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domingo, 10 de julho de 2016

DOIS IMPORTANTES TEXTOS




"(...) É extremamente preocupante a ausência da comunicação social portuguesa ante o descalabro europeu. É preciso acentuar que a União Europeia já o não é. O egoísmo sobrepôs-se aos grandes princípios do humanismo e da solidariedade que fundamentaram o seu nascimento, e, hoje, o nosso continente mais não é do que um condomínio fechado e cercado de arame farpado. As "reportagens" apresentadas pelas televisões portuguesas são gemidos mal-enjorcados em que a verdadeira natureza dos factos fica encoberta pelo horror dos acampamentos de refugiados, com miúdos a olhar-nos já sem lágrimas, mulheres cobertas de espanto e de medo, e homens encerrados na sua própria tragédia. 
A matança de inocentes não pára, enquanto senhores muito consideráveis discutem, nos areópagos internacionais, banalidades e ineficácias. Já o disse e repito: não preciso desta falaciosa União para ser europeu; mais: não quero ser europeu desta União, mandada pela Alemanha da finança e dos negócios. Não quero ser alemão. Estou preocupado, na minha velha pele portuguesa, pelo descalabro moral, político e económico em que o continente todos os dias se apresenta. (...)"


"(...) Numa estratégia indireta, Berlim escolheu Portugal como o elo mais fraco para reafirmar a sua hegemonia, mostrando que depois do brexit o cilício do Tratado Orçamental ainda aperta mais fundo. Como num crime friamente premeditado, sabendo o poder aterrorizador das suas palavras, Schäuble e Regling assobiam para que a matilha dos especuladores de mercado identifique Portugal como uma presa. A subida dos juros da dívida reflete que o alvo foi claramente identificado. O objetivo será sancionar Lisboa por défice excessivo. Se isso acontecer, Berlim arranjará maneira de livrar Madrid, para que o castigo não provoque demasiadas contracorrentes.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A IGNOMÍNIA EUROPEIA


A "União" Europeia é uma fraude, diariamente provada, e a última prova tem sido o êxodo de milhares e milhares de refugiados. A Comissão Europeia tem feito tudo o que há de mais sórdido para dificultar a vida ao Governo português. Há dias, na SIC Notícias, o comentador do programa Opinião Pública, da manhã, revelou o que o sorridente preopinante de economia nunca o fez: denunciou a "cilada" e as "armadilhas" (expressões usadas) que aquela Comissão estendera a António Costa, para o derrubar e ao seu legítimo Governo. Sabe-se que quem domina a "União" Europeia é uma casta de Direita, cujas decisões implicam, de imediato, a imposição de uma linha doutrinária assente no mais atroz capitalismo. O cerco e o esmagamento feitos ao Syriza, na Grécia, e a claudicação do Governo saído daquela experiência política, é um dos mais repugnantes aspectos da orientação imposta pelos dirigentes da "União".


O Partido Popular Europeu reúne organizações de Direita, as mais extremadas e da "extrema" pura e dura. A esse agrupamento político, extremamente influente, pertence Pedro Passos Coelho, que tem sido apoiado, por vezes sem discrição nem pudor, por quem, na realidade, dirige esta Europa iníqua, e que me parece sem arranjo político nem moral.
A pouca-vergonha das "ciladas" e "armadilhas" colocadas no projecto político de António Costa atingiu a sua expressão mais imunda por estes dias, com a delonga do Orçamento do Estado. Costa e Centeno têm conseguido "driblar", com grande astúcia política, as manobras daqueles senhores, que não são mais do que "factotuns" do "sistema", o qual possui como sentinela vigilante a senhora Merkel e o sinistro Wolfgang Schäuble.
Para quem não estiver dentro das baias, eles são implacáveis. Apesar das torpes ameaças, pequenas plataformas de resistência e de desafio têm surgido, um pouco por todo o lado. As pessoas, milhões e milhões, já não suportam o peso esmagador desta fase do capitalismo, e demonstram a sua indignação das maneiras e com os processos mais diversos. A "União" Europeia é uma fraude, diariamente provada, e a última prova tem sido o êxodo de milhares e milhares de refugiados. E a forma com que esta Europa os acolhe e trata. A Europa é alemã, na expressão mais belicosa que o nacionalismo possa envolver. Não ganhou nos campos de batalha, legou um cortejo de mortes e de indignidades, e, com a cumplicidade de muitos dirigentes políticos europeus, parece estar a vencer nas manigâncias. Digo "parece" porque as resistências surgem, e de que maneira!, até nos Estados Unidos, criando novas barricadas com um "sistema" que tende a destruir o nosso modo civilizacional de viver.
A comunicação social portuguesa queda-se em pequenos jogos de "economês" (de que a SIC é monumento), sem explicar a natureza do que está a acontecer. Ocasionalmente, como aconteceu na última quarta-feira, no Opinião Pública, lá aparece um colaborador que vai esclarecendo a massa ignara das manobras ocorridas nos bastidores. Ocasionalmente.
Entretanto, vamos vivendo neste lodaçal de cumplicidades e de conivências: a Europa dissolve-se em uma miséria ética e de princípios onde os valores são esvaziados com displicente indiferença. O que se pretende fazer com o Governo de António Costa é inominável. Aqui fica o registo da ignomínia.
NOTA:
Um artigo de BAPTISTA BASTOS  
b.bastos@netcabo.pt

domingo, 22 de novembro de 2015

"A SOMBRA DOS NOSSOS PESADELOS" - UM ARTIGO DE BAPTISTA-BASTOS


Cavaco Silva é um homem extremamente inseguro, atingido por uma soberba que o levava a alterações de carácter quando era professor e se algum aluno o contestava. As delongas que o dr. Cavaco tem feito à indigitação do dr. António Costa para primeiro-ministro é um dos episódios mais repulsivos da Segunda República. O dr. Cavaco é homem de verdetes e de pequenas vinganças, já se sabia; mas este ressabiamento ultrapassa todas as paciências. Os ódios velhos não cansam, mas as coisas, com ele, têm atingido os mais deploráveis limites. Não permitiu que a pensão de sangue fosse atribuída à viúva de Salgueiro Maia, mas acedeu a que antigos agentes da PIDE fossem distinguidos com rendas, "por serviços distintos prestados à pátria". Escusou-se, com evasivas canhestras, a presidir a uma homenagem a Melo Antunes, e tem colocado penduricalhos a uma legião de medíocres. Não condecorou José Sócrates, como é hábito a primeiros-ministros, em final de funções, notoriamente porque o detestava e detesta, além de o mimosear com dois discursos abjectos. Mário Soares, que o tratava por "O Gajo", é outros dos seus inimigos. Não pode com Pedro Santana Lopes porque este é divertido, ama a vida e é inteligente. Apadrinhou Pedro Passos Coelho devido à reverência mesureira com que este o distingue. Aliás, apressou-se a indigitá-lo primeiro-ministro, logo após as eleições de 4 de Outubro, num atropelo às regras mais elementares da democracia. Nem precisou, como o fez agora, com inaudito despudor, de ouvir a opinião de "notáveis". Sobre ser uma pessoa inculta e medíocre. O dr. Cavaco é o pior Presidente da República desde o 25 de Abril.


Os níveis de popularidade do senhor descem de forma preocupante porque atingem, inevitavelmente, a própria instituição. Não ouve ninguém, não atenta nos conselhos que lhe dão, timidamente e com muita cautela porque ele encoleriza-se com frequência e não tem amigos, apenas breves instantes de reverência assustada. É um homem extremamente inseguro, atingido por uma soberba que o levava a alterações de carácter quando era professor e se algum aluno o contestava. Por duas vezes, pelo menos que víssemos, em duas cerimónias públicas, teve delíquios sem que, até hoje, essas súbitas quebras nos fossem esclarecidas.
A demora em nomear António Costa faz parte da sua estrutura política e moral. Mas a atitude, por absurdamente deseducada, atinge toda a nação. Sabemos que o dr. Cavaco nunca foi o "Presidente de todos os portugueses", e que a sua presença nos cargos que desempenhou caracterizaram-se por um total e absoluto desdém pelos outros. O que está a provocar, com este adiamento, é uma cisão desnecessária entre todos nós. A ferida que rasgou nos portugueses dificilmente sarará. Há anos, com uma impudícia que rondou o insulto, disse, publicamente, esta frase maldita: "Temos de ajudar o dr. Mário Soares a sair com dignidade da Presidência."
Todos sabemos que Mário Soares não costuma levar insolências para casa, e que, quando o assolam, não é flor que se cheire. Pode ser acusado de todos os defeitos, menos o de delito contra a liberdade. Talvez o mesmo não se possa dizer do dr. Cavaco, com as tropelias e os atropelos à democracia que tem praticado, e, até com o vilipêndio comprovado pela República e pelo 5 de Outubro.
Com um suspiro de alívio aguardamos o dia próximo em que este senhor irá para casa e deixará de ser a sombra dos nossos pesadelos.
Ilustração: Google Imagens

sábado, 20 de outubro de 2012

RESPOSTA AO TEMPO


"Pedro Passos Coelho é um produto típico de um "tempo inconvicto" [Tony Judt] que acarinha e acalenta a frivolidade da superfície, arrastando, com essa frivolidade, milhões de pessoas para a desgraça e para o infortúnio. É preciso erradicar, da Europa do Partido Popular, esta patologia endémica, de que são vítimas não só os países mais débeis (que serão "países mais débeis"?) como todos os outros".
 
 
"Olho em volta e sinto uma amargura pesada e trágica. Um movimento silencioso faz com que as pessoas não se cruzem: atravessam-se com indiferença e, até, com rancor. Pessoas sem destino certo, absortas não se sabe bem com quê. Porquê, sabemo-lo pela evidência cruel. Não é só a atmosfera de descrença: é o riscar de uma angústia que nada tem de metafísica. Há algo de implacável nas declarações que ouvimos, e nos colocam num patamar sem saída. Leio os jornais e nem um traz a limpidez de uma esperança porque, na realidade, já não há esperança. E ela já existiu, na afronta e no opróbrio.
As nossas causas eram a justificação das nossas vidas. Envolvíamo-nos em coisas muito perigosas, empolgados pelo desafio e pela reminiscência de que ajudávamos o mundo a ser algo de melhor. Não sabíamos muito bem o que era; porém, não era aquilo em que sobrevivíamos tristemente. Uma frase que escrevi, por essa ocasião, e fez escola: a esperança tem sempre razão. E agora? A esperança perdeu, até a razão de ser?
As causas do que nos está a acontecer vêm de longe. E, se quisermos ser honestos, o desequilíbrio começou com os dez anos de primeiro-ministro do Dr. Cavaco. Não vale a pena derramar lágrimas. A História é o que é. O impreparo do então primeiro-ministro advinha da sua incultura geral, do facto de a Europa nos mandar dinheiro a rodos, o que facilitava a governança, e da raiz da sua própria ideologia (...)".
Este é um excerto de um artigo, recentemente publicado, assinado por Baptista-Bastos, um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos. Motivou-me a leitura a primeira frase do texto, ao ir de encontro ao sentimento que transporto: "Olho em volta e sinto uma amargura pesada e trágica". Aliás, já aqui escrevi nesse sentido. Basta um pouco de atenção, alguma sensibilidade, ouvir e esmiuçar o que outros dizem, escutar as palavras penosas que saem boca fora de quem se sente hoje completamente espremido e desprovido de oportunidades, desde jovens a menos jovens até aos que se encontram no outono da vida, para ficarmos com essa sensação de desesperança e de incapacidade para combater o desespero. Há amargura em milhões de homens e mulheres, qual metáfora, tetraplégicos sociais, impossibilitados de possuírem autonomia quanto baste para transportarem e transmitirem um mínimo de felicidade. Tempos de revolta estão já no horizonte Só eles não conseguem enxergar que dos dramas germinará a reacção contra aqueles que, por ganância, teimosia e estupidez política, fazem do povo capacho dos seus interesses maiores.
Ilustração: Google Imagens.