da Madeira. Há, neste processo, um silêncio cúmplice de muita gente, em um evidente favor ao poder político, que acaba por ser desprestigiante para uma Igreja que fala e fala de amor e de misericórdia. Ora bem, digo eu, marimbem-se para as questões do Direito Canónico, e se, em tempo útil, o padre Martins não reclamou para as instituições superiores aquela não sustentada pena eclesiástica, imposta por um bispo em fúria, tenham a coragem de o julgar (o inalienável direito ao contraditório) ou verguem-se e peçam perdão pelas atitudes tomadas nos anos 70. Só é grande quem é humilde e isto vale para pessoas ou instituições. É execrável que andem há quarenta anos a triturá-lo, contra a vontade do povo da Ribeira Seca, a perseguir um Homem de enorme sensibilidade e humanidade. Tomara que muitos líderes seguissem o seu exemplo. Ainda ontem ouvi uma entrevista com o especialista em assuntos religiosos, Manuel Vilas Boas, jornalista da TSF que, a determinada altura, enalteceu: o Padre José Martins Júnior "colocou-se no sítio certo... ao lado do povo".


Parabéns à SIC pelo programa "Vidas Suspensas", uma oportunidade de todo o país conhecer a história e o pensamento de um Homem da Igreja, vítima do poder subterrâneo e submisso dessa Igreja, como disse Vilas Boas, "que não tem a mesma sensibilidade" para estar junto do povo. E é verdade. É sensível um genérico desajustamento entre a Palavra e a prática. 
É claro que, do meu ponto de vista, o Padre Martins Júnior não tem a sua vida suspensa. É um Homem culto, característica que falta a muitos da hierarquia católica. Está consciente dos valores que o guiam e da missão que abraçou e desenvolve. O Povo gosta dele. Quem está no lado errado são aqueles que deram o primeiro passo, que atiraram a primeira pedra, negaram a Verdade, rasgaram a História e contrariaram a Palavra, por egoísmo e serviço ao poder político-partidário. Com isso ganharam umas migalhas. Parafraseando José Martins Júnior, a hierarquia reza, não pensa!
Martins Júnior foi suspenso porque "era comunista", alegou o bispo Santana. E que fosse! O bispo Santana referiu que até "sabia o número dele" no PCP! Ao ponto que chegou a mesquinhez. Martins Júnior é, sim, e tais bispos sabem, um Homem da solidariedade que serve a Igreja, que serviu o País na guerra colonial, serviu a Região enquanto autarca e deputado e até serviu o sistema educativo. Um Homem que não se deixou acorrentar aos tortuosos caminhos de um poder político castrador do pensamento. É um Homem de pensamento LIVRE. E isso teve e tem os seus custos.
Mas se fosse um homem vinculado a um partido político de direita, aí sim, teria sido abençoado e colocado no altar dos interesses da Igreja. Tudo isto deixa-me triste pelo Amigo, mas sobretudo pela triste imagem que a Igreja oferece. Aos bispos Teodoro e Carrilho, confessem-se, não se refugiem no Direito Canónico, peçam perdão, tal como o Papa Francisco o fez por outros motivos e circunstâncias. Respeitem mais de 50 anos de sacerdócio do Padre Martins Júnior. O Bispo António Carrilho deveria ter presente que muitos têm consciência das suas palavras relativas ao Bispo Francisco Santana, quando falou das suas qualidades humanas e da sua "lucidez e coragem" por ter defendido "intrepidamente as suas ovelhas" (05/03/2011). Está tudo dito. Se o problema nunca foi resolvido foi por conivência e plena aceitação dos interesses político-partidários. 
Da minha parte fica aqui a confissão: estou cada vez mais próximo da Palavra de Cristo e cada vez mais distante dos homens que a violam. Porque uma coisa é ter Cristo como orientador dos princípios de vida; outra, é ser um católico vítima de uma instituição que se vende aos bocados. E por aí não vou.

NOTA

Ver texto do Padre Martins Júnior no seu blogue senso&consenso.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

VIOLÊNCIA NA INSTRUÇÃO PODE SER CASO PATOLÓGICO


Portugal estava envolvido na guerra colonial. Fiz, tal como milhares, serviço militar obrigatório. A preparação para a dureza da guerra, à excepção dos Comandos de cariz muito mais exigente, decorria durante cerca de seis meses, três de recruta e três de especialidade. Fui atirador de infantaria. Passei por Mafra, Caldas da Rainha, Santarém, Funchal e daqui fui mobilizado para a Guiné Bissau. Aqui chegado, "despacharam-me" para a muito pouco agradável Guilége na fronteira com a Guiné Conacry. Seguiram-se meses de isolamento e tormento nas matas ao comando de um pelotão açoriano. Depois, uma passagem por Nhacra, Bissau e, finalmente, o regresso. Vivi momentos tensos que obrigaram a uma enorme amizade e solidariedade. Hoje, Portugal não está em guerra, apenas participa em missões de paz, algumas complexas, é certo. Apesar do quadro ser totalmente diferente, vejo militares morrerem nos Comandos e até para ingressar na GNR fomos há dias confrontados com actos de selvajaria na actividade de instrução. Ininteligível.


Em tempo de guerra, falo da minha experiência, nunca fui vítima de qualquer situação que excedesse aquilo que considero normal na instrução visando a hipótese de um teatro de guerra. Como é possível, interrogo-me, morrer durante a instrução, por uma violência gratuita? Estes casos, muito mais do que envolvê-los em inquéritos e penalizações, deveriam ser exaustivamente analisados a outros níveis. Afinal, o que se esconde por detrás das personalidades que actuam, recorrentemente, de uma maneira feroz, demonstrando comportamentos desajustados e absolutamente desequilibrados? Quais as perturbações de personalidade que definem os traços comportamentais de todo o quadro de responsáveis pela instrução? Não existirá nos casos que têm sido públicos razões de natureza patológica? E sendo assim, qual o eventual grau de angústias pessoais que conduzem alguns a ultrapassar o limite imposto pelo bom senso e respeito pelos outros? Não deveriam os instrutores serem submetidos a exames médicos de avaliação do seu estado mental? Pessoalmente, penso que sim.
No serviço militar e não só, tratamos os outros por "camaradas". E o significado desta palavra significa companheiro, amigo, pessoa tolerante e compreensiva. Se aquilo é ser "camarada", mesmo em um quadro de instrução, vou ali e já volto!
Ilustração: Google Imagens/JN     

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

LÁ VAI O TEMPO DO QUERO, POSSO E MANDO...


"(...) Será sempre muito difícil dialogar com ele e com ele nunca dialogaremos, porque ele está envolvido politicamente, e como a OM é uma entidade que não pode estar envolvida politicamente, o SRS não vê motivos para se reunir com o Dr. António Pedro, a não ser que ele queira reunir connosco numa perspectiva política, representando um partido político diferente (...)" - Palavras do Dr. Pedro Ramos, secretário da Saúde, publicadas na edição de ontem do DN-Madeira, pág.28/29.

Fiquei estupefacto. Como é possível? Vou por partes. 
Desde logo, quer o Dr. Pedro Ramos quer o Dr. António Pedro são cidadãos investidos em determinadas funções da sociedade. Acresce um pormenor de alguma relevância: o Dr. António Pedro foi ELEITO pelos seus pares, enquanto que o Dr. Pedro Ramos foi NOMEADO pelos seus pares partidários. Legitimidades distintas. Logo, o Dr. Pedro Ramos, secretário, contrariamente ao que referiu, é um claríssimo adepto (não sei se militante) do PSD que governa a Região, enquanto o outro representa, na Madeira, a Ordem dos Médicos, instituição política mas não partidária.  O que dirá o Dr. Pedro Ramos do presidente da OM ao nível nacional, face às críticas que tem vindo a fazer? Portanto, não faz qualquer sentido que um governante assuma, publicamente, que não dialoga com o presidente da secção regional da OM, quando, por um lado, ambos são POLÍTICOS, por outro, só o secretário é, simultaneamente, político e PARTIDÁRIO. Isto significa que, pelo menos parece, que tudo estaria bem se o Dr. António Pedro fosse dirigente ou militante do PSD. Só que o pensamento único há muito acabou!
O Dr. Pedro Ramos esquece-se que a democracia não é aquilo que deixou transparecer, mas o regime que os cidadãos querem viver. E isso implica a luta entre pensamentos contrários (mesmo que não partidários) e não de julgamentos precipitados que leve a colocar os outros como os maus da fita. Em democracia podemos não estar de acordo, mas devemos aceitar as posições dos outros. E sendo política a matéria do sector da Saúde, porque a todos diz respeito, constitui um erro bloquear o debate com aqueles que não pensam da mesma forma que o secretário partidário.
Neste quadro, publicamente, nunca li, não escutei e nem me interessa o posicionamento partidário do presidente da Ordem dos Médicos, se é social-democrata, socialista, democrata-cristão, comunista, independente, enfim, seja o que for. Desejo é que ele e a sua equipa seja POLÍTICA, que defenda, com bom senso, os princípios que emanam da OM e que, sem contemplações ou cumplicidades, desbrave caminhos que possam conduzir à solução dos dramas que o sector da Saúde vive.
Todos os nossos actos são políticos, podem é não ser partidários. Daí que, a posição do secretário da Saúde seja completamente desadequada, até porque ofende todos os elementos da direcção da OM. As instituições devem discutir politicamente os assuntos, é para isso que existem, com todas as suas convicções e de forma sustentada, mas isso não significa que, no frente a frente, em primeiríssimo lugar, estejam separadas por razões ideológicas e partidárias. E o que o Dr. Pedro Ramos deixou transparecer, repito, é que "quem não está comigo, contra mim está". E isso não é aceitável, até porque os lugares não são eternos e, amanhã, poderá ter de negociar com qualquer outro colega que dele discorde. É por estas e muitas outras que o sector da Saúde está como está.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 2 de dezembro de 2018

DELÍRIOS POLÍTICOS


"A Autonomia não é algo que seja irreversível" (...) a nossa Autonomia está sempre sob ameaça porque vocês vivem num Estado que é centralista que quer voltar a mandar na Madeira". Palavras do presidente do governo da Madeira, dirigida aos alunos na Escola Secundária Bispo D. Manuel Ferreira Cabral, em Santana.


Este é o síndrome que explica desnorte, não ter nada de importante para dizer, fraqueza política, superficialidade, seguidismo passadista, concomitantemente, a manutenção daquela falida ideia que tenta espalhar o medo junto da população. Os inimigos de lá que andam sempre à espreita de tramar a Madeira, são capazes, até, a  qualquer momento, de rasgar a Constituição da República para garantir a hegemonia do Estado! Ora, isto não tem qualquer sentido e acaba por ser muito grave quando dito frente a jovens em formação. Mas a música é sempre a mesma, aprenderam-na e repetem-na, com um coro afinado (tem dias) que vem falar,  através de alguns "historiadores do reino", das centenas de anos de secundarização dos insulanos. Foi, mas já não é assim. Aliás, quem anda sempre a olhar para o passado não tem nada para oferecer para o futuro. Do meu ponto de vista, é perda de tempo desenterrar tais períodos, alguns muito cinzentos, porque os contextos e as realidades actuais são sobremaneira diferentes. As regiões são autónomas, dispõem de órgãos de governo próprio, existe um povo (600.000 nas duas regiões e muito mais do que isso nas comunidades) e existe um permanente escrutínio de vários partidos políticos e da comunicação social, para além do Presidente da República e das instituições europeias. Logo, é gratuito dizer que a Autonomia é reversível. Nem que a República virasse Monarquia, tal a simpatia já demonstrada pelo presidente do governo!
O presidente do governo deveria centrar-se na governação, afastar tais espantalhos e explicar aos jovens a Região que somos, os graves erros cometidos ao longo de 40 anos e a responsabilidade que todos os jovens têm no sentido de criarmos uma terra onde, no futuro, exista mais justiça do que direitos. Deveria ter explicado as razões da colossal dívida contraída, a necessidade de todos trabalharem no sentido de superar as desigualdades sociais e a pobreza que atinge quase 30% da população (vide edição de ontem do DN-Madeira, página 3, que explica que a Madeira tem mais 10% em risco de pobreza que a média nacional), taxa em linha com os estudos do falecido Professor Doutor Alfredo Bruto da Costa que foi um dos grandes especialistas mundiais nos estudos sobre a pobreza. E deveria ter aproveitado aquele momento para dizer aos estudantes que existe uma relação directa entre a formação académica e a pobreza. Tudo o resto são delírios políticos.
Ilustração: Google Imagens.  

sábado, 1 de dezembro de 2018

NINGUÉM PÕE ORDEM NAQUILO...


Falta de educação, responsabilidade política, tolerância, humildade, eu sei lá... Vi este vídeo, pensei em publicá-lo, recuei e só hoje me decidi por um breve comentário. E se tive reservas foi por entender que os péssimos exemplos não devem ser mostrados pelo efeito que possam ter. Lembro-me do ex-presidente do governo da Madeira ter rasgado o Diário de Notícias, julgo eu, nas vésperas de um rali Vinho Madeira, frente às câmaras e com muitas pessoas na sala. Esse momento gratuito e infeliz, jamais pensei voltar a assistir, muito menos na Assembleia, agora, perante um documento apresentado pelo grupo parlamentar do PCP.



Este Deputado do PSD constitui um claríssimo erro de casting político. Mas ele não é o culpado. Depois de 40 anos de Autonomia, de tantos enxovalhos, de tantas ofensas, de tantas garotices, de tantos discursos grotescos e de tantos momentos hostis que não abonam em favor do primeiro órgão de governo próprio, não há palavras que qualifiquem, primeiro, a atitude, depois, quem o colocou na lista de candidatos àquele assento. 
Este senhor não fala, grita; não discursa com saber, antes é um promotor da intolerância. Aprendeu na escola que o conduziu ao exercício da política. Como é que isto é possível e que ninguém, o líder do partido ou o líder do grupo parlamentar se desmarque e trave a continuada onda da ofensa. Designam isto por "renovação", quando isto, repetidamente, não é mais do que a manutenção das atitudes ridículas e desprezíveis. 
Este vídeo deveria ser passado nas escolas, nas sessões de "cidadania", como um exemplo a não repetir porque contrário aos valores da Democracia, do debate sério, empenhado, profundo, frontal, mas respeitoso no quadro de uma sã vivência. O argumento político ali nada vale(u), porque o importante foi (é) ser arruaceiro e gritar, gritar muito! Como se as pessoas, os eleitores, apreciassem o discurso de tasca. E fico por aqui, do tanto que me  apetecia escrever. Sou totalmente contra uma Assembleia palco de situações que a todos nós cidadãos compromete.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O SENTIDO DAS PRIORIDADES NUMA REGIÃO CHEIA DE PROBLEMAS


Nota prévia

Este é, apenas, um desabafo em um espaço de debate muito controverso, porque o futebol profissional está cheio de exacerbadas paixões. Espero que compreendam a minha posição, porque respeito todas as outras.

Nunca entendi a necessidade dos dois principais clubes da Madeira disporem de estádios próprios para a prática do futebol profissional. Outra coisa são os espaços para treino das suas equipas. Dir-me-ão que é legítimo no quadro dos seus projectos, rivalidades e ambições. Pois, é verdade. Porém, em uma Região muita pequena, limitada, pobre, assimétrica e dependente, onde os sucessivos governos não foram capazes de reduzir a carga fiscal prevista no Estatuto (20/30%), se o bom senso prevalecesse e não as cumplicidades, digo eu, seria muito mais compreensível que os dois actuassem na mesma “sala de visitas”. Exemplos não faltam em outros países, por exemplo, em Itália, onde o Inter de Milão e o A. C. Milan, desde há 70 anos, utilizam o mesmo estádio (Giuseppe Meazza, 80.074 espectadores). Entretanto, recentemente, o Milan e o Inter chegaram a acordo para trabalharem juntos no projeto de um estádio "moderno e de vanguarda". O San Siro data de 1926. Apesar de rivais, li que estão juntos na repartição dos encargos. 


Mas, por aqui, a pobreza tem destas coisas, os principais clubes já foram buscar às paupérrimas finanças regionais muitos e muitos milhões e soube-se, há dias, pela boca do secretário da Educação que o contrato-programa relativamente ao estádio dos Barreiros, obrigará a uma novas tranches até prefazer os 20.000.000,00 de Euros assumidos pelo governo. Questionado, o secretário engonhou, mediu as palavras ao jeito de “não me comprometa”, mas lá foi dizendo a verdade ou parte dela! Seja como for, muitos milhões a juntar a muitos outros milhões. E porquê? Porque, ao longo do tempo, por ausência de racionalidade nos investimentos, o governo cedeu às pressões e os dois acabaram por ter a sua casa, um terceiro também e até a Associação de Futebol foi contemplada. Depois, neste caso justificando-se, por toda a Região o que não faltam são os espaços para a prática do futebol. 
Falo de racionalidade no investimento público, porque, sendo os clubes instituições privadas, ninguém lhes pode limitar o direito de construírem os seus estádios através de recursos próprios com apoios muito pontuais. É evidente que foi a febre inauguracionista e a ausência de planeamento que assim ditou. Nada a fazer, porque o mal está feito. Agora, é arcar com as consequências, porque só a manutenção das infraestruturas deve colocar com os cabelos em pé de qualquer direcção!
Eu que raramente escrevo sobre desporto, muito menos sobre a utilização de uma modalidade desportiva utilizada no âmbito profissional (para muitos o desporto envolve um outro conceito) fico perplexo como é que, politicamente, se entrega(ou) de bandeja a empresas (as Sociedade Anónimas Desportivas, SAD’s, são empresas) tantos milhões em total desigualdade relativamente ao restante tecido empresarial. Só é inteligível por ausência de rigorosas prioridades políticas, económicas, financeiras e culturais, medo das clientelas partidárias e, sobretudo, porque a Região, embora condenando o que se passava (e ainda se passa) em alguns países, optou por ter um “desporto pertença do Estado”. Não há clube que não seja, coloco esta expressão entre aspas, “propriedade da Região”, tal é o grau de dependência financeira. 
Projecto de um novo estádio nascido da iniciativa do Inter/Milan.
Só nesta última semana os milhões jorraram (vide edição do DN de 22.11.2018, página 22). E isto é o que se sabe. Curiosamente, ou talvez não, por estes dias, um treinador, que muito considero, gritou que a sua modalidade dificilmente teria futuro uma vez que a pirâmide de praticantes está totalmente invertida. Isto é, a SAD funciona no quadro do alto rendimento, mas são poucos os que praticam a modalidade nos escalões mais jovens. Significa, utilizando a expressão do meu Amigo Arlindo Oliveira, que “estamos vestidos de "smoking", mas descalços”! E o que se passa nessa modalidade é muito semelhante a quase todas as outras, bastando para isso um olhar atento sobre a “demografia federada”. No quadro específico do desporto, a pirâmide está invertida e as prioridades também! 
A questão aqui, repito, é de racionalidade e bom senso no investimento. Também é de planeamento e de respeito pelos princípios do desenvolvimento. Um desses princípios é o da “prioridade estrutural”. Não faz sentido que o Sistema de Saúde ande com o credo na boca, tantas vezes a denunciar que corre a rapar o tacho, e o cidadão comum veja milhões a voar para satisfação de megalomanias. Da mesma forma que não faz sentido, o Sistema Educativo público andar à míngua e vermos 30 milhões serem entregues ao ensino privado, quando a obrigação de um governo é respeitar o direito constitucional à Educação pública. Da mesma forma que não faz sentido, olhar para vários exemplos de despesismo e sentir que falta dinheiro (ou má vontade) para um complemento de pensão a quem tem de viver com duzentos, trezentos euros mensais. O que acontece nos Açores! Da mesma forma que não faz sentido, estou a escrever sobre prioridades estruturais, gastar exorbitantes quantitativos, para gáudio de poucos, e não investir no desporto escolar, nessa prática que deveria ser entendida como bem cultural para a vida. Da mesma forma que não faz sentido, porque faz cair por terra a luta política, quase diária, contra “os malandros de Lisboa” (eles que paguem a factura) quando, por aqui, as opções são absolutamente discutíveis. 
Finalmente, ao invés dos governos esconderem o que, na prática, entendem como prioritário, gostaria que tivessem a coragem política, no decorrer das campanhas eleitorais, dizerem, abertamente, aos eleitores, o que pretendem fazer com o dinheiro de todos, no caso concreto, na prática desportiva e nas “empresas desportivas”. Gostaria, por extensão, de ver a reação dos eleitores e o seu sentido de voto, se conhecessem, antecipadamente, o leque das suas prioridades. 
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

"PORQUE O RICARDO MERECE"



FACTO

O vice-presidente do governo da Madeira foi à Ribeira Brava anunciar mais 17,2 milhões em obras, porque "o Ricardo merece".

COMENTÁRIO
E PERGUNTAS

O Professor Ricardo Nascimento, presidente da Câmara Municipal da Ribeira Brava é um dissidente do PSD, tendo concorrido, ganhado e destronado o partido que desde sempre governou a autarquia. Aproximando-se eleições, obviamente que, o que lá vai lá vai, e dai ser necessário um piscar de olho, ao jeito de "vem por aqui". Mas não é isso que aqui me traz. A questão é outra.
O senhor vice-presidente, na minha opinião, deveria ser menos descarado. Politicamente, não é "o Ricardo que merece", mas as necessidades do concelho que assim obrigam. É o seu povo que reivindica e, perante o quadro existente, no rateio do dinheiro disponível, cabe à Ribeira Brava um conjunto de obras, as quais, no seu conjunto valem x. "O Ricardo" é apenas um autarca como tantos outros pela Região. Será ridículo chegar a outros concelhos e repetir a mesma expressão. Espero que não o faça. Ou será que os que merecem são aqueles que estão ideologicamente próximos? 
Com algum humor, temos um vice-presidente tipo publicidade da Loreal... "porque nós merecemos!"
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A MELHOR ANEDOTA DO ANO


26/11/2018)

2018 é o ano de todos os fenómenos na política portuguesa. Impera uma espécie fábula bizarra onde a realidade nada tem a ver com o discurso, uma certa ladainha entoada à direita do espectro político que poderemos genericamente designar por "sim, mas o Governo é mau".

O desemprego cai como nunca caiu, mas o Governo é mau porque não apoia as empresas. As contas públicas estão certas, mas o Governo é mau porque as contas estão demasiado certas. O país cresce acima da média da União Europeia, mas o Governo é mau porque há países que crescem mais que nós. O salário mínimo tem subido, e vai continuar a subir em 2019, mas o Governo é mau porque o salário mínimo noutros países europeus é bem mais alto. O IRS tem baixado de forma consistente para as famílias da classe média que pagam impostos, mas o Governo é mau porque não desceu o IRC para as empresas. Passaram a ser financiados os manuais escolares para os alunos do ensino público até ao 12º ano, mas o Governo é mau porque não financia os alunos do ensino privado. Foi anunciada a abertura de concursos para a construção de mais cinco novos hospitais, mas o Governo é mau porque há outros hospitais a precisar de obras.
Esta é a lengalenga no que toca à discussão da situação económica. Mas, o mais engraçado, é a argumentação de algumas eminentes vozes da direita que tem um pouco mais de vergonha na cara e por isso não alinham na crítica fácil aos bons números da economia que tem vindo a ser revelados. Dizem eles:
- Bem, os números, HOJE são bons e positivos, mas o Governo é mau, porque podem vir a ser maus AMANHÃ se vier uma crise... bla... bla... bla!
Esta argumentação é ridícula mas reiterada. Que interessa aos cidadãos que daqui a cinco ou dez anos o país esteja numa grande crise se as suas condições de vida, HOJE, não permitirem que lá cheguem com dignidade? Enfim, adiante.
Depois, há também uma outra lengalenga de serviço. É a ladaínha "o Estado falhou, demita-se o Ministro". 
Vieram os fogos, fugiram as armas, veio a tempestade, há mortos todos os dias, roubos, assassinatos, assaltos a bancos, carteiristas à solta, atropelamentos, e agora caiu a estrada: a culpa é do Governo. o Estado falhou, demita-se o Ministro. 
Na proliferação deste discurso o CDS tem-se destacado de todas as restantes forças políticas. A Dra. Cristas, quando arenga, concluí sempre lapidarmente que o Governo é mau, o Estado falhou, demita-se o Ministro. 
Assim sendo, estaremos nós, portugueses, condenados a fenecer na apagada e vil tristeza de que falava Camões, sem rumo e sem esperança de futuro, tão mal governados que estamos a ser por essa diabólica Geringonça?
Nada disso, caros concidadãos. Ficámos hoje a saber que, num gesto largo e moscovita - agora invoco Pessoa porque só os poetas nos podem salvar... -, a Dra. Cristas se dispõe a governar-nos a todos, estando mesmo convicta de que "o CDS é a única alternativa governativa" (ver aqui). Extraordinário!
Se tudo isto não fosse um assunto sério, que tem a ver com a vida de todos nós, eu classificaria esta tirada como a melhor anedota do ano.
Eu já nem vou invocar os valores das sondagens onde o CDS - na última conhecida, há uma semana -, não tem mais que 7,7% das intenções de voto, enquanto o PS - o tal do mau Governo -, se aproxima da maioria absoluta.
Ó Dra. Cristas, é certo que o sonho comanda a vida - mais um poeta chamado a capítulo. Mas quando o sonho é desmesurado deixa de ser sonho e passa a ser alucinação e desplante, e há mesmo muito boa gente que é internada por alucinar em demasia.
Sondagens à parte, acredite ó Dona Cristas, veja se se enxerga. A maioria dos portugueses não vai votar em alguém que fez parte de um Governo que pôs o país a ferro e fogo, os pobres à míngua, as famílias às sopas, os jovens em fuga, enquanto que uma minoria vendia o país em saldos e decretava que o nosso destino como Nação era empobrecer.
Sim, ó Dona Cristas, por muito que entoe as suas ladainhas da desgraça, por muito que faça os seus exorcismos às esquerdas encostadas, o seu discurso não tem aderência à realidade, não tem futuro, pelo que já ninguém a leva a sério. Por muito que lhe custe, o futuro a curto prazo do país vai passar pelas esquerdas. Mais encostadas ou menos encostadas, elas saberão construir uma nova solução governativa.
Eu, se fosse a si, batia com a porta, ia-me embora, e dedicava-me a outras artes. Reveja-se no exemplo do Dr. Portas, seu paizinho espiritual. É que, o homem até pode ter aceite inflacionar o preço dos submarinos, mas não é burro de todo e já se foi embora há muito tempo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

EU, A JUÍZA DO INTERROGATÓRIO E O MENDES DAS CLAQUES


Ferreira Fernandes, 
in Diário de Notícias - 25/11/2018)

Num final de campeonato, o FC Porto ia a Alvalade com a possibilidade de ser campeão. O autocarro do clube parou no estádio e uma chusma de claque sportinguista correu ao varandim para insultar os jogadores portistas. Lembro-me de um dos insultados ser o Rui Barros, um jovem gentil que eu conhecera em Turim quando ele jogava na Juventus. Entretanto, a manada atropelou-se no varandim e o que era provável acontecer aconteceu mesmo. O gradeamento cedeu, dois rapazes caíram e morreram. Aconteceu em 1995 e eu escrevi, aqui no DN, uma crónica sobre o essencial do assunto: estupidez das manadas.



Quer dizer, para familiares e amigos, as duas mortes foram uma tragédia e tudo o mais mera moldura, um contexto menos importante. Para familiares e amigos, naturalmente o que contou foram as duas mortes. Se eu fosse vizinho de qualquer das vítimas, haveria de visitar a família e poupá-la-ia da minha opinião sobre as claques. Mas para quem falava publicamente do assunto - como eu, em crónica de jornal -, o mais importante de comentar era exatamente o contexto: havia acéfalos que punham em risco a sua vida e a de outros, e exerciam uma atividade bruta e sem préstimo. Era óbvio que essa prática generalizada podia levar a tragédias - como conduzir em contramão na autoestrada -, o que retirava às mortes a condição de acidente ou acaso.
Começo esta crónica assim porque quero mostrar que se pode ter uma opinião radical, como eu tenho sobre as claques - todas imbecis -, e admitir que haja outros olhares, legítimos e até comoventes. Quero dizê-lo porque uma coisa é uma coisa e outra coisa, outra. E quero dizê-lo também porque esse acontecimento trágico de 1995 é bom pretexto para se ver como as mesmas palavras ditas em situações diferentes não são as mesmas palavras. Mais uma vez, a minha ladainha preferida no jornalismo: há que saber do que estamos a falar quando estamos a falar.
Por razões que explicarei adiante, disse eu a Fernando Mendes, já então um cabeça quente da claque sportinguista, em 1995: "Você não é nada." As mesmas palavras que uma juíza agora, 2018, disse a Fernando Mendes, cabeça ainda mais quente de claque sportinguista, em 2018: "O senhor não é nada." Esta aparente coincidência, só aparente, ilustra a indecência que é a transmissão pública dos interrogatórios judiciais a detidos. Eu falei ao tal Mendes em debate televisivo e, por mais que eu despreze os chefe de claques, a conversa pública foi entre iguais. Já a juíza interrogava um suspeito, a conversa não era entre iguais. Falar-lhe daquela forma foi um abuso a um cidadão. E que alguém torne público o amesquinhamento de uma autoridade a um cidadão é ainda um maior abuso - pertence à família dos justiceiros que no faroeste enchiam de penas e alcatrão os pretensos culpados.
Em 1995, porque eu publicara a tal crónica, a SIC convidou-me a ir a um programa em que se debatiam as mortes na queda do varandim de Alvalade. Fernando Mendes apareceu a defender as claques e até a necessidade de serem subvencionadas para a sua função. Foi aí que eu disse: "Você não é nada." No futebol, prossegui, alguém é Dominguez, o futebolista que se sentava à minha esquerda, alguém é o "grande capitão", capitão da Académica e treinador, e apontei o mítico Mário Wilson, que se sentava em frente a mim, alguém é também um roupeiro, generalizei, citando a talvez mais humilde das funções necessárias no futebol. As claques eram desnecessárias.

Porque, como já disse, era uma conversa pública entre iguais, Fernando Mendes pôde lançar-me, na SIC: "Parece que está com medo, eu não lhe bato." Lá está... A juíza, com o suspeito Fernando Mendes, disse-lhe aos gritos: "O senhor não é nada... " E: "Não se atreva!" E: "Deixe-me falar!" Por seu lado, Mendes foi sempre respeitoso: "A senhora juíza..." Lá está! Aquela não era uma conversa entre iguais, e porque isso foi entendido pela parte fraca, a parte fraca baixou a bola, o que agrava o comportamento da juíza. Ela era a autoridade a falar com um cidadão suspeito, e por ela ser o que era, exigia-se da autoridade contenção no tom e nas palavras.

Isto, dos abusos judiciais nos interrogatórios, já se tinha verificado na soberba dos interrogadores com uma senhora negra, no caso Sócrates. E de forma indireta, pelo que se adivinhava de humilhação nas caras da mulher de Carlos Santos Silva, o mesmo caso, e com o ex-ministro Miguel Macedo e o ex-diretor do SEF Manuel Palos, no caso vistos gold - já somos espectadores habituais, com um ignóbil acervo de abusos para comparar. A perda das estribeiras por parte da juíza no caso Alcochete só vem revelar que a convicção se instalou entre muitos juízes e magistrados do Ministério Público: os suspeitos são subcidadãos.
Oiçam, então, esta opinião de alguém que quer respeitar a justiça portuguesa: mesmo que ninguém se lembre, o que é certamente o caso, do que eu disse naquela emissão da SIC há quase um quarto de século, senti-me obrigado a escrever esta crónica. Era-me insuportável que se confundisse o que eu disse, sobre alguém que eu desprezo, com o que aquela juíza disse sobre a mesma pessoa e foi potenciado pela agora já tornada habitual exibição pública dos interrogatórios. Ninguém de bem pode querer ser associado, nem que seja por mera e longínqua coincidência, com esses abusos.
E, já agora, quando a prática se generaliza, abusando de gente de diferentes políticas e de suspeitos de crimes tão diversos - da corrupção ao hooliganismo, passando pelos passionais - divulgando os interrogatórios sob segredo de justiça, cada vez mais rapidamente colocados nos jornais e nas televisões, não é altura de falar do negócio por trás desta história?
Sim, o mais importante é o abuso sobre cidadãos. Culpados, suspeitos, inocentes, mas todos merecedores de não serem vítimas de abusos, sim, esse o grande crime cometido nesta malfeitoria agora tornada sistemática. Mas, só por curiosidade, não seria interessante saber quem ganha reles dinheirinho para passar as gravações? Pelo menos, livrávamos-nos da ingenuidade de que alguém faz isto por alguma convicção.

sábado, 24 de novembro de 2018

SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO DEVE REPENSAR A SUA VIDINHA POLÍTICA


Consta na praça que o governante da Educação anda aflito com a situação do Professor Joaquim José Sousa, da Escola do Curral das Freiras, o docente que foi director deste estabelecimento de aprendizagem. Ele e a sua equipa, depois de um trabalho organizacional e pedagógico notável, reconhecido ao nível nacional com várias distinções, estranhamente, começou a ser perseguido ao ponto de, apesar de ganhar as eleições internas por margem folgadíssima, semanas depois, viu a sua escola pura e simplesmente bloqueada na sua autonomia e, por ridículas ninharias administrativas, acabou vítima de um processo disciplinar. A fusão da escola do Curral das Freiras com a de S. António/Funchal tem muito que se lhe diga. Já muito se escreveu e, certamente, muito estará para ser publicado. 

Mas, dizia, consta que o titular da pasta anda alarmado com a dimensão do problema, ao ponto de, por alguns canais, andar a divulgar que a culpa não é dele (secretário), mas do responsável pela Inspecção Regional de Educação e de mais uns quantos. Aliás, ele, secretário, até gosta do Professor Joaquim. 
Que coisa esquisita, pensei para mim, quando esta conversa me foi feita. Como é possível um secretário chegar a este ponto, quando, presumo, nada com certas implicações se faz sem o conhecimento do responsável pela secretaria. Ou aquilo anda em rédea livre ou existe uma tentativa de sacudir a água do capote. Isto é preocupante. 

Se isto é verdade, o secretário da Educação deve pensar na sua vidinha política. Ou toma uma atitude de humildade política, devolvendo a autonomia à escola, reintegrando nas suas funções os professores eleitos e arquivando o maquiavélico processo ou, assume que estando politicamente fragilizado, coloca o seu lugar à disposição do presidente do governo. Se é verdade, não pode é tentar culpar outros por aquilo que foi e é da sua responsabilidade.

Repito, se é verdade, deve explicar-se publicamente. Já não basta a ausência de projecto político para a Educação, ainda por cima esta alegada tentativa de querer andar entre os pingos da chuva, do meu ponto de vista, é incompreensível. O exercício da política não é uma profissão, é um serviço público prestado à comunidade, feito com rigor, projecto e muita decência.
Ilustração: Google Imagens.