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quinta-feira, 14 de julho de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA - TAL COMO NAS CEREJAS, ESTE ANO, DEU O BICHO!


A Jornalista Paula Henriques, do DN-Madeira, sobre os exames de 9.º ano, atribuiu o título: "Médias em queda, reprovações a subir" (...) "O barco não está a chegar a bom porto. Os alunos da Madeira tiveram piores resultados do que os nacionais nas provas finais do Ensino Básico referentes ao 3.º Ciclo realizadas na Região pelos mais de 2.500 estudantes de 9.º ano, revelam os dados divulgados ontem pelo Ministério da Educação e pela Secretaria Regional de Educação. 56,3% chumbaram na prova de Matemática e 27,4% reprovaram a Português, o que quer dizer que mais de 1.400 não teve sucesso na prova de Matemática e que mais de 680 não conseguiram chegar à meta em Português.(...)". Do meu ponto de vista, constituem resultados absolutamente normais. Em uns anos é sensível o entusiasmo dos governantes ao jeito de "estamos a melhorar" (...) "foi melhor que no ano anterior"; em outros anos apresentam-se de cabisbaixo. Não percebem ou não querem perceber que existem múltiplas variáveis que determinam que assim seja, aliás, já bastas vezes equacionados. De uma coisa estou absolutamente convicto, é que se não mudarem o paradigma do sistema educativo, não só os resultados não serão proporcionais ao investimento, como se manterá esta oscilação entre a esperança e o desânimo.


Pergunto, e agora senhores governantes? Tal como tem sido apanágio vão aumentar o número de horas semanais de Matemática e de Português, convencidos que, se não entra a bem entrará a mal? Ou irão aproveitar para reflectir, profundamente, sobre o sistema na sua globalidade? Li, no DN, que "a Secretaria Regional de Educação vai divulgar em breve a análise detalhada dos resultados das Provas do 3.º Ciclo, nomeadamente a distribuição por escolas e concelhos". Mas para quê essa maçada? Para, eventualmente, expor e agredir as escolas e os professores pelos "maus resultados", atirando para os outros responsabilidades que são próprias? Para, subtilmente, "avaliar" os professores? Quando deveriam saber que não existem dois estabelecimentos iguais e dois públicos iguais? Que o problema assenta, fundamentalmente, em preocupações de natureza organizacional, curricular, programática, pedagógica e, a montante, de natureza social? Para quê perder tempo, quando deveriam estar a estudar, para implementar, as bases de uma nova escola e, consequentemente, as bases de uma nova aprendizagem? 
Sou, como tantas vezes aqui tenho escrito, contrário à realização de exames em todo o Ensino Básico. Não é pela via dos exames que se acrescenta seja lá o que for. Há estudos e pensamento sobre esta matéria. Consultem. Sou pela avaliação de natureza contínua (muito mais complexa que um exame), de base formativa inteligente e rigorosa, inclusiva, não punitiva e de exclusão, mais, ainda, por uma aprendizagem baseada na complexidade dos fenómenos. A vida real não se divide em disciplinas. Não se deve, por isso mesmo, "aprender" a esquecer, mas a ganhar o gosto em aprender a desaprender para voltar a aprender. A complexidade da vida e a necessidade de adaptações sistemáticas à multiplicidade de situações, inclusive a profissional, necessitam de uma aprendizagem que não se confine aos manuais e aos rígidos programas, ao jeito de um pronto-a-vestir. A uns o fatinho serve, a outros não! O Professor Sérgio Niza deixou claro nas páginas do Diário, tem já algum tempo: a Escola actual "não serve... é do tempo dos nossos avós".
Por outro lado, disse e bem o Primeiro-ministro, Dr. António Costa, quando determinou o fim dos exames no 1º ciclo: "tal como um raio x não cura um doente também um exame não faz a aprendizagem dos alunos". Certo. Por paradoxal que possa parecer, Hélder de Sousa, director do organismo responsável pelos exames nacionais (IAVE), penso que ainda é o mesmo, em entrevista ao Público, em Junho de 2015, assumiu que os exames não estão a gerar melhorias das aprendizagens. Então, pergunta-se, por que insistem?
Dizia-me um colega que, este ano, tal como nas cerejas, deu o bicho. Talvez para o ano não dê. Certo é que a "produção" será, como sempre foi, escassa. Pensem nisso. Pensem, tal como escreveu a jornalista: "Médias em queda, reprovações a subir" (...) "O barco não está a chegar a bom porto (...). Por este caminho jamais chegará. Há muito que está encalhado. Só desmantelando-o!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 29 de novembro de 2015

EXAMES. QUANDO NÃO SE SABE, CONVÉM INVESTIGAR...


Apenas uma nota. Li, na edição de hoje do DN-Madeira, "A semana vista por...", os comentários de Gabriel Pereira, Presidente da Junta de Freguesia do Estreito de Câmara de Lobos. Como má notícia, destacou o "fim dos exames de 4º ano" sublinhando: "(...) Esta medida do novo governo, certamente acarretará prejuízos na educação dos mais novos, não dignificando o ensino português". Discordo, em absoluto. Poderia aqui deixar uma longa justificação baseada em inúmeros investigadores e autores que se pronunciaram sobre a existência de exames face à importância de uma avaliação contínua. Vou, apenas, pela enésima vez, deixar aqui um texto, que já aqui publiquei, e que reproduz o posicionamento de uma investigadora.


Trata-se de um estudo elaborado por Deborah Stipek, docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, que trabalhou o seu estudo ao longo de 35 anos. As referências a esse estudo foram publicadas na revista A Página da Educação, pelo Professor José Pacheco. A autora denuncia o facto de os jovens serem treinados para obterem bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. E acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada. (...) Questiona o Professor José Pacheco: Irá o senhor ministro contrariar dados científicos? E prossegue: (...) Deborah sublinha o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas enquanto prejudicam vidas que poderiam ser promissoras. Em suma, sublinha o Professor José Pacheco, "um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames é prejudicial à aprendizagem. E quem o afirma é a revista Science que tem por título "Educação não é uma corrida". Escutemos a pesquisadora: "O sistema actual baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Esta forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na actualidade faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos mesmo antes da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja o cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém". "(...) A maioria dos grandes pensadores que deixaram um legado para a humanidade seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido".
Ilustração: Google imagens.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

FIM DOS EXAMES NO 4º ANO DE ESCOLARIDADE


Nuno Crato, outro de triste memória na política educativa nacional, nunca percebeu que a escola deve centrar a sua orientação no despertar para o conhecimento e não para a avaliação. Sempre foi um erro crasso preocupar-se, primeiro, com a avaliação e, só depois, com a atitude de fazer pensar! Já aqui escrevi que para os “cratos” que infernizam a nossa vida, os exames estão certos, os professores é que estão errados; a política social do governo está certa, os portugueses é que não querem trabalhar. Vivemos, assim, anos de uma ininteligível obsessão pelos exames como se eles constituíssem a peça fundamental do processo ensino-aprendizagem. Obrigaram os professores, mormente a partir de Janeiro, a centrar baterias para os exames de Maio, com o ano escolar a terminar em finais de Junho, repetindo até à exaustão, "resmas" de exercícios de Português e de Matemática, como se o despertar para o mundo do conhecimento aí começasse e terminasse. Conjugar o verbo avaliar tornou-se uma fixação, uma mania em detrimento do que deve ser o grande lastro sobre o qual, mais tarde, se edificam os pilares que suportam outros conhecimentos mais elaborados. 


A compulsão pelos exames, onde sempre estiveram nessa avaliação, não apenas os alunos, mas também os professores, destruíram aquilo que de mais essencial tem o ensino básico, a total abertura ao questionamento. A resposta tornou-se prioritária ao acto de questionar. A idade dos porquês, da leitura e da cultura foi, paulatinamente, substituída pela resposta certa concordante com o manual. O professor, esse construtor do conhecimento, que deveria avaliar de forma contínua e actuar na promoção do interesse pelo saber, foi empurrado para uma subjectiva escala de 0% a 100%, decomposta em variadíssimos e arrepiantes itens. Apesar de exaustivos relatórios, destinados, tarde ou cedo, ao arquivo morto, pouco ou mesmo nada tem vindo a interessar ao sistema, concretamente, as razões por que é "fraco", "insuficiente", "suficiente", "suficiente mais" e por aí fora, as causas eventualmente consideradas menos boas nas "atitudes e valores", inclusive, a resposta à pergunta "eu ensino… ele não aprende", pois o importante resume-se a poucas palavras: sabe ou não sabe! E assim surgem os "chumbos", o insucesso e o abandono.
Disse e bem o futuro primeiro-ministro, Dr. António Costa: "tal como um raio x não cura um doente também um exame não faz a aprendizagem dos alunos". O mais curioso, ou talvez não, é que há já algum tempo li a paradoxal posição de Hélder de Sousa, director do organismo responsável pelos exames nacionais (IAVE), que, em entrevista ao Público, assumiu que os exames não estão a gerar melhorias das aprendizagens. Isto é, o próprio responsável pela dinamização dos exames concluiu o que tantos investigadores já o sabiam e denunciaram. Porém, obediente a Crato (finalmente fora), manteve-os o que demonstra uma ausência de inteligência do decisor político, incapaz de se deixar fecundar pelo conhecimento trazido pelos investigadores e autores
Com regularidade diária vou buscar os meus netos à escola. Pergunta sacramental: então, que tal foi o dia? Eles sabem que não gosto que me digam: "foi uma seca, avô". Um dia, um deles disparou dessa maneira e eu contrapus dizendo que a escola é sempre um lugar de saudade diária. Dizem-no, agora, de outra maneira, mas descubro nas suas palavras que desejavam que tivesse sido outra coisa. Talvez porque com eles falo, sobretudo com o mais velho (7º ano), sobre a escola que tem e a escola que deveria ter. Sempre com o cuidado de lhe sublinhar, como contraponto, que é, infelizmente, nesta escola do século XIX, sendo ele do século XXI, que tem de viver, embora com sentido de análise crítica. Os dois mais novos andam por essas andanças dos exames do 4º ano de escolaridade. Estamos em Novembro e aquilo que designam por "trabalho escolar" (trabalho?) já começa a ser dirigido nesse sentido. Disse-lhes que não iriam realizar exames. Todos os dias questionam-me se já está aprovada a decisão. Obviamente que lhes incuto que o facto de não haver exames é exactamente para que tenham a possibilidade de saber mais. Para descobrir muitos outros temas, observá-los, questioná-los e percebê-los. Que um ambiente de cultura na escola, nas suas idades, é muito mais importante do que resolver uma determinada equação matemática com alguma complexidade, ou não tendo gosto pela leitura e pela escrita, todavia, tenham, na ponta da língua, os "quantificadores indefinidos" da nova terminologia gramatical. Digo-lhes muitas outras coisas, sempre naquele sentido que é preferível perceberem o porquê do que fazem, à situação de "come e cala-te". Mas fica-me sempre uma certa e compreensível angústia que, mesmo sem exames, não sinta que a velha escola venha a dar lugar a uma escola portadora de futuro. Uma escola de todo o ensino básico, onde não existam exames, mas sim uma avaliação contínua de base formativa rigorosa, inclusiva, não punitiva e de exclusão. Porque os meus netos, certamente, não vão ler este post, digo eu agora, em síntese, só para si, que desejo que a cultura, em sentido muito lato, invada a escola para que ela não seja "uma seca".
Ilustração: Google Imagens. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

"OS EXAMES NÃO ESTÃO A GERAR MELHORIA DAS APRENDIZAGENS"


Começam hoje os exames do final dos Ensino Básico e Secundário. Cerca de 260.000 alunos estão envolvidos. O curioso, ou talvez não, é que, de acordo com os resultados aferidores, "os exames não estão a gerar melhoria nas aprendizagens" (Público). E como não estão, ora bem, a ordem é para que os "critérios sejam mais flexíveis na avaliação das respostas" podendo os professores "validar respostas não previstas no guião" (Diário de Notícias). E dizem os mentores que as suas políticas são contra o facilitismo! Tudo isto é trágico, apesar do "acompanhamento extraordinário" dos alunos ditos mais fraquinhos; das numerosas edições de livros de testes que inundam desde livrarias a estações de correio; da insistência, na sala de aula, na resolução de testes de treino dos anos anteriores e não só; e, ainda, das explicações, algumas pagas a peso de ouro, a que os pais recorrem. E apesar disso, dizem, não há melhoria!


Esta é a realidade do sistema. A obsessão pelos exames em detrimento de uma avaliação contínua, sobretudo no Ensino Básico, tomou conta da inteligência do decisor político. Trabalha-se para a avaliação e não para o conhecimento. A sensatez que deveria conduzi-los a equacionar as causas, isto é, à formulação de uma pergunta tão simples quanto esta: "eu ensino... tu aprendes"? é negligenciada pela teimosia e por uma atroz cegueira. E assim vão, de erro em erro, sem darem conta ou se deixarem fecundar pelo conhecimento trazido pelos investigadores. Para eles, refiro-me a todos esses "cratos" que infernizam a nossa vida, os exames estão certos, os professores é que estão errados; a política social do governo está certa, os portugueses é que não querem trabalhar. 
Mas a paranóia está longe de ser atribuída apenas ao decisor político e à questão dos exames. "O Conselho das Escolas (CE) fez, esta semana, uma recomendação ao Ministério da Educação no sentido de os alunos terem uma pausa de dois dias, a meio do primeiro período, uma espécie de "férias de outono", altura em que as escolas poderiam planear actividades de apoio aos alunos que revelassem maiores dificuldades". Li que "a proposta não agradou à Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap) que criticou as várias pausas que já existem ao longo do ano e defendeu a necessidade de uma revolução no ensino e um período lectivo muito mais longo: "as aulas deveriam começar no início de Setembro e terminar no final de Julho", sugeriu o presidente da Confap. É caso para dizer que este homem não percebe nada nem de educação, nem de sistema educativo. A revolução que este senhor fala não é sistémica, logo à partida, de (re)organização de toda a sociedade; de atenção à diversidade (culturas que chegam à escola) e à desigualdade (económicas e sociais); a revolução não é de ruptura com um disparatado sistema educativo curricular e programático e não é de financiamento do sector educativo. Para este senhor que faz parte do Conselho Nacional de Educação, pasme-se, o problema é de mais tempo na escola, diariamente e ao longo de todo o ano. Isto porque, está subjacente à sua posição, torna-se necessário que os pais trabalhem de sol-a-sol, progressivamente sem direitos sociais, com baixos salários, sem direito a horas extraordinárias e sempre com a espada do despedimento sobre as suas cabeças. Para este senhor, a escola deve ser uma espécie de armazém. Não estranho, caro leitor. O Dr. Jorge Manuel Ascensão, presidente dessa Confap, é Licenciado em Gestão Financeira, é ou foi Consultor na empresa Portugal Telecom, Auditor de Fornecedores da PT (Sistemas de Gestão e Responsabilidade Social) e Gestor do Segmento de Negócio Empresarial.
Com uma opinião diferente, que aplaudo, a presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIP), Isabel Gregório, saudou a recomendação do Conselho das Escolas (CE) sublinhando que a proposta de uma pausa lectiva ia ao encontro de outros pressupostos que a Confap não entende: "(...) as crianças, jovens e adolescentes precisam de tempo para crescer" (...) "Não queremos criar robots, queremos cidadãos completos e as crianças precisam de espaço para socializar, e a verdade é que, neste momento, muitos estão na escola das oito da manhã às seis da tarde a estudar, com a agravante de ainda trazerem TPC para fazer em casa" (...) "as crianças precisam de crescer como um todo e não apenas na vertente escolar. Os nossos filhos estão cada vez mais ocupados, são cada vez mais competitivos no sentido de terem as melhores notas e serem os melhores, e isso pode pôr em causa a entreajuda entre colegas".

Concluo, para o presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap), bom, bom, seria os meninos levarem a cama para a escola, libertando os pais da função de educadores primeiros. E assim vai o país, com exames e mais exames, e com uns senhores que disto percebem como eu de energia nuclear!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 17 de maio de 2015

EXAMES NO ENSINO BÁSICO SIGNIFICAM A IGNORÂNCIA DE QUEM OS IMPÕE


Amanhã começam os famigerados exames do 1º Ciclo do Ensino Básico. Os exames que, assumo, caracterizo como os exames da vergonha e da ignorância de quem os decide. Já aqui publiquei, há já algum tempo, um estudo, publicado na revista “Science”, elaborado por Deborah Stipek, da Faculdade de Educação de Standford. Um estudo transversal realizado ao longo de 35 anos. A editorial da revista coloca em título: “A Educação não é uma corrida”. A investigadora é clara: “o sistema de exames produz especialistas em provas enquanto prejudica vidas que poderiam ser promissoras” (…) O sistema actual, baseado no desempenho em testes pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores” (…) “Este ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes” (…) A maneira como a Educação está estruturada faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos antes mesmo do final da educação básica”. No entanto, Crato, por um lado, e o governo regional, por outro, continuam a abanar o rabinho como se esta fosse uma grande solução para a qualidade do ensino.


Sou um adversário dos exames em idades que devem prevalecer o conhecimento generalizado e multiplicador e não este empanturrar de um conhecimento que não acrescenta futuro. E tanto assim é que são tantos os investigadores, de diversas áreas, que contra esta paranónia se posicionam, todavia Crato e companhia teimam em pensar que nada melhor do que um "examezinho" para pôr isto na ordem. Só que não tem colocado, pelo contrário, continuamos na cauda segundo múltiplos indicadores.     
O Professor José Pacheco, relativamente ao posicionamento de Deborh Stipek, sentencia: entre milhares ou milhões de homens e mulheres, "Ghandi, Picasso, Einstein, deixaram-nos um legado valiosíssimo, seguindo caminhos muito diferentes". Isto quer dizer que a Educação na escola não constitui a única forma de aprender. E se a Escola é importante, e é, o seu pensamento estratégico não pode quedar-se pelo pensamento que, penosamente, se arrasta desde a Sociedade Industrial.
Entro nas livrarias e até nos balcões dos Correios e vejo escaparates cheios de livros de "preparação para os exames" de Português e de Matemática. E quando lá entro lembro-me sempre de Deborah Stipek e de uma professora, Rosa Santos, que, a este propósito, em 2013, deixou no meu blogue o seguinte comentário: "(...) Permita que faça minhas as suas palavras e grandes verdades! Sou professora do 1º ciclo. Leciono uma turma de pequenos pensadores, grandes futuros sábios, que sempre incitei à reflexão, ao questionamento, à procura de respostas através da pesquisa autónoma. Através das perguntas dos meus Pestinhas, toda a turma aprendeu algo. Será que vão expressar nestes exames toda a aprendizagem significativa que foram abarcando no seu conhecimento? Não sei. E, se quer saber, não sei nem me interessa. Apenas me interessa o percurso de quatro anos recheado de momentos únicos e inesquecíveis! Acredito que, um dia, eles recordarão mais facilmente uma ou outra aula, um ou outro momento vivido nas quatro paredes da sala 9 ou na horta pedagógica ou nas brincadeiras do recreio, do que recordarão estas últimas aulas CHATAS, MONÓTONAS, bombardeadas de modelos de provas de exame! Bem haja pela partilha de seus pensamentos!"
Daqui concluo que só a ignorância de quem propõe este sistema justifica o que fazem. Duas perguntas a terminar: e se se preocupassem com o que se passa a montante, com os níveis de pobreza, com o desemprego, com a degradação da instituição família e com as razões do abandono escolar? E se se preocupassem com a autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino, com uma rigorosa avaliação continua conducente ao "conhecimento poderoso" de efeitos multiplicadores?
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A ABERRAÇÃO DOS EXAMES NO ENSINO BÁSICO


"Chumbos não ajudam a recuperar o desempenho dos alunos. Portugal tem das taxas de retenção mais elevadas da OCDE, mas a medida não é eficaz, diz o estudo do Banco de Portugal".


Chumbar nos primeiros seis anos de escola prejudica o desempenho dos alunos, pelo menos a avaliar pelos resultados dos testes PISA. Por isso dizem os autores de um estudo publicado pelo Banco de Portugal, há vantagens em substituir a retenção, por medidas alternativas de apoio. (Expresso). Rigorosamente nada de novo nesta posição. Apenas a confirmação do que há muito se sabe. É, por isso, que várias vezes aqui tenho escrito e questionado o secretário da Educação sobre o seu posicionamento no quadro da Autonomia Político-Administrativa. Não se trata de um problema Constitucional, mas sim organizacional. Não se trata de um impedimento da Constituição da República ou da Lei de Bases do Sistema Educativo, mas de pensamento estratégico. Não se trata de um problema  apenas da secretaria de Educação, mas de um trabalho sistémico que envolve outras secretarias a montante da Escola. E custa-me ver que a Madeira não tenha uma ideia sobre esta matéria. Pelo contrário, apoia o ministro, verga-se perante o erro e a teimosia de um homem que deseja que o presente se faça à imagem do seu passado escolar, quando os tempos são outros. É a tal frase que tantas vezes aqui repito, a de  uma "escola sempre  igual a competir com a vida que é  sempre diferente". Às vezes chego a pensar se acredita no formato dos exames ao contrário de uma avaliação rigorosa e contínua, ou se se serve dos alunos para avaliar o desempenho docente. Seja como for, de uma maneira ou de outra, está completamente errado. 
Voltar a escrever sobre o mesmo é chover no molhado. Por isso, deixo aqui um texto que alinhavei em Janeiro de 2013. Talvez ajude a melhor situar os leitores desta página face a este problema:
"Não vou muito longe e socorro-me de algumas passagens de um incisivo artigo do Professor José Pacheco (figura que ainda ontem destaquei) publicado na edição de Inverno de 2012 da revista A Página da Educação. O artigo começa assim: "A conceituada revista Science deu a conhecer um estudo que contraria tendências reveladas em recentes decisões de política educativa. (...) Deborah Stipek, docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, trabalhou o seu estudo ao longo de 35 anos. A autora do estudo denuncia o facto de os jovens serem treinados para obterem bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. E acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada. (...) Irá o senhor ministro contrariar dados científicos? - questiona e prossegue: (...) Deborah sublinha o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas enquanto prejudicam vidas que poderiam ser promissoras. Em suma, sublinha o Professor José Pacheco, "um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames é prejudicial à aprendizagem. E quem o afirma é a revista Science que tem por título "Educação não é uma corrida". Escutemos a pesquisadora: "O sistema actual baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Esta forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na actualidade faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos mesmo antes da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja o cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém". Mais adiante, o Professor José Pacheco traz à colação a coordenadora do Centro de Pesquisa em Empreendedorismo da Universidade de S. Paulo: "É preciso redescobrir o signicado de ir à escola, de estudar. Mercado de trabalho e status social são questões que devem deixar de nortear as políticas educacionais. A sociedade valoriza muito mais o trabalho cooperativo, mas a escola forma alunos muito mais focados no trabalho individual" (...) A maioria dos grandes pensadores que deixaram um legado para a humanidade seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido". 
Portanto, concluo, a questão central não pode circunscrever-se aos exames, mas à mudança do sentido de Escola. Mudança de paradigma que é difícil, sublinho, não só porque os políticos não se interrogam, mas porque há uma mentalidade formatada e encaixotada que impede desde logo a discussão séria dos assuntos. E se os centros universitários de formação e investigação bem lutam por uma mudança, a verdade é que se trata de uma luta desigual, simplesmente porque, por ignorância altifalante, os decisores não querem ouvir.
Esta mudança, que leva muitos anos, quando está em causa a completa ruptura de um sistema e a paulatina criação de um outro, não significa, no ensino básico, é dele que estamos a falar, ausência de avaliação quer no vértice da pirâmide do sistema (vértice estratégico - ministério ou secretaria regional), quer na linha hierárquica (ao nível de escola), quer ao nível do centro operacional (professores e alunos). Pelo contrário, as exigências são muito maiores, porque formativas, contínuas e sistémicas. Mas para essa construção falta, na expressão de Rubem Alves uma "erecção da inteligência" a todos os níveis!"
Ilustração: Google Imagens
OUTROS TEXTOS:
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/05/os-exames-que-nunca-deveriam-ser.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/05/exames-de-1-ciclo-e-ereccao-da_2.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2014/01/nuno-crato-nao-tem-emenda-exigencia-e.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2014/06/nem-fecundam-nem-se-deixam-fecundar.html

segunda-feira, 19 de maio de 2014

PARA O SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO O CONHECIMENTO ENTRA A 100 E SAI A 200!


Hoje começa a tortura dos exames. O ano lectivo escolar termina no final de Junho, mas a paranónia dos exames do 4º e 6º anos aí está! Repito aqui a declaração do Professor Sérgio Niza que disse que "o ministério da Educação é de uma ignorância que faz medo". Concordo, totalmente, não apenas pelo essencial daquela declaração, mas sobretudo quando se cruzam as preocupações do ministro com tantos investigadores e professores que, para além da formação inicial, revelam a experiência acumulada da sua prática pedagógica. É claro que do ministro não há nada a esperar e com ele os educadores e professores da Região Autónoma da Madeira passam bem. O que já não é tolerável é que a Madeira disponha de um governo regional que aceita uma política que contraria tudo quanto está estudado sobre esta matéria. 


Em 2013 deixei aqui um texto que, no essencial, sublinhava: "(...) É preciso redescobrir o signicado de ir à escola, de estudar. Mercado de trabalho e status social são questões que devem deixar de nortear as políticas educacionais. A sociedade valoriza muito mais o trabalho cooperativo, mas a escola forma alunos muito mais focados no trabalho individual" (...) A maioria dos grandes pensadores que deixaram um legado para a humanidade seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido". Portanto, a questão central não pode circunscrever-se aos exames, mas à mudança do sentido de Escola. Mudança de paradigma que é difícil, sublinho, não só porque os políticos não se interrogam, mas porque há uma mentalidade formatada e encaixotada que impede desde logo a discussão séria dos assuntos. E se os centros universitários de formação e investigação bem lutam por uma mudança, a verdade é que se trata de uma luta desigual, simplesmente porque, por ignorância altifalante, os decisores não querem ouvir". E o secretário da Educação não quer ouvir. Pior, ainda, quando são realizados encontros, seminários, conferências, enfim, tantas iniciativas onde são assumidas posições que contrariam as actuais directrizes, todavia, ao secretário, eu diria que tais reflexões entram a 100 e saem a 200! Regressarei a este assunto.
Outros textos sobre esta matéria em:
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/01/exames-no-ensino-basico-nao-obrigado.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/05/os-exames-que-nunca-deveriam-ser.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/05/exames-de-1-ciclo-e-ereccao-da_2.html
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 18 de junho de 2013

PROFESSORES DA MADEIRA: DEPOIS NÃO SE QUEIXEM!


Penso que o essencial sobre a greve dos professores já foi dito: desde a teimosia do ministério de Nuno Crato à atitude miserável de atirar milhares de funcionários públicos para um regime de mobilidade, onde se enquadram, também, milhares de professores, cujo Estatuto designa-os, qual paradoxo, pela sua importância, como um "corpo especial da Administração Pública". Com todo o direito de dizerem não à greve, apenas digo que, mais tarde, os que não aderiram, não venham se queixar do governo assim e do governo assado! Quando forem atirados para o desemprego não se queixem. Aceitem, com naturalidade essa situação. Não chorem e não pensem que, naquele dia 17 de Junho, deveriam ter paralisado, porque enquanto um exame pode ser realizado uns dias depois, um emprego não se ganha no dia seguinte ao despedimento. De nada valerá esse choro sobre o leite derramado. E faltar no dia 27, no dia da greve geral, terá um "cheirinho" a hipocrisia pois pode ser tarde demais. Há momentos chave em determinados processos. O destino de muitos já está traçado por este governo estúpido que trata a Educação e os Professores como qualquer coisa absolutamente descartável. Lembrem-se que deveriam ter presente que os computadores são cegos e debitarão as listas da mobilidade especial sem contemplações, mesmo para aqueles que ontem prestaram serviço de exames.  Lembrem-se que deveriam ter equacionado melhor que as 40 horas obrigarão a mais trabalho na escola, mais reuniões e mais burocracia para além das horas lectivas, a juntar a todo o trabalho de casa de preparação de aulas e correcção de testes (um professor com cinco turmas de 25 alunos tem para cima de 375 testes para corrigir por período escolar, ou seja, mais de 1000 por ano lectivo, fora outros trabalhos) e, portanto, restará menor tempo para a vida familiar, para os filhos e para a formação contínua e estudo. A não ser que levem a cama para a escola!


Enquanto ex-professor, desempenho que abracei, definitivamente, em 1974, sinto pena que muitos colegas não consigam ver o óbvio e se deixem enredar nas palavras hipócritas que enquadram o discurso dos "superiores interesses dos alunos". Infelizmente, há professores para os quais "os superiores interesses dos professores" não contam; o direito ao trabalho não existe; passar de professor efectivo para a mobilidade especial é coisa de somenos importância; a traição ao direito a uma escola pública, inclusiva e de excelência, é pura retórica; ao invés de reduzir o número de alunos por turma, aumentá-las tem a sua justificação; ter carreiras congeladas, enfim, dirão, não venham tempos piores; à sucessiva retirada de direitos sociais, pensam que não há porta que se feche e janela que não se abra, enfim, por aí adiante. Repito, tarde ou cedo, não se queixem. Se forem conduzidos para a mobilidade especial agradeçam, alegremente, ao Crato, ao Passos e ao Jaime. Assim escrevo porque sou um cidadão livre, que nunca teve medo e que, embora aposentado, é sindicalizado, com as quotas em dia, e mais, porque ninguém me pode acusar de ter estado, politicamente, por exemplo, com a Ministra Maria de Lurdes Rodrigues (PS). As questões da educação sempre as politizei e nunca as partidarizei.
Tal como acima escrevi, tais professores têm o direito de assim pensar, pelo que, no plano individual, ninguém lhes deverá apontar o dedo, pois é tão legítimo fazer greve como comparecer ao trabalho. A decisão é individual e de consciência. Aliás, os professores são todos maiores e vacinados. Apenas, sublinho e repito, mais tarde, não se queixem, não chorem, não se atirem a quem os colocou nessa situação de despedidos, não lamentem viverem da solidariedade dos pais e avós e não fiquem desencantados por terem de emigrar. Respeito a decisão individual, mas tenho dificuldade em compreender o medo nesta hora de uma total agressividade aos professores, daí que alguns entendam que é melhor entregar o "ouro ao bandido". No pressuposto que o "bandido" vai zelar pelos nossos interesses!
Como nota de rodapé, parabéns aos professores do Porto Santo, um abraço aos da Escola Básica e Secundária do Carmo em Câmara de Lobos e a todos quantos paralisaram em defesa de um Sistema Educativo de qualidade que não pode dispensar professores.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A DERROTA DE CRATO OU OS EXAMES DE 1º CICLO QUE NUNCA DEVERIAM TER ACONTECIDO


Mas o mais interessante, por um lado, e penoso, por outro, é ver uma secretaria da Educação, que se agacha a tudo o que o ministério diz para fazer, contrariando a Autonomia Político-Administrativa, ao invés de defender um claro posicionamento contra este tipo de avaliação, vangloriar-se pelos resultados que, bem analisados constituem uma monumental derrota para o sistema: na disciplina de Português, 46,1% dos alunos tiveram uma avaliação negativa e, na Matemática, 33,1% não conseguiram o mínimo. A secretaria não fala dos alunos que ficaram para trás, antes potencia, politicamente, os que tiveram nota positiva, 53,9 e 66,9, respectivamente. Não questiona as insuficiências, divulga uma mensagem como se tudo estivesse bem. E não está. A escola e os professores não podem resolver os dramas que se escondem a montante. E enquanto não caminharem nesse sentido, obviamente que os resultados serão sempre muito semelhantes a estes.


O meu neto Henrique concluiu o 4º ano de escolaridade. Há dias viu-o um pouco ansioso. Até rejeitou parte do almoço quando tudo devora! Percebi o que se passava e dirigi a conversa para aquilo que considerei ser o motivo. Falei-lhe dos resultados dos exames de Português e de Matemática. E disse-lhe, por palavras que entendeu, tudo quanto escrevi num artigo que publiquei no Diário de Notícias no passado dia 01 de Maio: que nada substituía a avaliação feita pela sua professora ao longo de todo o ano (5 nas duas disciplinas - avaliação contínua), que nada substituía a seriedade, a honestidade, os livros que lê e o desejo de querer saber sempre mais. Disse-lhe, ainda: que os exames são uma aberração de um ministro que quer meter um ano de trabalho, de vivências múltiplas e de aprendizagens importantes em hora e meia de pressão; que só nós e Malta é que temos exames destes; que os primeiros seis anos de escola destinam-se, tal como fazer uma casa, a construir o alicerce sobre o qual se edificarão os pilares do conhecimento futuro. Uma casa com um péssimo alicerce cairá. Portanto, não é com aparentes pilares (exames) que se garante uma base sólida. Deixei-o à porta da escola para a sessão da tarde. Dei-lhe um beijinho e perguntei se tinha percebido a analogia. Respondeu que sim. Para ele, hoje, que confirmou os seus conhecimentos nos "exames" presumo que ficou aliviado. Largas centenas, certamente, que permanecem na angústia. Muitos terão de repetir os exames. Um massacre para as crianças e para os professores, cujo objectivo, nestas idades, deveria ser a de "ensiná-las a ver", na expressão do pedagogo Rubem Alves. E ensinar a ver tem muito que se lhe diga, tem muito de rigor, de disciplina e de conhecimento. Nestas idades, muito mais que um exame!
Mas o mais interessante, por um lado, e penoso, por outro, é ver uma secretaria da Educação, que se agacha a tudo o que o ministério diz para fazer, contrariando a Autonomia Político-Administrativa, ao invés de defender um claro posicionamento contra este tipo de avaliação, vangloriar-se pelos resultados que, bem analisados constituem uma monumental derrota para o sistema: na disciplina de Português, 46,1% dos alunos tiveram uma avaliação negativa e, na Matemática, 33,1% não conseguiram o mínimo. A secretaria não fala dos alunos que ficaram para trás, antes potencia, politicamente, os que tiveram nota positiva, 53,9 e 66,9%, respectivamente. Não questiona as insuficiências, divulga uma mensagem como se tudo estivesse bem. E não está. E estes "exames" confirmam.
No plano dos resultados nacionais, as médias constituem uma monumental derrota política do ministro Nuno Crato com 51,3% de negativas no Português e 43,1% na Matemática. Derrota política porque foi ele que criou e insistiu na necessidade dos exames a este nível. Isto apesar do reforço destas duas disciplinas, das preocupações dos professores e do "treino" intensivo a que se subordinaram durante meses em prejuízo de outras aprendizagens. Daí que defenda que não são os professores que estão em causa, mas o sistema educativo em geral e a questão social, em particular. A escola e os professores não podem resolver os dramas que se escondem a montante. E enquanto não caminharem nesse sentido, obviamente que os resultados serão sempre muito semelhantes a estes. Parafraseando, Rubem Alves, Crato não sabe ver! Oxalá que aprenda a ver a vantagem de uma escola exigente e de avaliação contínua.
Ilustração: Google Imagens.    

terça-feira, 7 de maio de 2013

OS EXAMES QUE NUNCA DEVERIAM SER REALIZADOS


"(...) Permita que faça minhas as suas palavras e grandes verdades! Sou professora do 1º ciclo. Leciono uma turma de pequenos pensadores, grandes futuros sábios, que sempre incitei à reflexão, ao questionamento, à procura de respostas através da pesquisa autónoma. Através das perguntas dos meus Pestinhas, toda a turma aprendeu algo. Será que vão expressar nestes exames toda a aprendizagem significativa que foram abarcando no seu conhecimento? Não sei. E, se quer saber, não sei nem me interessa. Apenas me interessa o percurso de quatro anos recheado de momentos únicos e inesquecíveis! Acredito que, um dia, eles recordarão mais facilmente uma ou outra aula, um ou outro momento vivido nas quatro paredes da sala 9 ou na horta pedagógica ou nas brincadeiras do recreio, do que recordarão estas últimas aulas CHATAS, MONÓTONAS, bombardeadas de modelos de provas de exame! Bem haja pela partilha de seus pensamentos!" Rosa Santos


No dia 1 de Maio publiquei, no DN-Madeira, a minha opinião sobre os exames de 1º ciclo que, hoje, se iniciam. Exames que constituem um retrocesso de 40 anos na política educativa. Dirão algumas pessoas, pois, por eles passei e não me fizeram mal algum. Esquecem-se, porém, que aquela população que alguns outros dizem ser a mais bem preparada que alguma vez Portugal teve, não passou pelo crivo dos exames, mas da avaliação continua. O problema, portanto, não está no regresso ao passado, mas na correcção do do que a experiência foi ditando, nos planos da organização geral do sistema que implica, naturalmente, a reorganização do pensamento organizacional das escolas, a autonomia das mesmas, os currículos e os  programas. Fixar-se no exame como a mezinha que ditará rigor e, sobretudo, conhecimento é de uma atroz fragilidade conceptual. Aliás, depois de dois anos de governo e de meses sentado no "Plano Inclinado" da SIC, o actual ministro da Educação tem provado pouco saber de Educação. Pode ser, e acredito que o seja, um excelente conhecedor da Matemática, mas de política educativa, eu diria que o que demonstrou não chega sequer para ir à oral! Muito fraco, extremamente fraco. O Professor Sérgio Niza que ainda recentemente esteve na Madeira, disse à Página da Educação, edição de Outono de 2012, que "o ministério da Educação é de uma ignorância que faz medo". Concordo, totalmente, não apenas pelo essencial daquela declaração, mas sobretudo quando se cruzam as preocupações do ministro com tantos investigadores e professores que, para além da formação inicial, revelam a experiência acumulada da sua prática pedagógica. 

O Doutor Nuno Crato é um atrevido em matéria de política educativa. Para além do erro grosseiro que constituem estes exames de 1º ciclo, junta-se um outro, o problema financeiro. Nuno Crato deveria explicar ao povo português quanto custa ao Estado estes exames? Até agentes de polícia estão mobilizados para a entrega, escola a escola, em todo o país, momentos antes dos exames, os sobrescritos que contêm os mesmos. As provas só podem ser "vigiadas" por professores que não sejam do 1.º ciclo, o que obrigará à deslocação de cerca de 100 mil alunos. É a paranóia total, consequência da ignorância total! E nós pagamos isto, em nome de quê?


Ao que então escrevi, vários professores e anónimos comentaram o texto e concederam-me a alegria de que não estou só nesta luta. Há muitos professores a pensarem o mesmo, há muitos professores, com toda a certeza, centenas que aguardam o dia de poderem ser verdadeiramente professores. Por enquanto, vão desempenhando o melhor que podem e de acordo com um sistema hierarquizado e vertical. Não podem ir muito longe, isto é, não podem aplicar nem o que aprenderam, nem o produto de uma atitude reflexiva, tampouco o que vão complementando através do estudo permanente. Sentem-se espartilhados e ameaçados. 
Deixo aqui algumas importantes passagens dos vários comentadores ao meu artigo de opinião:
Luís Gonçalves - (...) temos de realçar o verdadeiro objectivo do ministério: AVALIAR PROFESSORES! Esta é a verdadeira obsessão de "Crato e Companhia"! Todos os meios são válidos para avaliar os docentes, nem que para isso seja necessário enfiar os alunos nos "tubos de ensaio". Já agora, aproveito para uma 1ª avaliação da logística montada em torno das provas, numa escala de 0 a 20, nota 5. A falta de planeamento, de rigor e de clarividência é tão óbvia que mais parece estar a ser feita por amadores! Onde está a legitimidade e o exemplo para avaliar os outros?
Apertaocinto - (...) isto mais não parece do que um regresso ao passado, a um passado "Huxleyiano" onde "O seu admirável mundo novo" ganhava forma. Aquilo que então este mestre da escrita previa, acontece agora em Portugal, trazido pelos nossos iluminados governantes, querendo criar elites - os alunos que aguentam a pressão e esforço exigidos sem nexo nestes exames - e os escravos sociais que, por via de terem tido más notas no 1º ciclo já começam a ser rotulados como menos capazes, menos preparados e, portanto condenados aos baixos salários - outra forma de promover a escravatura. Enfim, aguentemos, pais e alunos tamanha falta de visão e preparação daqueles que deviam ser os primeiros a lutar contra este tipo de catalogação social que obscuramente se vai implementando através da escola.
Helena Camacho - (...) Infelizmente estes senhores que "mandam" da educação desconhecem o verdadeiro significado da palavra avaliar. Avalia‑se para se conhecer e só conhecendo o que o aluno sabe ou não sabe é que é possível realizar intervenções pedagógicas apropriadas, que tendam a gerar melhorias nas suas aprendizagens. Estes senhores só não dizem o que vão fazer com os resultados dos exames!
Isto está mau - (...) Como é possível que estes "indivíduos" continuem a olhar só para os seus umbigos e não ouçam, não vejam, não sintam o que se está a passar com a educação em Portugal. Que caminhos estamos a percorrer? As regras inscritas na Norma 02/2013 do Júri Nacional de Exames (JNE) parecem-me até inconstitucionais. (...) Como é possível que as notas tenham que ser publicadas antes do fim das aulas, antes do período de avaliação? 
Rosa Santos - (...) Permita que faça minhas as suas palavras e grandes verdades! Sou professora do 1º ciclo. Lecciono uma turma de pequenos pensadores, grandes futuros sábios, que sempre incitei à reflexão, ao questionamento, à procura de respostas através da pesquisa autónoma. Através das perguntas dos meus Pestinhas, toda a turma aprendeu algo. Será que vão expressar nestes exames toda a aprendizagem significativa que foram abarcando no seu conhecimento? Não sei. E, se quer saber, não sei nem me interessa. Apenas me interessa o percurso de quatro anos recheado de momentos únicos e inesquecíveis! Acredito que, um dia, eles recordarão mais facilmente uma ou outra aula, um ou outro momento vivido nas quatro paredes da sala 9 ou na horta pedagógica ou nas brincadeiras do recreio, do que recordarão estas últimas aulas CHATAS, MONÓTONAS, bombardeadas de modelos de provas de exame! Bem haja pela partilha de seus pensamentos! 
Paulo Jorge - (...) Pois é Rosita, infelizmente não és professora na escola do meu Rafa, porque não me parece que fosse esse o método de ensino utilizado com ele e, por isso, acho eu, a escola na grande parte do tempo é para ele uma grande "chachada". Se as pessoas (encarregados de educação) também não andassem na sua grande maioria obcecadas e a competir como se fossem delas os exames, eu estaria na linha da frente para que o meu filho não comparecesse nos dias 7 e 10 de Maio.
Paulo Serra - (...) Caros colegas a razão de tudo isto está bem camuflada, resume-se a atirar com "carradas" de alunos para o ensino profissionalizante, cortando-lhe desta forma a possibilidade de sonhar. É um facto e poupa dinheiro para ser esbanjado em áreas que melhor sirvam os interesses políticos. Não desanimem..."
Muito agradado, deixei também um comentário final:
A todos quantos aqui têm deixado contributos para a reflexão digo-vos que, apesar do desalento, vale a pena prosseguir, embora saibamos quão difícil é romper com a ausência de visão de futuro que os decisores políticos apresentam. O Professor Sérgio Niza assumiu, aqui, no DIÁRIO, que a Escola actual "não serve... é do tempo dos nossos avós". Na verdade, as bases conceptuais desta Escola são concordantes com a estrutura da Sociedade Industrial. E nós vivemos num outro tempo. Tive um Professor, em 1969, numa aula de Psicopedagogia, sobre a estrutura da Escola de então, disse à turma: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente. O desencontro é inevitável". Já lá vão 44 anos e o problema continua a ser o mesmo: confrontamo-nos com a Escola dos nossos avós a competir numa sociedade da informação e da comunicação. Desde os aspectos arquitectónicos dos edifícios, ao número de alunos por escola e por turma, até à questão curricular e programática tudo tem de ser posto em causa.
A quem decide falta utopia, na expressão de E. Galeano: "a utopia está no horizonte. Dou dez passos e ele afasta-se dez passos; dou 100 passos e ele afasta-se 100 passos. Para que serve, então, a utopia? Exactamente para isso... para caminhar". Mas para caminhar em um sentido, na definição de um horizonte e na constante reformulação da ambição. Salienta a Doutora Fátima Vieira, investigadora especializada em estudos sobre a utopia: "na utopia o que fazemos? Primeiro, definimos a visão: que sociedade quero ter? que escola quero ter? o que quero ser?... Depois de definirmos essa visão, então sim, escolhemos o caminho e tapamos os buracos. Não vale a pena tapar buracos de outros caminhos". O drama é que quem decide não tem visão (não sabe que sociedade quer construir) e não escolhe um caminho (que escola quer ter), prefere andar para trás, para o tempos dos nossos avós... tapando os buracos de outros caminhos. Mas vale a pena, pelas nossas crianças, ser subversivo. Paul Ricour diz que a utopia é sempre subversiva contra o discurso ideológico dominante. A ideologia legitima, a utopia subverte. Então, por ela, vale a pena ser subversivo, mesmo quando o discurso oficial dominante nos bloqueia e sufoca. Mesmo quando despedem professores, quando nos roubam o sonho, quando desejam a precariedade, mesmo quando nos obriguem a trabalhar mais e não MELHOR. Um abraço a todos.
Finalmente, um lamento: o que anda a fazer o Secretário Regional da Educação? Qual a sua posição sobre esta matéria? Concorda? Discorda? Qual o seu posicionamento sobre a Autonomia da Região vs políticas do ministério? É do tipo "Maria vai com as outras"? E se é, que razões justificam a existência de uma Secretaria Regional?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

"O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO É DE UMA IGNORÂNCIA QUE FAZ MEDO"


Regresso a José Niza e dou-lhe toda a razão: "o que mais repugna é o espectáculo da ignorância e o gáudio do populismo". Exacto. Parece-me evidente que constituirá muita confusão para certas cabeças organizar a escola de acordo com outros princípios que não os vigentes. E não estou sequer a entrar no domínio dos considerados sobredotados. Aproveito tais princípios e generalizo-os. "Falo de escolas onde se respeita o aluno e não o sistema; onde as crianças têm a oportunidade de escolha e de definição do seu ritmo; de escolas com flexibilidade do currículo; onde as crianças e os professores, não o sistema, são os responsáveis por estabelecer os blocos de aprendizagem; onde os professores dispõem de uma grande autonomia com os seus grupos de crianças; escolas que não se veneram os velhos paradigmas educativos e onde as novas ideias são bem-vindas; onde a avaliação muda e afina-se constantemente para se adaptarem às capacidades dos estudantes; onde se verifica, na instituição, uma grande capacidade de fuga à rotina pela aceitação da mudança na forma de fazer as coisas". Utopia, dirão alguns. Pois que seja, na expressão de Galeano "ela (utopia) serve para caminhar". Pois então caminhemos nesse sentido, de uma escola de poucos alunos, de reduzido número de alunos por turma, autónoma, com liberdade organizacional e pedagogicamente adulta. Levará vinte ou mais anos, pois que leve, mas não é possível, como ainda ontem escrevi, termos "professores do século XX, a ensinar crianças do século XXI, com as metodologias do século XIX". E pior, ainda, um ministério castrador que vê a educação como um sistema uniforme e tipo interruptor de electricidade: determinam e todos cumprem.


O Sistema Educativo
é um castelo na areia
Andam aí os professores em rodopio para tentarem que os seus alunos consigam as melhores respostas às perguntas do exame. Ao invés da escola estar preocupada com a capacidade dos alunos questionarem, a escola impõe-lhes, como receita, o domínio da resposta prévia. Logo, imagine-se, no 1º ciclo do ensino básico. Para já no 4º ano! Na idade da descoberta, da criação do alicerce sobre o qual deveriam assentar os pilares do "conhecimento poderoso", antes, irracional e acientificamente preferem condicionar as respostas às perguntas que julgam ser importantes para a vida. Daí o exame aferidor se o menino "aprendeu" a lição. Daí a concomitante avaliação dos docentes, partindo do pressuposto que se eles não respondem com acerto é porque o professor(a) não conseguiu condicionar os alunos às desejadas respostas. Como disse o Professor José Niza, uma das figuras que, nas últimas quatro décadas mais se bateu por uma nova pedagogia (o Movimento da Escola Moderna muito lhe deve), o "Ministério da Educação é de uma ignorância que faz medo". Mas, em Maio, quando o ano escolar termina lá para o final de Junho, os meninos terão exame. Trata-se, do meu ponto de vista, do culminar de um círculo vicioso extremamente condicionador, por um lado, da liberdade de ensinar, por outro, condicionador do futuro das crianças. Já aqui, em tempos, transcrevi um texto do Professor José Pacheco, exactamente sobre esta matéria, publicado na edição de Inverno de 2012 da revista A Página da Educação. O artigo começa assim: "A conceituada revista Science deu a conhecer um estudo que contraria tendências reveladas em recentes decisões de política educativa. (...) Deborah Stipek, docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, trabalhou o seu estudo ao longo de 35 anos. A autora do estudo denuncia o facto de os jovens serem treinados para obterem bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. E acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada. (...) Irá o senhor ministro contrariar dados científicos? - questiona e prossegue: (...) Deborah sublinha o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas enquanto prejudicam vidas que poderiam ser promissoras. Em suma, sublinha o Professor José Pacheco, "um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames é prejudicial à aprendizagem. E quem o afirma é a revista Science que tem por título "Educação não é uma corrida". Escutemos a pesquisadora: "O sistema actual baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Esta forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na actualidade faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos mesmo antes da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja o cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém".
Exames no 1º ciclo?
Antes ensinem-as a olhar, ver e descobrir!
Regresso a José Niza e dou-lhe toda a razão: "o que mais repugna é o espectáculo da ignorância e o gáudio do populismo". Exacto. Parece-me evidente que constitui muita confusão, para certas cabeças, organizar a escola de acordo com outros princípios que não os vigentes. E não estou sequer a entrar no domínio dos considerados sobredotados. Aproveito tais princípios e generalizo-os. "Falo de escolas onde se respeita o aluno e não o sistema; onde as crianças têm a oportunidade de escolha e de definição do seu ritmo; de escolas com flexibilidade do currículo; onde as crianças e os professores, não o sistema, são os responsáveis por estabelecer os blocos de aprendizagem; onde os professores dispõem de uma grande autonomia com os seus grupos de crianças; onde não se veneram os velhos paradigmas educativos, porque as novas ideias são bem-vindas; onde a avaliação muda e afina-se, constantemente, para se adaptarem às capacidades dos estudantes; onde se verifica, na instituição, uma grande capacidade de fuga à rotina e aceitação da mudança na forma de fazer as coisas". Utopia, dirão alguns. Pois que seja, na expressão de Galeano "ela (utopia) serve para caminhar". Pois então caminhemos nesse sentido, de uma escola de poucos alunos, de reduzido número de alunos por turma, autónoma, com liberdade organizacional e pedagogicamente adulta. Levará vinte ou mais anos, pois que leve, mas não é possível, como ainda ontem escrevi, termos "professores do século XX, a ensinar crianças do século XXI, com as metodologias do século XIX". E pior, ainda, um ministério castrador que vê a educação como um sistema uniforme e do tipo interruptor eléctrico: determinam e todos cumprem.
Regresso aos exames das crianças do 1º ciclo e pergunto: para quê? para que servem? o que acrescentam? já não tiveram o exemplo consubstanciado nos resultados da avaliação intermédia, realizada em Janeiro passado, onde mais de 50% dos alunos obtiveram resultados inferiores a 50%? porquê insistir no erro? por incompetência e ignorância? Talvez! O que adianta, ao invés de fazerem crescer o interesse pelo conhecimento (com rigor, disciplina e projecto sustentável), atemorizar crianças, tal como era apanágio há muitos anos, com todos os rituais que dominam uma situação de exame? O que ganhámos com isso? E já querem provas de aferição no 2º ano do ensino básico. Novamente, pergunto: para quê? Ou não seria melhor produzir conhecimento, sério, adaptado à idade, o tal lastro conducente aos pilares do "conhecimento poderoso"? E o que pensa o secretário da Educação do governo da Madeira? Certamente que nada, porque nunca o ouvimos sobre matéria que transportasse um novo pensamento científico e estratégico.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 6 de janeiro de 2013

EXAMES NO ENSINO BÁSICO, NÃO, OBRIGADO!


"É preciso redescobrir o signicado de ir à escola, de estudar. Mercado de trabalho e status social são questões que devem deixar de nortear as políticas educacionais. A sociedade valoriza muito mais o trabalho cooperativo, mas a escola forma alunos muito mais focados no trabalho individual" (...) A maioria dos grandes pensadores que deixaram um legado para a humanidade seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido". Portanto, a questão central não pode circunscrever-se aos exames, mas à mudança do sentido de Escola. Mudança de paradigma que é difícil, sublinho, não só porque os políticos não se interrogam, mas porque há uma mentalidade formatada e encaixotada que impede desde logo a discussão séria dos assuntos. E se os centros universitários de formação e investigação bem lutam por uma mudança, a verdade é que se trata de uma luta desigual, simplesmente porque, por ignorância altifalante, os decisores não querem ouvir.


Os alunos do Ensino Básico entraram, no dia 3 de Janeiro, na preparação de contorno acelerado para os exames que terão lugar lá para Maio. O ano lectivo termina em finais de Junho, mas os exames realizam-se um mês antes. Alguém compreenderá, logo à partida, o(s) motivo(s)? Este é, apenas, um pormenor, mas não é isso que realmente me preocupa. Defendo, há muitos anos, que não é por aí que o país melhorará. Trata-se de um tema demasiado complexo para uma abordagem num blogue circunscrito a umas linhas. Para o visitante deste espaço seria, com toda a certeza, fastidioso enquadrá-lo em todas as suas variáveis, porque se trata de um assunto multifactorial. Pretendo, tão somente, deixar aqui algumas pistas, algumas reflexões que despertem o leitor sobretudo para novas interrogações.
Em traços genéricos entendo que o ensino básico visa, fundamentalmente, a criação de um alicerce, um lastro consistente sobre o qual poderão ser edificados os pilares do conhecimento poderoso que virá mais tarde. Quanto mais frágil o alicerce piores serão os resultados futuros. E esta tese não tem nada de utópica e não se trata de qualquer coisa consequência de pensadores que nunca "deram uma aula" no sentido tradicional da expressão. Não, há importantes experiências, uma delas em Portugal, na Escola Pública da Ponte, na Vila das Aves, perto do Porto, e que ontem aqui deixei um texto e depoimentos que, pelo menos para mim, me deixam emocionado por não ter podido viver em pleno uma experiência dessas. Tentei, na verdade tentei, quando fui presidente do conselho directivo da inesquecível Escola dos Ilhéus, no Funchal, no seio de uma notável equipa de professores. Escola que fechou porque o secretário da educação não gostava do que ali se passava. Mas essa é outra história que um dia predispor-me-ei a contar. No passado dia 29 de Dezembro participei num jantar com vinte alunos de uma turma dessa escola que habitualmente se reúnem. Certamente porque a escola lhes deixou alguma coisa, já lá vão perto de trinta anos! Todos adultos e com bons percursos de vida.
Regresso aos famigerados exames. Dizia eu, a partir de agora, os professores, por imposição da hierarquia, vão concentrar as suas atenções nas respostas às perguntas que, possivelmente, constarão dos exames. Está em causa a avaliação dos alunos, mas também a avaliação dos professores. Podem dizer que o exame só pesa 30% ou uma outra percentagem qualquer sem grande peso na avaliação final, mas o sinal exame e preparação específica para o exame está presente. E há quem acredite que, tal como no meu tempo, a via do sucesso é essa. Se nunca foi, hoje, ainda pior, aliás como ressalta de muitos estudos sobre esta matéria.
Não vou muito longe e socorro-me de algumas passagens de um incisivo artigo do Professor José Pacheco (figura que ainda ontem destaquei) publicado na edição de Inverno de 2012 da revista A Página da Educação. O artigo começa assim: "A conceituada revista Science deu a conhecer um estudo que contraria tendências reveladas  em recentes decisões de política educativa. (...) Deborah Stipek, docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, trabalhou o seu estudo ao longo de 35 anos. A autora do estudo denuncia o facto de os jovens serem treinados para obterem bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. E acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada. (...) Irá o senhor ministro contrariar dados científicos? - questiona e prossegue: (...) Deborah  sublinha o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas enquanto prejudicam vidas que poderiam ser promissoras. Em suma, sublinha o Professor José Pacheco, "um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames é prejudicial à aprendizagem. E quem o afirma é a revista Science que tem por título "Educação não é uma corrida". Escutemos a pesquisadora: "O sistema actual baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Esta forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na actualidade faz com que potenciais  vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos mesmo antes da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja o cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém".
Mais adiante, o Professor José Pacheco traz à colação a coordenadora do Centro de Pesquisa em Empreendedorismo da Universidade de S. Paulo: "É preciso redescobrir o signicado de ir à escola, de estudar. Mercado de trabalho e status social são questões que devem deixar de nortear as políticas educacionais. A sociedade valoriza muito mais o trabalho cooperativo, mas a escola forma alunos muito mais focados no trabalho individual" (...) A maioria dos grandes pensadores que deixaram um legado para a humanidade seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido".
Portanto, concluo, a questão central não pode circunscrever-se aos exames, mas à mudança do sentido de Escola. Mudança de paradigma que é difícil, sublinho, não só porque os políticos não se interrogam, mas porque há uma mentalidade formatada e encaixotada que impede desde logo a discussão séria dos assuntos. E se os centros universitários de formação e investigação bem lutam por uma mudança, a verdade é que se trata de uma luta desigual, simplesmente porque, por ignorância altifalante, os decisores não querem ouvir.
Esta mudança, que leva muitos anos, quando está em causa a completa ruptura de um sistema e a paulatina criação de um outro, não significa, no ensino básico, é dele que estamos a falar, ausência de avaliação quer no vértice da pirâmide do sistema (vértice estratégico - ministério ou secretaria regional), quer na linha hierárquica (ao nível de escola), quer ao nível do centro operacional (professores e alunos). Pelo contrário, as exigências são muito maiores, porque formativas, contínuas e sistémicas. Mas para essa construção falta, na expressão de Rubem Alves uma "erecção da inteligência" a todos os níveis!
Deixo aqui dois vídeos exactamente com Rubem Alves. Vale a pena segui-los e explorar o significado e profundidade dos conceitos.




Ilustração e vídeo: Google Imagens.