domingo, 10 de junho de 2018

OS "INDIVÍDUOS DO PAÍS"


Os "indivíduos do País" são, naturalmente, os indivíduos da Madeira. Ou não será assim? A não ser que os da Madeira, na linguagem pacóvia de há uns anos, pertençam ao "povo superior". Li as declarações do secretário regional da Saúde e fiquei estupefacto. Aqui está quase tudo bem, por lá, os "indivíduos do País" não fazem "investimento", não "há contratualização", não há "redução das listas de espera", etc., o que, para um cidadão que acompanha as sucessivas peças jornalísticas, sobretudo as do Jornalista Élvio Passos, parece que o secretário vive em uma qualquer outra região. Ou ele ou eu! Ou o jornalista! Ou será que a tal "renovação" já deveria ter remetido para os arquivos da História menor essa crónica tendência para atirar-se para lá, esquecendo-se dos telhados de vidro que por aqui abundam? 


Este aspecto pareceu-me caricato. Mas ainda mais estupefacto fiquei quando o secretário criticou, causticamente, os "indivíduos do país", colegas de profissão, que são líderes de diversas instituições ligadas à Saúde, por participarem em iniciativas partidárias não afectas ao PSD. Certamente, pressuponho, que se fosse no âmbito do partido social-democrata ou do governo, tudo estaria bem.
Para mim é ininteligível que um secretário assuma que "o projecto da secretaria da Saúde é colectivo, um projecto para a população da Madeira", só sendo legítimo, deduz-se do texto, que só "o colectivo" partidário do interior do sistema possa ter opinião. E com isto tentou condicionar, interna e externamente, um princípio sagrado: o da liberdade individual. Se viver a democracia é isto, vou ali  e já volto! 
Há políticos que deveriam ter presente que, qualquer pessoa, militante ou não de um  partido, representando ou não um qualquer organismo, não perde os seus direitos de cidadania e, por isso mesmo, é totalmente legítimo e até necessário que participe na vida pública, independentemente das suas convicções partidárias. Pensar e dizer o contrário constitui uma subtil perseguição ao jeito de, "se não és por mim, contra mim estás". Esta é uma visão estrábica da democracia, denuncia receios sem fim e atentatória, repito, da LIBERDADE dos cidadãos. Colar as pessoas a partidos, rotulando-as, porque, circunstancialmente, aderem a uma conferência ou a uma mesa redonda, é perigoso e corresponde a um conceito ridículo. Até porque, as palavras ditas, paradoxalmente, voltam-se contra o secretário que disse ser "o projecto da secretaria da Saúde colectivo (...) para a população da Madeira". Ora, se é colectivo, não pertence a um grupo fechado, mas a todos.
Ademais, raramente a inovação vem de dentro dos sistemas, produz-se fora dos ambientes marcados pela rotina e pelos espaços de intervenção muito hierarquizados, burocráticos e extremamente pesados. Quando é que as pessoas metem na cabeça que não são o centro de nada e que ao nosso lado existem pessoas fabulosas?
Ilustração: Google Imagens.

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