sexta-feira, 20 de julho de 2018

GRUPO PARLAMENTAR EM "VISITAS DE ESTUDO"


O tempo é de cerveja e refrigerantes qb. Eu sei! Mas em uma Região com imensos problemas por equacionar, estudar e resolver, parece-me constituir uma inversão de prioridades o grupo parlamentar da maioria na Assembleia Legislativa da Madeira, deslocar-se à Empresa de Cervejas da Madeira. Depois, ainda passaram pela Empresa Insular de Moinhos, enquanto o presidente do governo visitava a empresa "António Nóbrega" e uma unidade hoteleira. Para além das fotografias, retive duas declarações: para crescer, a Madeira "tem que encontrar lá fora o mercado que falta cá dentro" (Dr. Eduardo Jesus) e que a "autonomia está sob ataque, está sob pressão, sob cerco" (Dr. Miguel Albuquerque). Ao final da tarde, um amigo telefonou-me e desabafou: "então esta gente não sabe que, por falta de planeamento, a região tem uma oferta para cerca de um milhão de pessoas e que somos cerca de 250.000? E porque é que se chegou a este ponto? Então, a Autonomia está cercada? Quem montou o cerco, os que aqui não têm responsabilidades políticas ou aqueles que governam há 42 anos?"


Ora bem, de facto, as palavras do presidente, como por aí se diz, são do tipo "timex", não adiantam nem atrasam. Qualquer pessoa, minimamente informada, já percebeu, no plano meramente político, a colagem mal feita a posições que marcaram décadas de jardinismo. Foi sempre preciso encontrar um inimigo externo para esconder os insucessos internos e, por essa via, algumas vezes, receber mais uns milhões. Esse foi chão que deu algumas uvas. Hoje, já ninguém vai nisso. Existem regras, prazos, processos administrativos, o que não quer dizer que aquilo que pertence à Região não deva, atempadamente, ser transferido. Não é, portanto, falando de cercos, ataques e pressões que os problemas se resolvem. Se perguntarmos aos madeirenses e portosantenses talvez designem isso por "delírios". Que, no Verão, são perigosos!
O cerco, parece-me de dedução óbvia, é, portanto, interno. De manhã falam da necessidade de procurar mercados externos para a rendibilidade empresarial. À tarde, de cerco à Autonomia. Aspecto que não deixa de ser curioso, quando o Dr. Eduardo Jesus foi secretário da Economia e, pelo que julgo saber, há dois anos que não são lançados avisos de concurso no âmbito do sistema de incentivos no que concerne à internacionalização, muito menos, no eixo "valorizar"; à tarde, ao contrário de uma resposta a tais necessidades, através da apresentação de um pacote de medidas, o presidente fala, de forma repetitiva, de um imaginário cerco estrangulador. Como exportar, com que incentivos e sobre a pouca-vergonha do que se passa nos portos, nem uma palavra. Deixo aqui um exemplo: ainda há dias, em uma grande superfície continental, vi banana da Madeira a € 2,49/kg e, ao lado, banana não sei de onde a € 0,89/kg, com a agravante da madeirense, infelizmente, ter muito mau aspecto. Pelo menos aquela que estava à venda. Isto para dizer que não basta visitar empresas, cumprir o número político mediático e manifestar alegados desconfortos nas relações institucionais, mas assumir posições assertivas no plano da governação. Já chateia aquela cantilena dos "malfeitores" de Lisboa. Os madeirenses e portosantenses precisam de respostas para os problemas, como resolvê-los, custe o que custar e doa a quem doer, porque, com paleio, ainda por cima gasto, sabem que nada será resolvido. O pequeno comércio, refiro-me aos empresários do comércio tradicional, aguardam respostas para os sérios problemas que desde há muito enfrentam. E esses não exportam! Depois, existe aqui uma insanável contradição política: em um dia, a economia cresce, cresce e nunca terá estado tão bem; no outro, as lamúrias em redor de cercos, ataques e pressões! Esquisito.

Uma nota final

O Presidente da Assembleia Legislativa é líder do primeiro órgão de governo próprio. Obviamente que pertence a um partido e é eleito entre os seus pares. A partir daí deve assumir uma posição institucional de algum distanciamento partidário. Não é um deputado qualquer! É o presidente da Assembleia. Deveria, por isso, abster-se de qualquer representação parlamentar, como aconteceu ontem, cuja fotografia do DN deu conta da sua presença na Empresa de Cervejas da Madeira. Não lhe fica bem e não fica bem à instituição que preside. A natureza do cargo obriga-o a uma certa reserva. Não estou a falar de umas jornadas parlamentares, mas de uma visita do grupo parlamentar a empresas. É substancialmente diferente. O seu antecessor foi exímio nessa matéria.
Ilustração: Google Imagens/DN

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